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Maria Raquel Brito
Moyses Suzart
Publicado em 18 de fevereiro de 2026 às 08:00
Uma música inocente da fase pré-escolar bem que poderia virar marchinha do Carnaval 2026: “quem vai chegando, vai ficando atrás. Menino (a) educado (a) é assim que faz…”. No aniversário de 30 anos do Circuito Dodô (Barra/Ondina), o suco de caos deu lugar a brigas de quem sai primeiro no desfile. A situação foi parar na Justiça e no centro desse turbilhão estava justamente a artista que afirma ter inventado o percurso: Daniela Mercury. >
Teve treta para todos os gostos: Daniela levando furada de olho do Psirico, que chegou a passá-la na fila do trio, Filhos de Gandhy reclamando da demora de Bell, trio do Olodum atrasando o lado de todo mundo. O núcleo de tanta confusão começou com um resgate histórico que acabou judicializado. De acordo com a direção do Bloco Crocodilo, a ordem de saída dos trios estaria provocando um rebaixamento progressivo da atração comandada por Daniela Mercury, ao deslocar o bloco para horários cada vez mais tardios. >
A alegação fez com que os responsáveis pelo bloco recorressem à Justiça baiana, que determinou, em decisão liminar na sexta-feira de Carnaval (13), que o trio ficasse com a abertura do desfile no domingo (15) e na segunda-feira (16). Menos de um dia depois, porém, a liminar foi derrubada, mantendo a programação definida anteriormente pelo Conselho Municipal do Carnaval (Comcar). E ninguém sabia mais quem estava furando a fila. Na decisão, o desembargador Rolemberg Costa entendeu que alterar a ordem às vésperas do Carnaval poderia gerar impactos em contratos de patrocínio, logística, segurança e venda de abadás.>
Crocodilo empurrado>
O Bloco Crocodilo defendia que vem acontecendo um deslocamento gradual do centro da fila para posições periféricas, “enquanto outros blocos passaram a ocupar os espaços estratégicos do circuito”. Antes da treta, é preciso saber o contexto da reivindicação de Daniela. Aproveita a ressaca desta Quarta-feira de Cinzas e senta, pois lá vem história.>
Daniela Mercury no Crocodilo no domingo de Carnaval
O trio puxado por Daniela foi pioneiro no Circuito Barra-Ondina, presente na primeira edição oficial do trajeto, em 1996. Naquele momento, integrava no domingo o grupo intermediário do desfile, uma faixa considerada estratégica por concentrar público, visibilidade e estratégia logística. Alcançou ali sua maior posição até hoje: o 5º lugar na saída dos trios. >
Nos anos seguintes, a ordem começou a mudar. No fim dos anos 1990, o Crocodilo passou a oscilar entre 6º e 7º lugares. Nos anos 2000, fixou-se majoritariamente no 8º lugar, deixando o centro da fila. A partir de 2011 começou a aparecer no 9º e 10º lugares. Entre 2019 e 2025, a saída também oscilou, indo do 7º ao 10º lugar. Em 2026, o bloco alcançou sua segunda melhor saída num domingo, em 6º lugar. Na segunda-feira, após chegar a sair na última posição em 2009, 2011, 2012, 2020 e 2023, o Crocodilo foi o sétimo a sair em 2025. Neste Carnaval, foi o nono a desfilar. >
Antiguidade >
Procurado pelo CORREIO, o presidente do Comcar, Washington Paganelli, explicou que a ordem de saída dos trios segue o critério de antiguidade, previsto no regulamento do próprio Carnaval. Dessa maneira, blocos mais antigos têm direito a desfilar primeiro, numa disposição decidida em assembleia anual do Comcar. >
“Nós não deixamos que ninguém passe na frente do Crocodilo, como também não vamos permitir que ninguém passe na frente dos outros blocos”, defende Washington. “Quando a gente chega no banco ou numa fila de self service e tem alguém na frente, isso é respeitado. Os que chegam primeiro são respeitados em todos os lugares. Não é no Carnaval não, em todos os locais. Se você vai entrar num show e tem uma fila, você não vai passar na frente de todo mundo. Um critério justo, digno e acordado por todos. E é assim durante anos, há mais de 40 anos”.>
O problema é que furaram a fila e passaram a rainha, na última segunda-feira de carnaval. Na ordem dos trios que desfilariam no circuito Dodô (Barra-Ondina), Daniela sairia atrás do bloco de Carla Cristina. A artista, alegando solidariedade a Daniela, encostou seu trio elétrico para Mercury passar. Mas a bagaceira foi que, ao invés da Rainha Má, foi o Psirico que passou, sem nenhum pudor, colocando mais molho nesta moqueca de confusão. No meio da ultrapassagem, o Psi resolveu voltar atrás, literalmente. Deu ré no trio e deixou a rainha passar, já com a Padilha no corpo. >
“Márcio Victor, te amo, te amo, mas você que sabe de tudo, o lugar era nosso! Então a gente só está ocupando o nosso lugar, um beijo! Amo você! Nós e o Gandhy, antiguidade é posto”, disse Daniela, alegando que só os blocos afros estavam ao seu lado, fazendo referência a outra treta paralela, entre Gandhy e Bell. O tapete branco ignorou a paz e reclamou do cantor de axé. >
“Respeitem a gente, respeitem os Filhos de Gandhy. Não venham dar carteirada, fizemos um acordo com Bell para sair às 16 horas”, disse um porta voz do afoxé, na segunda de carnaval. >
A liderança >
Voltemos à treta na justiça. Para a direção do Crocodilo, o critério de antiguidade é uma das questões. O bloco argumenta que passaria a ser o primeiro em termos de veteranice devido à extinção dos blocos alternativos Broder, Fecundança, Adrenalina e Me Leva, que desfilavam antes do Crocodilo e deixaram de existir ao longo dos anos. >
“Ou seja: o primeiro lugar passa a ser do Crocodilo. Mesmo quando há pequenas variações positivas, elas não alteram o quadro geral: o bloco deixa de ser tratado como eixo estruturante do circuito”, diz a organização, em texto no qual detalha a reivindicação do bloco.>
Isso é justificado pelo Comcar a partir da possibilidade de permuta entre as saídas dos trios. Acontece assim: se um bloco deseja sair antes ou depois, pode pedir para trocar com aquele que ocupa a posição desejada. Caso o outro bloco aceite, assim é feito, o que possibilita que atrações mais recentes ocupem espaços que eram antes de blocos mais antigos.>
“No decorrer desses anos, houve blocos que deixaram de sair e outros que fizeram permuta do Carnaval. O Broder, mesmo, era o primeiro e trocou com o Bloco Camaleão o lugar na fila, uma coisa que o regulamento permite, e passou a ser o oitavo ou décimo. Também aconteceu com o Fecundança e o Bloco de Ivete [Coruja]”, diz o presidente do Comcar. “E assim o Comcar entende, a Justiça entende, o Ministério Público e todos os atores do Carnaval entendem isso. Não é uma decisão monocrática, é uma decisão democrática.”>
A movimentação pela prioridade da saída repercutiu entre outros artistas que desfilam no Carnaval. Em entrevista a um veículo baiano, Bell Marques defendeu a manutenção da fila e da tradição e descreveu a disputa atual como “muito fora de ética”. >
Diálogo para 2027 >
Durante coletiva de imprensa no último domingo (16), Daniela Mercury disse não ter tido tempo de ver as críticas dos colegas, mas garantiu não ter problemas com outros artistas. “Muito pelo contrário, sempre fui muito gentil, sempre muito carinhosa, sempre muito respeitosa. Quem não está sendo respeitosa é a turma aí, que não está sendo comigo. O resto está tudo bem. Eu não quero resumir meu Carnaval a isso. É porque a gente precisa falar as coisas que precisam ser faladas”, afirmou.>
A esposa e empresária da artista, Malu Verçosa Mercury, também falou sobre a possibilidade de recorrer da decisão para o Carnaval de 2027. “Eu acho que a gente não vai recorrer da decisão, porque essa judicialização que fizemos agora foi no plantão judiciário. O que vamos fazer a partir de agora é tentar novamente o diálogo com o Comcar [Conselho Municipal do Carnaval] e com a Saltur [Empresa Salvador Turismo], que venho buscando ao longo do tempo”, explicou.>
Malu afirmou que foram apresentados registros que indicam a antiguidade do trio, mas que outros critérios passaram a ser adotados para a organização dos horários de saída no circuito. Para a empresária, o Bloco Crocodilo vem sofrendo um “empurramento” no horário.>
“Isso implica não apenas em um posicionamento estratégico para a artista, mas também para a cidade de Salvador, porque é importante que ela esteja em horários nobres. Desfilamos na sexta-feira às 23h. Daniela nunca tinha desfilado nesse horário, porque você chega em Ondina às 4h da manhã”, argumentou.>
Grita geral >
Herdeiro do trio elétrico, o guitarrista Armandinho Macêdo também se posicionou sobre a ordem dos desfiles nos circuitos do Carnaval de Salvador. Na segunda-feira (16), antes se apresentar no Circuito Dodô, o músico afirmou que a ordem da fila deve priorizar os artistas que construíram a história da festa.>
"Foi a gente que fez a base de tudo isso que veio se formar o Axé Music, essa coisa tão importante para a Bahia", disse. O filho de Osmar Macêdo também questionou a prática de aluguel de vagas. "A gente tem problemas com isso também. Com empresários que são donos de vagas, que alugam para quem tem mais dinheiro para pagar e sai na frente da gente", acrescentou.>
Para Armandinho, é preciso fazer uma reestruturação na ordem dos trios. "Essa fila precisa ser remanejada, precisa ser reestruturada, porque tem entidades do Carnaval que têm mais direito a esse espaço. Nós mesmos, por exemplo, só podemos sair depois de blocos tal, tal e tal. Eu digo: por que isso, se nós somos os primeiros? Se nós estamos aqui desde o começo?”, argumentou.>
O músico também avaliou que houve uma mudança no cenário Carnaval, com diminuição do número de blocos. “Já não tem mais aquela quantidade de blocos. E ser dono da vaga é uma situação muito fora de qualquer direito natural”, apontou.>
‘Decisão se cumpre’>
O prefeito Bruno Reis também foi questionado algumas vezes sobre esse assunto em coletivas de imprensa durante o Carnaval e voltou a abordar o assunto ontem (leia mais nas páginas 18 e 19). Na primeira vez, no dia 13, antes da decisão inicial pelo reposicionamento do Crocodilo ser barrada, ele reforçou a autonomia do Comcar na definição da ordem dos trios e afirmou que “decisão judicial não se questiona, se cumpre e se recorre”. >
O prefeito informou ainda que a decisão do Comcar sobre a ordem do desfile leva em consideração uma série de critérios e fatores, inclusive a história de cada bloco. Para ele, o caminho para evitar novos impasses passa pelo diálogo. “Tem que ter essa compreensão para ir fazendo esses entendimentos. Acho que, com diálogo, especialmente para o ano que vem, pode-se posicionar melhor em comum acordo”, acrescentou, no último domingo (15).>
Segundo o prefeito, o comportamento do público mudou ao longo dos anos, alterando a lógica tradicional dos horários considerados mais valorizados.>
“Antigamente as pessoas queriam ir mais tarde para a rua, para não sair no sol, no calor, e voltavam mais tarde. As pessoas estão mudando muito. A gente está vendo essas festas começarem mais cedo e terminarem mais cedo”, afirmou. “Antes o horário nobre do desfile era à noite, 19h, 20h, para as emissoras de TV. Agora não. Estão preferindo sair mais cedo”.>
Além da confusão, os atrasos também foram precursores do carnaval na Barra. Nomes como Anitta e Bell Marques reclamaram publicamente da dificuldade de deslocamento dos trios e da aglomeração de foliões, apontando que o pouco intervalo entre as atrações compromete a fluidez e pode afetar a segurança. >
Durante o desfile, Anitta chegou a interromper a apresentação para explicar ao público que não conseguia avançar porque outro trio bloqueava a passagem, sugerindo depois que espaçar mais as saídas ajudaria na organização. Já Bell relatou ter ficado parado por causa de um problema técnico em um veículo de apoio do Olodum, situação confirmada pelo grupo, que disse ter identificado pneus esvaziados e ainda precisou reduzir o som por orientação policial devido à multidão.>
No ano justamente que Daniela Mercury faz uma homenagem a Exu e a Padilha, com o grito de saudação Laroyê, de abertura dos caminhos, é bom a gente seguir os conselhos de Rita Batista, que comentou em uma das publicações do CORREIO sobre as tretas: “Bora dar comida pra Exu direitinho?”, escreveu. Alguém não está fazendo o padê direito…>
Colaborou Monique Lôbo>