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Flavia Azevedo
Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 13:00
O Carnaval de Salvador é uma força da natureza, conforme você sabe. É a nossa festa maior, o nosso momento mais sublime. No entanto, para muita gente - que não ousa falar publicamente - o circuito Barra/Ondina ganhou status de “tragédia anunciada”. A afirmação de que o espaço físico daquele pedaço da cidade não suporta mais a crescente massa humana não é mais opinião, mas fato, validado estatisticamente em 2026 por um público recorde de 12,5 milhões de pessoas na capital. Só que o debate sobre o que fazer com o circuito virou um labirinto de opiniões, medos e interesses mal-disfarçados. >
Para compreender as disputas em torno do Circuito Dodô, precisamos levar em conta que ele não é apenas um percurso geográfico, mas o epicentro da viabilidade econômica do Carnaval. Por concentrar os principais camarotes e as estruturas de transmissão de TV, o trecho entre a Barra e a Ondina representa o coração do faturamento comercial e da visibilidade midiática da festa. Essa infraestrutura robusta - que envolve a logística de transmissão e o alto investimento das marcas patrocinadoras - confere ao circuito o status de vitrine. Isso, evidentemente, dificulta qualquer mudança. Alterações nesse cenário impactam diretamente nos contratos publicitários que geram milhões. Então, muito mais do que “afeto” ou “história”, há bastante dinheiro envolvido no caso.>
BaianaSystem movimenta o Circuito Barra-Ondina nesta sexta (13)
Dito isto, no ano passado, diante do óbvio, a administração pública admitiu que a cidade ficou pequena para o evento, com registros de superlotação que ligaram todos os alertas de segurança e mobilidade. Provocada - inclusive por alguns dos artistas que fazem a festa e por moradores da região - a gestão municipal então acenou com providências possíveis. Ao mencionar a possibilidade de remanejamento de atrações para outros espaços da cidade, a reação de setores conservadores da folia foi tão negativa (e agressiva!) que simplesmente o assunto foi retirado de pauta. Mas afinal - pro bem e pro mal - de quem é a responsabilidade técnica e política sobre essa decisão?>
A resposta é complexa, já que o poder sobre a festa é fatiado entre diferentes esferas de competência. Temos a Prefeitura de Salvador, responsável pelo ordenamento urbano e execução logística; o Governo do Estado, que provê a segurança pública e parte do fomento cultural; e o Conselho do Carnaval (Comcar), que é responsável por organizar, fiscalizar e definir as regras dos desfiles, circuitos e a estrutura do evento, incluindo o cadastramento de blocos e trios elétricos. Pela sua natureza plural e representativa, o Comcar é o evidente fórum legítimo onde essa negociação deve ser assumida com honestidade e rigor técnico, uma vez que reúne todos os atores da cadeia produtiva do Carnaval.>
O Comcar é composto por representantes de órgãos públicos e da sociedade civil, incluindo associações de blocos, camarotes, sindicatos de ambulantes e cordeiros. Por ser o espaço onde os interesses comerciais encontram as necessidades operacionais, cabe ao conselho o papel de mediador desse conflito. A solução pactuada no Comcar deve ser, então, acatada e executada pelo poder público como uma decisão de Estado, baseada no consenso de quem de fato opera o evento. A questão é que a pressão é grande e vem de muitos lados. Quem assumiria, por livre e espontânea vontade, a dianteira desse papo?>
A Prefeitura de Salvador fez isso, em outro momento. Provocada por parte da sociedade civil, corajosamente acenou com a proposta de levar parte do Carnaval para a Boca do Rio, como uma alternativa de engenharia criando um novo circuito de quatro a cinco quilômetros. A lógica é sustentável: maior capacidade de vazão, infraestrutura moderna e a preservação do cotidiano dos moradores da Barra, intimamente impactados pelo Carnaval. No entanto, a ideia enfrentou uma barreira de resistências que vai desde artistas consagrados até o temor popular de que a festa perca sua energia e tradição histórica. O debate esbarra na suposta dificuldade de replicar em novos espaços o valor simbólico e o retorno comercial que a paisagem da Barra oferece ao mercado publicitário.>
O que eu sei é que enquanto o Barra/Ondina segue abarrotado, as divergências parecem inconciliáveis. De um lado, nomes como Bell Marques e Daniela Mercury defendem a permanência na Barra alegando questões afetivas e históricas. Do outro lado, a Associação de Moradores da Barra (Amabarra) clama pela mudança, afirmando que o bairro atingiu o limite de sua capacidade de carga, que a infraestrutura local não comporta mais a pressão do fluxo intenso de foliões e serviços.>
Enquanto isso, empresários do setor também opinam temendo prejuízos no turismo e na hotelaria caso a estética icônica da orla seja substituída por um trecho urbano que ainda não tem a mesma importância histórica consolidada para o visitante estrangeiro. O desafio do Comcar é equilibrar todos esses pratos, em mesas de negociações que já deveriam estar abertas há algum tempo.>
A gestão municipal tem tentado equilibrar o fluxo com a revitalização do Circuito Osmar (Campo Grande), buscando oferecer atrativos que redistribuam a massa humana. Neste Carnaval, o Centro finalmente registrou marcas de público que superaram a Barra em dias específicos, o que foi celebrado como um êxito de planejamento estratégico. Porém, essa redistribuição é apenas uma peça de um quebra-cabeça maior; o problema estrutural do Barra/Ondina permanece, com momentos de grande estresse e sobrecarga da região.>
Precisamos urgentemente de uma solução que corresponda à importância da maior festa popular do planeta. O Carnaval de Salvador é um organismo dinâmico que agora exige atualização em seus espaços. Para alcançar essa solução, é necessário que as vozes da cidade enxerguem um pouco além dos próprios umbigos e da disputa (pública e constrangedora) de lugares na ordem de desfile dos trios elétricos no Carnaval.>
@flaviaazevedoalmeida é articulista do Correio, editora e mãe de Leo>