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Flavia Azevedo
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 08:30
Dentro da sala de comando da Saltur, no Campo Grande, o tempo não é contado em horas, mas em trios elétricos que dobram a esquina. Entre dezenas de telas que monitoram cada centímetro dos circuitos e rádios que trazem outras informações, encontramos Isaac Edington. Ele é o presidente da Saltur, o homem que tem as chaves da maior festa de rua do planeta. >
Eu esperava encontrar um executivo estressado, mas que nada. Isaac é massa, zero "estrela" e tem aquela disponibilidade rara de quem topa parar tudo para explicar o próprio trabalho. Isso sempre repetindo, claro, que não faz nada sozinho e que o sucesso da operação é fruto de um esforço coletivo de quem compartilha com ele a mesma dedicação e competência. >
De todo modo, a responsabilidade é tanta que, durante a folia, ele nem dorme. São duas ou três horinhas por noite, em uma rotina cheia de adrenalina. Os dias começam por volta das 9h, monitorando os detalhes do Centro, e só terminam quando o último trio de Ondina apaga as luzes. “Às vezes almoço, às vezes não”, ele confessa, sem drama algum. >
O que acontece naquela sala é uma engenharia apaixonante. Isaac coordena uma cidade efêmera construída dentro da Salvador real, onde cada metro quadrado é disputado. Ele explica que a operação envolve milhares de estruturas montadas nas ruas, um quebra-cabeça que começa a ser armado um ano antes. Por exemplo, se uma praça nova ganha um canteiro dois metros para o lado durante uma reforma urbana comum, todo o planejamento de segurança e logística precisa ser recalculado naquela área.>
Esse conjunto de decisões é o que Isaac chama de “Master Plan”. Para se ter uma ideia da complexidade, a operação exige o remanejamento até de placas de sinalização e postes de iluminação em pontos críticos. Isaac conta que em determinados locais, como no Porto da Barra, postes precisam ser retirados para a passagem dos trios e reinstalados imediatamente após a festa. É um trabalho que exige sincronia total entre diversos órgãos e qualquer falha em uma ponta trava a engrenagem de toda a cidade.>
Mesmo para uma foliona experiente, como eu, algumas revelações são surpreendentes. Por exemplo, eu jamais imaginaria que a Saltur mantém “cavalinhos” - os caminhões que puxam os trios - e equipamentos de guincho pesados estrategicamente escondidos em ruas transversais do Circuito do Carnaval. Então, se um gigante desses quebra na Avenida, o reserva entra, engata e retira a estrutura para que a festa continue acontecendo. É uma operação de guerra por trás da festa, sustentada por um sistema de GPS que monitora cada um dos 164 trios elétricos em tempo real, permitindo que a equipe saiba exatamente onde apertar o passo ou pedir calma para evitar problemas.>
O monitoramento não é apenas pela harmonia estética do desfile, mas também para garantir a segurança pública. A Saltur compartilha as imagens das câmeras da Prefeitura com a polícia em um sistema integrado. Isaac também me explicou como os fiscais de pista - dois ou três prepostos por trio - se revezam em postos avançados. Quando um bloco se aproxima do final de um trecho, a equipe de um posto "entrega" o comando para a próxima, garantindo que nenhum metro do circuito fique sem supervisão humana. É essa capilaridade que permite ao maestro saber se um carro de apoio precisa manobrar ou se um artista deve acelerar o passo, por exemplo.>
A inteligência de dados ajuda também a prever o comportamento das massas. Isaac revela que o uso de sistemas que contabilizam o fluxo de pessoas permite que a Saltur antecipe gargalos antes que eles se tornem um problema. “Trabalhamos com o conceito de governança inteligente. Se o sistema indica uma densidade acima do normal em um cruzamento da Barra, a gente já atua na velocidade do trio que vem antes para aliviar a pressão”, explica. Essa camada tecnológica, que ele pretende expandir ainda mais nos próximos anos, é o que garante que uma multidão de 11 milhões de pessoas possa se mover sem colapsar os serviços básicos da capital baiana.>
Essa expertise acumulada em décadas de “saber fazer” baiano é tão preciosa que deixou de ser apenas um patrimônio local para se tornar produto de exportação por meio da Carnaval Academy. Em uma parceria com empresas de educação corporativa, Isaac faz parte do projeto que transformou os bastidores da folia em uma imersão para executivos e gestores de todo o Brasil. Enquanto o Rock in Rio e a Fórmula 1 já vendiam seus bastidores, Salvador entra agora elevando o nível da conversa.>
A “Academy” não é apenas uma série de palestras; mas um mergulho no “backstage” da maior operação logística do mundo. Há algumas semanas, durante três dias, 50 executivos de vários estados percorreram desde o Centro de Monitoramento até os postos de saúde modelo. Eles viram de perto como funciona o licenciamento de marcas e o sistema de proteção aos ambulantes e patrocinadores. Isaac explica que o objetivo é mostrar que o Carnaval não é apenas um evento, mas uma vitrine de governança moderna. “Exportamos a inteligência baiana. O que fazemos aqui com trios elétricos e multidões é um modelo de gestão que serve para qualquer grande evento global”, afirma com a autoridade de quem rege essa orquestra há muito tempo.>
Os gestores convidados mergulharam na governança da festa, conhecendo desde a operação de inteligência da polícia até o descarte sanitário e a vistoria rigorosa dos trios elétricos. “Muitas vezes, nem quem trabalha no Carnaval há 30 anos sabe o que acontece no resto da cidade; ficam presos à rotina do próprio bloco. Aqui, mostramos que a entrega só é possível por causa desse aparato de governança pública e privada”, destaca Isaac, orgulhoso de ver a Bahia ditando o ritmo da gestão de grandes eventos no país. Mas nem tudo é previsível; há o fator humano, as surpresas e as incertezas do futuro.>
Quando o assunto é a polêmica mudança do circuito da Barra para a Boca do Rio, Isaac é categórico ao afirmar que a discussão está adormecida e não será uma decisão imposta. Para ele, o tema virou uma arena política que prejudicou a cidade, e qualquer movimento só acontecerá se houver um consenso real entre artistas, blocos e público - algo que, por enquanto, não se vê no horizonte. >
Já sobre o Carnaval de 2027 no Campo Grande, o tom é de vigilância. Com as grandes obras de mobilidade previstas para a região, a equipe da Saltur já está nas ruas mapeando possibilidades. Isaac admite que o cenário é complexo: se uma obra abrir um buraco no meio do circuito, a prefeitura terá que decidir se é viável manter as estruturas oficiais ou se o tradicional circuito passará por uma adaptação forçada pela engenharia urbana.>
Por fim, Isaac me faz lembrar que, de manhã, enquanto o folião desaba na cama, entra em cena o exército da limpeza, devolvendo o Circuito impecável para o dia seguinte. E o maestro? Consegue curtir o Carnaval? Na terça-feira, depois de encerrar o expediente na Barra, ele se permite um pouco de folia. Vai ao camarote de um amigo em Ondina, abraça os seus, brinca “uma besteirinha” e descansa o mínimo necessário para estar de pé no Arrastão da Quarta-feira de Cinzas. Que, para ele, ainda é um dia a ser trabalhado inteirinho.>
O projeto Correio Folia é uma realização do Jornal Correio com apoio institucional da Prefeitura Municipal de Salvador>
Por @flaviaazevedoalmeida>