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Publicado em 15 de março de 2026 às 05:00
Domingo, dia 15 de março, os baianos e pernambucanos, em especial, recifenses e soteropolitanos, estarão juntos na torcida. Quase sempre rivais, as indicações para o Oscar do filme O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, e do baiano Wagner Moura, como melhor ator, unem os dois estados mais competitivos do Nordeste. Em comum, Kleber torcedor do Náutico e Moura torcedor do Vitória já estão acostumados a perder. Não vou torcer contra, mas... >
O filme O Agente Secreto foi recebido por parte da crítica com um entusiasmo que beira a perplexidade, não pelo que ele faz, mas pelo que parece evitar fazer. De fato, o roteiro se desenrola em ritmo contemplativo, quase meditativo, o que é uma forma elegante de dizer que o suspense às vezes caminha com a urgência de um domingo chuvoso. A narrativa prefere sugerir a ação em vez de mostrá-la, o que certamente agrada aos amantes do minimalismo cinematográfico, embora alguns espectadores, entre eles eu, tenham saído da sessão imaginando se perderam alguma cena crucial enquanto piscavam.>
Outro ponto recorrente nas críticas é a complexidade narrativa. O filme parece confiar bastante na capacidade do público de preencher lacunas e preencher muitas delas. Personagens surgem, desaparecem e retornam com uma naturalidade que faz o espectador se perguntar se está assistindo a um thriller de espionagem ou participando de um exercício coletivo de interpretação. Mais lento que filme sueco do finado Ingmar Bergman, no meio do filme, do nada, aparece também a já famosa “história da perna”, um momento que conseguiu unir críticos de diferentes correntes em um raro consenso: trata-se de uma das ideias mais inexplicavelmente idiotas do roteiro. A cena parece exigir do público um salto de fé narrativo tão grande que alguns chegaram a se perguntar se aquilo era uma metáfora extremamente sofisticada ou apenas um descuido monumental de lógica.>
Também houve quem notasse que o tom sério e carregado de significado político se mantém praticamente do início ao fim, sem muito espaço para leveza ou dinamismo. O resultado é uma obra que claramente aspira a profundidade e que, consegue mergulhar tão fundo que às vezes esquece de trazer o público junto à superfície. Ainda assim, há que se reconhecer: poucos filmes conseguem ser simultaneamente tão densos, tão silenciosos e tão confiantes de que todos entenderam exatamente o que estava acontecendo, inclusive a inexplicável epopeia daquela perna.>
Wagner Moura é, sem dúvida, um excelente ator. Mas, convenhamos, como Capitão Nascimento em Tropa de Elite ele está em outra liga quando comparado ao Marcelo (Armando Solimões). Talvez porque o personagem simplesmente não tenha muito com o que trabalhar. A história que leva à perseguição e ao assassinato de Armando Solimões no filme é tão frágil que mal se sustenta em pé: uma discussão banal é tratada como se fosse um grande episódio da história nacional. A banalidade do motivo ganha contornos ainda mais irônicos quando associada a uma certa megalomania recifense, típica de ambientes em que pequenas disputas locais são elevadas à categoria de dramas épicos. Assim, algo que em qualquer contexto minimamente razoável seria resolvido com uma conversa de cinco minutos passa a ser reinterpretado como uma afronta intolerável ao Governo Militar. O resultado é um curioso teatro de grandeza imaginária, no qual egos inflados transformam trivialidades em crises de Estado e onde um motivo ridiculamente pequeno acaba servindo de pretexto para um desfecho trágico.>
Piada ou não, o fato é que o superego do povo pernambucano já virou patrimônio do folclore nacional. Há quem diga, no Recife, com absoluta convicção, que foram os pernambucanos que fundaram Nova York. A narrativa recifense é mais ou menos assim: após a expulsão dos holandeses e as batalhas dos Guararapes, um grupo de judeus que havia criado no Recife a primeira sinagoga das Américas teria seguido para a então Nova Amsterdã, território da Companhia das Índias Ocidentais. Lá fundaram a primeira sinagoga dos Estados Unidos e, por uma lógica que só mesmo a imaginação local explica, deram início à construção da cidade que hoje é considerada a capital do mundo.>
A lista de feitos atribuídos ao Recife é tão extensa que dificilmente caberia inteira aqui: o maior festival de cinema em número de espectadores, a mais antiga orquestra sinfônica do Brasil, a primeira emissora de rádio e o jornal mais antigo em circulação da América Latina, o primeiro provedor de internet do país, a escola pública mais antiga, a primeira escola de formação de professores, o primeiro curso de Direito, as primeiras mulheres bacharéis, a maior livraria em número de títulos, a igreja mais antiga do Brasil, o primeiro trem urbano da América Latina, o primeiro pouso de Zeppelin no país, o primeiro túnel, a maior ciclovia em linha reta, a maior avenida em linha reta, o primeiro observatório astronômico das Américas, o maior bloco carnavalesco do mundo e, claro, a maior torcida do Nordeste, do Sport Recife. Até o “melhor paraíso da Terra”, Fernando de Noronha, entra na conta, ainda que cultural e geograficamente esteja muito mais perto de Natal do que de Recife.>
Intrigado com tanta autoestima, algo bem diferente do temperamento mais contemplativo dos meus conterrâneos soteropolitanos, fui procurar explicações e encontrei um texto brilhante do jornalista Lorenzo Aldé. Segundo ele, durante um quarto de século, entre 1630 e 1654, Pernambuco viveu sob domínio holandês, num modelo de colonização bastante distinto do português. Daí nasce a hipótese de que os pernambucanos guardam até hoje a convicção íntima de que, se os holandeses tivessem permanecido, Recife seria uma espécie de Amsterdã tropical. O pequeno detalhe é que a experiência colonial neerlandesa pelo mundo, da Indonésia à África do Sul e ao Caribe, não foi exatamente um manual de prosperidade tropical digno de propaganda de eletrodoméstico.>
De todo modo, quando o domínio português voltou, a convivência tampouco foi tranquila. Mal havia passado uma década e os senhores de engenho já estavam novamente em rebelião. Em 1666, o governador nomeado pela Coroa, Jerônimo de Mendonça Furtado, foi literalmente expulso pelos locais. Se não dava para conviver com os holandeses, tampouco era simples aceitar ordens de Lisboa.>
Essa autopercepção heroica aparece também no discurso político e cultural. A cineasta Luci Alcântara resume a visão local com uma frase direta: “O fato histórico mais importante foi não termos nos rebaixado à Coroa. Por isso pegaram nossas terras. Nós, pernambucanos, não renunciávamos aos nossos direitos, das nossas lutas. Os baianos abriram, por isso ganharam um pedação de terra.” Talvez por isso mesmo não exista em Recife nenhuma rua ou praça homenageando D. Pedro I, considerado por muitos pernambucanos o grande vilão dessa expropriação territorial.>
Lorenzo Aldé sugere que esse passado cosmopolita precoce pode ter criado um certo élan recifense, um sentimento de distinção em relação ao resto do país. Talvez esteja aí a diferença entre o comportamento mais tranquilo dos baianos e o narcisismo vibrante dos irmãos pernambucanos: a sensação de não pertencer ao grupo dos pelegos pró-portugueses vendidos ao Sul Maravilha, mas sim de carregar uma hipotética herança nobre da laranja holandesa.>
No fundo, talvez pudéssemos aprender uns com os outros. Os baianos poderiam admirar mais as virtudes e belezas da nossa capital, enquanto os pernambucanos poderiam dar uma leve reduzida em alguns exageros que às vezes flertam com o delírio.>
Porque, de fato, algumas das bravatas não resistem muito bem a uma rápida checagem de fatos. A maior torcida de um clube do Nordeste, por exemplo, não é a do Sport. Segundo a pesquisa Datafolha de 2024, ela pertence ao Esporte Clube Bahia, com cerca de 6 por cento da preferência regional. O famoso Shopping Recife já foi o maior da América Latina em área construída, mas hoje aparece apenas na sétima posição no Brasil segundo dados da Associação Brasileira de Shopping Centers, a Abrasce. A Avenida Caxangá tampouco é a maior avenida em linha reta da América Latina. Seus cerca de 6 quilômetros perdem facilmente para a Avenida Teotônio Segurado, em Palmas, que tem aproximadamente 14 quilômetros, sendo 12 em linha reta. E Nova York, infelizmente, também não foi fundada por pernambucanos. Em 1609, o navegador Henry Hudson, um inglês a serviço dos Países Baixos, chegou à ilha de Manhattan e abriu caminho para a colonização holandesa da região, então chamada de Novos Países Baixos. A saída dos judeus do Recife após os Guararapes ocorreu apenas em 1649, quarenta anos depois.>
Curiosamente, os recifenses também são profundamente apaixonados por música e têm em Chico Science uma espécie de herói cultural. Para muitos, ele seria o maior compositor brasileiro. Embora seja de fato um artista talentoso e inovador, fora de Pernambuco seu alcance é bem mais limitado do que o de outro conterrâneo recifense: Ivanilton de Sousa Lima. Pouco lembrado no discurso da megalomania local, ele é nada menos que Sullivan, da dupla Sullivan e Massadas, provavelmente um dos maiores fabricantes de sucessos da música brasileira. Entre suas composições estão clássicos como Um Dia de Domingo, gravada por Gal Costa e Tim Maia, Deslizes, de Fagner, Lua de Cristal, eternizada por Xuxa, Nem Morta, de Alcione, e Amor Perfeito, na voz de Roberto Carlos e de Bel Marques. Ou seja, enquanto alguns preferem disputar o título de capital do universo, outros simplesmente escreveram a trilha sonora do país inteiro.>
E antes que me crucifiquem vou torcer pelo O Agente Secreto e Wagner Moura. Afinal são brasileiros e teremos enfim um motivo para comemorar em tempos tão bicudos no Brasil e no mundo. >
Jorge Cajazeira é Ph.D. pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e consultor internacional de empresas.>