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Publicado em 22 de março de 2026 às 05:00
Voltei a ser filha de minha mãe. Com todas as letras! Um erro de digitação que nasceu pequeno em uma repartição burocrática cresceu livre me causando aborrecimento por mais de três décadas. >
Eu tinha 15 anos. Na emissão de estreia do meu documento de identidade no extinto Instituto Pedro Melo, uma letra intrometida decidiu me acompanhar para a Disney. Eu lembro da menina prometendo a si mesma passar o nome a limpo na volta da viagem! >
Bastou uma letra vacilada. Um “a” de amor atrevido quis se rebelar e mudar a ordem tomando o lugar do “e”. Não era pseudônimo, nem nome artístico. >
- Eu não sou filha de Carman!! É Carmen. Eu tinha vontade de gritar toda vez que me deparava com a situação que eu não parava para resolver. >
Fui me acostumando com o incômodo. Tem erro que acompanha a gente a vida toda. Já me parecia um detalhe insignificante. Que mal faz apenas uma letra trocada? Eu casei, Carman ganhou dois netos, separei. E lá estava ela na sonhada averbação do divórcio. O amor atual logo tratou de intitular a sogra de Carman, francesa! O erro virou apelido. Motivo de piada na família. Até que resolvi passar essa história a limpo.>
Porque a gente convive com o erro por longo período até que, um dia, ele não cabe mais. Determinada a passar um corretivo no nome da minha mãe em meus documentos, tive que ser resiliente. A peregrinação foi do tamanho da burocracia. Quando pensava que, enfim, estava conseguindo resolver, uma informação desencontrada no cartório me fazia quase desistir. Cada vez que encontrava um tempo para cuidar do assunto, já previa o amuamento com as novas exigências. A certidão precisa ser de inteiro teor. Nem sabia que esse documento existia. >
Depois de tantos anos aturando a maçã bichada na grafia da minha árvore genealógica, decidi que resolveria a questão antes que 2025 findasse. A força da ordem chegou como um tsunami depois de um novembro caótico. Eu só tinha um mês para resolver uma questão que se arrastou por mais de 30 anos. Deixar de ser filha de Carman se tornou necessidade primária.>
Minha mãe sempre disse que ordem é importante. Começa ao despertar. Existem estudos que comprovam que arrumar a cama ajuda a organizar as ideias ao longo do dia. Ordem no guarda-roupa, na casa, na bolsa… na vida financeira! Nada de dormir com louça suja na pia. Para os fanáticos da ordem, nem no escorredor. Se o nome tá sujo, trate de limpar para a vida voltar para o eixo.>
Nomes são feitos de letras enfileiradas, uma atrás da outra. Que formam números e têm vibração. Influenciam destinos! Poliana que sou, estou exibindo minha nova certidão como um passaporte de renascimento! Não só as letras voltaram para o devido lugar na papelada. O universo vai reverberar equilíbrio e prosperidade. Na força da ordem, agradeço à francesa que me adotou por tanto tempo, mas retomo meu lugar. Sou filha de Carmen! >
Fernanda Carvalho é jornalista, escritora, autora do Livro A Luz da Maternidade – Relatos de Parto sem Dor conduzidos por Gerson de Barros Mascarenhas.>