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Publicado em 5 de março de 2026 às 05:00
Em 2025, as mortes decorrentes de intervenção policial representaram 29% de todas as mortes violentas intencionais registradas na Bahia, quase o dobro da média nacional (16%). Só em Salvador e região metropolitana esse número chega a 43%. >
Esses números deveriam ser suficientes para que governantes, o sistema de justiça e a sociedade civil se mobilizassem em torno dos mesmos objetivos. Preservar a vida e reduzir a violência institucional, funções primárias do que chamamos de segurança pública. >
O plano apresentado pelo governo Jerônimo Rodrigues no ano passado, no entanto, ainda parece insuficiente para alterar esse cenário. O Plano de Atuação Qualificada (PQUALI) prevê uma meta de redução de 10% por semestre. Se esta fosse rigorosamente cumprida, o que não aconteceu em 2025, a Bahia encerraria 2026 e 2027 ainda no topo do ranking por mortes por intervenção policial, com números superiores às 1.140 mortes registradas em 2020. >
Os dados de 2025 do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado para a Região Metropolitana de Salvador confirmam a timidez da meta: 44% dos tiroteios registrados no ano ocorreram em ações e operações policiais, atingindo o maior patamar da série histórica. Ano passado, 40% dos baleados na RMS foram atingidos durante operações policiais, incluindo uma criança. Desde 2023, registramos 109 chacinas, 68% em ações policiais. Elas deixaram 286 pessoas mortas, metade em ações das Rondas Especiais (Rondesp).>
Entre muitos casos mapeados, vale lembrar o da dentista Larissa Azevedo Pinheiro, 28 anos, atingida por uma bala perdida quando estava na garupa de uma moto, a caminho do trabalho, na Avenida Paralela, em março do ano passado. O projétil partiu do fuzil de policiais que faziam uma perseguição. >
É inquietante imaginar que convivamos com uma polícia que acredita que o melhor a se fazer seja atirar, em uma avenida como a Paralela, durante uma perseguição. Quantas pessoas estiveram em risco naquele dia? A sociedade acha que esse tipo de atitude vale a pena sob a desculpa de “perseguir criminosos”?>
O caso de Caíque ainda reverbera na sua comunidade e sangra sua família. Jovem, estudante, barbeiro e que começaria um novo emprego no dia que foi enterrado. Executado mesmo após atender às ordens de agentes da polícia militar. >
A primeira, e esperamos que não seja a única, virtude do PQUALI é o reconhecimento institucional que a letalidade policial na Bahia é um problema grave e que precisa ser combatido. Mas não podemos mais tratar tantas vidas como números e metas a serem perseguidas. É preciso colocar suas histórias em tela, fortalecer políticas que amparem, mas também reparem seus familiares e comunidades, e combater rigorosamente as violências reproduzidas e arraigadas nas práticas institucionais, cometidas por aqueles que deveriam estar a serviço da produção de segurança para todas as pessoas. Acreditamos que dados qualificados sobre segurança e controle social são essenciais para mudanças reais.>
Tailane Muniz, coordenadora regional do Instituto Fogo Cruzado na Bahia, e Dudu Ribeiro, diretor da Iniciativa Negra>