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Um retrocesso na vacinação que ameaça a saúde mundial

É inadmissível que doenças plenamente evitáveis voltem a ameaçar a sociedade em razão da disseminação de fake news

Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 05:00

A recente decisão do governo dos Estados Unidos de reduzir o número de vacinas recomendadas no calendário infantil, suprimindo a indicação de imunizantes contra influenza, hepatites A e B, meningite, rotavírus e vírus sincicial respiratório, acende um alerta que ultrapassa fronteiras geográficas e atinge o cerne da saúde pública global.

A mudança, que reduz de 17 para 11 as vacinas consideradas padrão, foi justificada sob o argumento de promover um modelo centrado no consentimento compartilhado. No entanto, desconsidera um princípio elementar: os desafios sanitários são globais, interdependentes e exigem respostas coordenadas para garantir a segurança coletiva. Ao relativizar evidências científicas consolidadas em favor de pressões políticas, corre-se o risco de enfraquecer a imunidade coletiva não apenas em um país, mas em todo o planeta.

Esse retrocesso institucionalizado reflete um fenômeno social já amplamente reconhecido: a hesitação vacinal, classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das maiores ameaças à saúde global. Paradoxalmente, as vacinas tornaram-se vítimas do próprio sucesso.

A expressiva redução de doenças imunopreveníveis nas últimas décadas fez com que gerações inteiras não vivenciassem as consequências devastadoras da poliomielite, do sarampo ou de surtos infecciosos letais. Essa distância histórica alimenta uma falsa sensação de segurança, levando famílias a subestimarem a importância da vacinação. A vulnerabilidade, contudo, permanece real: a redução da cobertura vacinal permite o acúmulo de indivíduos suscetíveis, tornando a reintrodução de doenças antes controladas uma possibilidade concreta e potencialmente catastrófica.

No Brasil, a vigilância deve ser redobrada. Os Estados Unidos figuram entre os destinos internacionais mais frequentes para os brasileiros, o que amplia os riscos associados à circulação de agentes infecciosos. Embora o país já tenha sido classificado como de alto risco para a reintrodução do poliovírus selvagem, avanços importantes vêm sendo observados na recuperação das coberturas vacinais, como demonstra a recente recertificação como área livre do sarampo. Nesse cenário, o fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações, referência internacional por seu caráter universal e gratuito, não é apenas uma estratégia sanitária, mas uma questão de soberania e proteção da vida.

Em uma era marcada pela sobreposição de pandemias, emergências sanitárias e doenças reemergentes, cabe ao poder público assumir sua responsabilidade indelegável na formulação de políticas baseadas em evidências científicas e no monitoramento epidemiológico contínuo. Ainda assim, nenhuma estratégia será bem-sucedida sem o engajamento ativo da sociedade e uma atuação intersetorial efetivamente articulada. Reconhecer a ciência e a informação qualificada como pilares da saúde pública é condição essencial para evitar que retrocessos observados em outras nações comprometam décadas de conquistas.

Em um contexto no qual a desinformação encontra terreno fértil nas plataformas digitais, torna-se ainda mais urgente fortalecer políticas que promovam a confiança pública na vacinação. É inadmissível que doenças plenamente evitáveis voltem a ameaçar a sociedade em razão da disseminação de fake news, que se propagam com a mesma velocidade dos vírus e exigem enfrentamento por meio de comunicação clara, empática e baseada em dados. Manter a vacinação em dia é um imperativo ético e coletivo.

A proteção da população, especialmente das crianças, requer rigor, responsabilidade e compromisso contínuo com a saúde pública. Afinal, enquanto um vírus circular em qualquer parte do mundo, nenhum país estará plenamente protegido.

*Ramon Saavedra é sanitarista da Secretaria de Saúde da Bahia e doutor em Saúde Pública pelo Instituto de Saúde Coletiva da UFBA