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Publicado em 17 de março de 2026 às 06:00
Quando me perguntam o que é ser mulher, empreendedora, mãe e esposa ao mesmo tempo, a resposta que me vem à cabeça é simples: é aprender, todos os dias, a existir em muitos lugares sem desaparecer em nenhum deles. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 52% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, o que representa uma mudança estrutural na sociedade pois, cada vez mais, somos nós as responsáveis não apenas pelo sustento financeiro, mas também pela condução emocional e organizacional da família, muitas vezes acumulando jornadas duplas ou triplas de trabalho, dentro e fora de casa. >
Esse acúmulo de funções também ajuda a explicar por que, durante tanto tempo, a saúde feminina foi estudada e avaliada sob uma perspectiva masculina. Eram homens os médicos que cuidavam da saúde da mulher, o que, obviamente, não lhes dava a perspectiva de viver na pele o que vivemos. Além disso, tabus alimentados pela visão da figura feminina como submissa silenciavam temas como menstruação, menopausa, sexualidade e gestação, que simplesmente não tinham espaço nem nas casas nem nos consultórios. >
Hoje, enxergo com otimismo o fato de esses assuntos ganharem visibilidade e saírem do patamar de tabu. Ainda mais importante é vermos cada vez mais mulheres cuidando de mulheres, o que garante uma perspectiva mais empática e integral da saúde feminina. Esse movimento também me transformou; colocou-me à frente de uma empresa cujo propósito é ser companheira de jornada das mulheres em todas as suas fases. >
Liderar uma empresa de saúde sendo mulher, em um mercado historicamente marcado por decisões masculinas, exige revisão constante de mentalidade. Cresci em um mundo moldado por uma visão muito masculina do trabalho e da vida, e foi apenas por volta de 2015 que passamos a discutir equidade de gênero e saúde feminina de forma mais aberta. Desde então, busco me cercar de referências femininas, estudar profundamente a saúde da mulher e criar produtos e serviços realmente pensados para elas. >
Na Vidamina, contamos com uma equipe majoritariamente feminina e de diferentes idades, o que faz toda a diferença para que nossas decisões tenham sempre como centro o propósito de ser companheira de jornada na saúde da mulher. Acredito que mulheres líderes podem transformar suas experiências em combustível para criar soluções que funcionam, exercendo uma escuta mais empática e construindo propostas a partir do diálogo coletivo. >
Ainda assim, os desafios estruturais são muitos, afinal, a maioria dos cargos de liderança segue ocupada por homens, em grande parte porque as mulheres continuam sobrecarregadas com o cuidado da família e da casa. Mais de 90% realizam tarefas domésticas, dedicando, em média, 9,6 horas a mais por semana do que os homens, segundo o Censo 2022/IBGE, além da cobrança social intensa que frequentemente se transforma em autocobrança. >
Essa pressão não é recente, como aponta Naomi Wolf em O mito da beleza (1990), ao mostrar como padrões cada vez mais exigentes foram impostos às mulheres como forma de desviá-las do foco no desempenho profissional. Hoje, essas exigências extrapolam a aparência e se multiplicam em sobrecarga materna, cuidado familiar e ascensão profissional — expectativas que não recaem com o mesmo peso sobre os homens. >
O futuro, ainda assim, me anima, porque vislumbro um cenário em que soluções que tratem a mulher como protagonista do próprio corpo se tornem comuns. Já vemos avanços, como gadgets de monitoramento da saúde feminina, entre eles o MidiHealth em parceria com a Oura Ring, além da Eli e da Clair. Torço para que iniciativas como essas se multipliquem e se tornem mais acessíveis, permitindo que mais mulheres tenham informação e consciência sobre a própria saúde. >
Camila Lucas é CEO da Vidamina>