Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Publicado em 5 de março de 2025 às 17:12
“Nós vamos sorrir sim. Sorriam”. Foi assim, agora em conotação de felicidade, que muitos brasileiros acordaram na manhã da segunda feira de carnaval. À noite, ouvimos gritos na janela das famílias reunidas, fazendo jus ao clima de copa do mundo, para ver o golaço histórico feito por Walter Salles e tantos outros. >
Nas palavras dele, “este é um momento simbólico”. De fato, o mundo, tanto quanto o nosso país, precisava reviver e sentir as feridas já esquecidas do “cálice de vinho tinto de sangue” da ditadura militar. E é isto que o filme “Ainda estou aqui” traz: a memória viva, que de repente se tornara tão presente, iminente, velada; sentida no arrepio da pele. >
Contado de uma perspectiva humanística, para além da documental, os fatos são apresentados de dentro do núcleo familiar destruído, do olhar de uma mulher, mãe, esposa, ativista; que também reverbera a voz da vivência cruel dos filhos. É desse jeito criativo e à brasileira que a trama nos coloca dentro da sala, oásis de uma vida pseudonormal; no medo das ruas, no temor atrás das janelas. Como deve ser, realístico e empático, não nos pede licença para nos provocar o horror do silêncio e a angústia do vazio, empurrando-nos para ver , de novo ou pela primeira vez, aquele Brasil oprimido. Até que É possível sentir-se como parte da foto em que ouvimos a frase de Eunice Paiva que inicia este texto; na atuação firme, corajosa e revolucionária de Fernanda Torres. >
Disruptivo e emocionante, o filme tem a representação da resistência de um país na força de uma mulher, um retrato absolutamente necessário para os nossos tempos. Dessa forma, traz continuidade com o presente, tão explícito, genial e gentil quanto a participação brilhante de Fernanda Montenegro em uma das cenas de maior lucidez simbólica. Nela, a família reunida celebra o encontro , a presença- vê-se que cada um deles resistiu, reconstruiu e reconciliou-se com a vida. Do lado de dentro da casa, de quem nunca saiu da sala principal, Eunice Paiva vive a ambivalência da própria perda de memória com os lapsos que ainda vem à tona da realidade adormecida, a qual desperta, mais uma vez, diante da imagem do marido na televisão. Como ela, cá estamos nós: com a lembrança nebulosa e outrora perdida dos horrores da nossa história , que agora nos foi devolvida com grandiosidade artística. >
Por sorte , mérito e orgulho nosso, ainda estamos aqui, resistindo através da genialidade de brasileiros que fazem, da arte, a sua existência “para que a realidade não nos destrua”.>
Lara Mangieri >