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Publicado em 31 de agosto de 2025 às 05:00
Recentemente, volta e meia, tenho visto algumas discussões sobre quem pode ou não pode participar de rodas de samba. Há até quem tente impor fronteiras raciais ou sociais para um gênero musical que, desde a sua origem, é justamente o oposto disso: um espaço de confluência, de mistura e de invenção coletiva. >
Embora todos os estudos sobre a origem do samba coloquem em primeiro plano a matriz africana, nenhum dos principais intérpretes da história desse gênero ignora a presença de elementos europeus em sua constituição. Se olharmos para a sua história, veremos que o samba é, simplesmente, o resultado de muitas culturas que se interpenetraram ao longo de séculos. >
Jairo Severiano, autor do livro Uma História da Música Popular Brasileira, defende que o samba, tal como o conhecemos, não existe na África. Ele é invenção nossa, aqui no Brasil, fruto natural do atrito entre diversas tradições musicais. Segundo Severiano, enquanto os tambores soavam nas senzalas e nos quilombos, circulavam pelo Brasil oitocentista polcas, modinhas e habaneras, frequentando tanto os salões quanto as festas populares. >
Mário de Andrade, um dos primeiros a olhar para a música popular brasileira com rigor intelectual, já apontava, ainda nos anos de 1930, que a modinha - gênero de canção brasileiro de ascendência europeia - foi fundamental para a consolidação do samba enquanto gênero musical. É nesse terreno híbrido que nasce o que alguns chamam de “polca-lundu”: uma fusão entre a dança de origem africana e os padrões formais europeus. Ou seja: sem as duas matrizes, o samba não teria nascido.>
No livro Samba, o dono do corpo, Muniz Sodré escreve que, antes de se tornar urbano e carioca, o samba era um complexo rítmico-coreográfico do Recôncavo da Bahia, ligado a práticas religiosas e profanas, como o samba de roda, mas ressalta que, enquanto a matriz africana estabeleceu o princípio organizador do ritmo, a europeia forneceu o arcabouço harmônico que permitiu a difusão do samba como música urbana. >
O maestro Letieres Leite, assim como Sodré, coloca o Recôncavo baiano como epicentro da gênese do samba e atribui ao sistema rítmico africano o princípio modelador dos elementos europeus, fazendo deles matéria-prima para algo novo. De um lado, os tambores africanos trouxeram o pulso, as claves rítmicas e a síncope. Do outro, os portugueses aportaram com violões, cavaquinhos, bandolins, o sistema tonal e até a polca, que, convenhamos, sozinha não faria ninguém sambar! >
Nei Lopes, no seu inestimável trabalho de pesquisa sobre a música afro-brasileira, também reforça essa visão ao lembrar que os primeiros sambistas transitavam entre mundos distintos: frequentavam terreiros, mas também absorviam as modas urbanas vindas da Europa. Para ele, o samba é ao mesmo tempo resistência negra e diálogo cultural, um gênero que revela, de forma exemplar, um Brasil mestiço.>
Se acrescentarmos Gilberto Gil à roda, a reflexão ganha ainda outra camada. Gil insiste na importância da matriz indígena, frequentemente esquecida. Ele observa que certos contornos melódicos, modos de cantar e até a própria concepção ritual do fazer musical têm raízes também nas culturas originárias. Para Gil, ao lado do tambor africano e da harmonia europeia, o canto indígena é parte da equação que gerou o samba.>
Essas leituras convergem em um ponto essencial: gostemos ou não, queiramos ou não, o samba é mestiço. É negro, branco e indígena; hoje, é popular e erudito; nasceu da interpenetração de tradições. Como escreveu Rodrigo Faour ao analisar a MPB, o samba urbano se consolidou porque soube dialogar com diferentes públicos e absorver influências diversas, sem perder sua identidade. >
É justamente por isso que soa estranho quando alguém tenta reivindicar o samba como propriedade exclusiva de um grupo. O samba, até mesmo pela própria natureza dos fenômenos musicais e culturais, não é aprisionável em cercas nem admite exclusões. Ele foi feito para a roda, para o coletivo, para a diversidade. A roda é circular: quem entra deve ser acolhido, não repelido. Expulsar alguém da roda é trair a própria lógica do samba. >
De pele morena e olhos verdes, o samba é um retrato do Brasil. É fruto da violência da colonização, sim, mas também de uma gigantesca força criativa (o samba é foda!) que nasceu dessa mistura forçada. É resistência, mas também é diálogo. E se há algo que mais de um século de samba urbano nos ensinou é que ele não pode ser privatizado. Se, como disse Gil, o samba é a cara do Brasil, ele é a cara de todas as pessoas brasileiras.>
QUEM É - Guilherme Maia é músico, compositor, mestre em Musicologia pela UNIRIO e doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pelo Póscom-UFBA. É professor da Facom e do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom) da UFBA. É autor do livro Elementos para uma poética da música dos filmes (Appris, 2015) e co-organizador das coletâneas Cinema musical na América Latina: aproximações contemporâneas (Edufba, 2018) e Ouvir o documentário: música, vozes e ruídos (Edufba, 2015).>
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