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Publicado em 12 de janeiro de 2026 às 05:00
As colônias estrangeiras na Bahia, desde sempre assimiladas, têm perdido as suas identidades e instituições simbólicas. Deixaram de existir aqui o Clube Português e o Hospital Espanhol. O Clube Espanhol encontrou forma de se modernizar e manter. O Hospital Português constitui um dos bons equipamentos hospitalares da Cidade. >
O Galícia Esporte Clube – primeiro tricampeão baiano – já não é mais o mesmo, e a Associação Cultural Caballeros de Santiago perdeu protagonismo. A tradicional Casa d’Itália acaba de pôr à venda sua magnifica sede, vizinha ao Palácio da Aclamação, onde será instalado o Centro Cultural Banco do Brasil.>
Em relação ao continente africano, faltam aos centros culturais Casa do Benin, no Pelourinho, e à Casa de Angola, na Baixa dos Sapateiros, ambas no Centro Histórico, o dinamismo que, por suposto, uma maior aproximação com as respectivas embaixadas permitiria alavancar.>
Embora tenhamos – restaurado – o Cemitério Inglês, na Ladeira da Barra, não há atividades da cultura inglesa entre nós. Registre-se, por oportuno, a presença da importante coleção de pintores britânicos que compõe o acervo do antigo Museu Regional de Feira de Santana, montado por Assis Chateaubriand, hoje incorporado à Universidade Estadual de Feira de Santana (UESF). >
O Festival de Cultura Japonesa e a Festa de São Genaro, ainda que repetidas anualmente, são manifestações efêmeras, que não repercutem na preservação da cultura, confundindo-se no meio do ciclo permanente de festas populares que assola a Cidade.>
São necessários marcos físicos e atividades permanentes. Neste sentido, Curitiba constitui um exemplo a ser literalmente copiado. Cada uma das colônias estrangeiras lá existentes, muitas mais do que aqui, receberam da cidade uma homenagem. Exemplo de política pública municipal.>
Como explicar que não tenhamos aqui uma Praça Galícia, tão expressiva que foi a migração dos galegos para cá? Tanto assim que, ainda hoje, os candidatos a governantes dessa província espanhola vêm aqui cabalar votos. A Xunta da Galícia certamente acolheria de bom grado um pedido para doação de um monumento que ornasse a praça com o seu nome, o que servirá de mote para incrementar o fluxo turístico. >
Portugal não tem, para com as suas antigas colônias a mesma política que a Espanha mantém, o que permitiu, por exemplo, a recuperação do Centro Histórico de Quito, no Equador. Mas é fora de dúvida que algo precisa ser feito, nesse caso em larga escala, para manter ativa a memória portuguesa entre nós.>
Importantes marcos, especialmente de caráter religioso, correm o risco de – literalmente – desmoronarem. Vide o que ainda recentemente ocorreu com o teto da Igreja do Convento de São Francisco. Basta olhar para a Ordem Terceira do Carmo para perceber o estado precário em que se encontra. Neste âmbito também o Iphan, um órgão federal, e o Ipac, em nível estadual, precisam ter atuação mais proativa. A Igreja Católica, por meio da sua Pastoral do Turismo – uma iniciativa meritória – pode catalisar iniciativas das diversas congregações para assegurar a preservação do patrimônio imobiliário e artístico existente nessas instituições, inclusive a imaginária, muitas vezes vítima de roubos. >
Para além da política cultural de editais, seria desejável uma ação articulada entre a Municipalidade e as colônias estrangeiras aqui existentes para resgatar, enquanto é tempo, a presença e os valores culturais dessas comunidades que para aqui migraram, de modo a valorizar o diversificado patrimônio cultural e social da Cidade do Salvador.>
A criação de espaços públicos dedicados a essas comunidades, e a preservação de seus símbolos e valores, constituem uma boa prática no sentido de retribuir a contribuição que trouxeram para Salvador, a primeira capital do Brasil.>
Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.>