Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Fernanda Varela
Publicado em 21 de fevereiro de 2026 às 13:32
A delegada Amanda Souza, da Polícia Civil de Belém, no Pará, voltou a falar sobre o assassinato dos dois filhos, crime cometido pelo ex-companheiro em 10 de julho de 2023. Ao comentar o caso semelhante ocorrido em Itumbiara, ela criticou comentários nas redes sociais que responsabilizam mães por crimes cometidos pelos pais e classificou esse tipo de julgamento como falta de humanidade.>
Segundo Amanda, ela decidiu encerrar o relacionamento em dezembro de 2022 após perceber que o comportamento do então companheiro se tornava cada vez mais ciumento e agressivo. Meses depois, em julho de 2023, ele matou os dois filhos do casal.>
“Em dezembro [de 2022], diante de todo o ciúme que ele estava demonstrando de forma muito doentia, estava ficando cada vez pior, eu coloco fim ao relacionamento, porque vejo que não tinha mais como manter aquela relação. E aí, em julho de 2023, ele tira a vida dos nossos dois filhos.”>
A delegada afirma que reviveu o próprio trauma ao ler as notícias sobre o caso de Itumbiara, onde o secretário municipal Thales Machado matou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida. O que mais a abalou, segundo ela, foram os ataques direcionados à mãe das crianças.>
Secretário atirou nos filhos e se matou
Violência vicária>
O caso de Amanda é enquadrado como violência vicária, termo usado para descrever situações em que o agressor atinge os filhos ou pessoas próximas com o objetivo de provocar sofrimento emocional à mulher.>
Ela relembra o dia do crime e a ligação que recebeu do ex-companheiro horas depois de ele ter publicado uma mensagem em tom ameaçador.>
“Ele escreve uma mensagem na manhã dizendo que o meu futuro seria de tristeza e solidão. Eu vou para a delegacia trabalhar e aí quando dá quatro horas da tarde, ele me liga e nessa ligação ele me fala: ‘Parabéns, você conseguiu o que você queria. Eu matei os seus dois filhos’. E nesse momento eu peguei a chave do meu carro, fui correndo para minha casa, não como delegada de polícia, mas como a mãe desesperada na tentativa de que aquela ligação fosse mais uma vez uma chantagem emocional. Mas aí eu percebi que não. A cena era real. Eu fui a primeira a chegar e estava lá diante de toda essa atrocidade, de toda essa crueldade que ele conseguiu fazer com os próprios filhos”, disse à BBC.>
Sobrevivência e propósito>
Questionada sobre como conseguiu seguir em frente, Amanda diz que transformou a frase usada pelo agressor em combustível para continuar vivendo.>
“A frase que ele usou para me destruir, que é ‘meu futuro seria de tristeza e solidão’, essa mesma frase eu usei para me manter de pé, porque eu não podia dar a ele a vitória que ele queria. Eu não podia admitir que um homem entrasse na minha vida e ditasse o meu destino.”>
Ela afirma que decidiu tornar pública a própria história para alertar outras mulheres sobre sinais de relacionamentos abusivos.>
“Com toda a certeza. Eu vivi durante 20 anos um relacionamento abusivo e eu não consegui enxergar que eu estava. Então algumas pessoas já conseguem identificar alguns sinais e conseguem se livrar de relacionamentos abusivos. Isso para mim é muito importante. Significa que a gente está conseguindo salvar outras vidas. O meu objetivo é fazer com que a minha história sirva de alerta.”>
A delegada reforça que responsabilizar mães por crimes cometidos pelos pais aprofunda o sofrimento de quem já vive uma perda irreparável e defende mais informação e empatia ao tratar casos de violência contra mulheres e crianças.>