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As Graças do Brasil

O Brasil conhece seus desafios; falta ambição para soluções duradouras

Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 07:12

A novela Três Graças provoca reflexão ao mostrar três gerações de mulheres que sustentam, com trabalho e cuidado, a vida na periferia. A ficção retrata um padrão real: o Brasil se move pela força das mulheres periféricas que mantêm casas, comércios, escolas e cadeias culturais inteiras.

Segundo o Censo 2022, mulheres chefiam 49,1% dos lares brasileiros, e 60% dessas famílias são lideradas por mulheres negras. Mesmo recebendo 47,5% menos que homens não negros, segundo o Ministério do Trabalho, elas impulsionam a economia com múltiplas jornadas: emprego formal, bicos, cuidado de crianças e idosos, gestão da casa e pequenos negócios. São também consumidoras centrais da economia urbana, responsáveis por movimentar o comércio dos bairros e sustentar cadeias locais.

Essa dinâmica revela a centralidade econômica da mulher negra, mesmo quando não é formalmente empresária. A trabalhadora que atravessa a cidade para o turno de limpeza organiza marmitas; a cozinheira contrata outras mulheres quando fecha um contrato; a costureira integra cadeias de moda que vão do território ao e-commerce. A economia real se faz de tempo, reputação, redes e rotas curtas, não apenas de planilhas.

O desafio, portanto, não é apenas enfrentar desigualdades, mas criar uma arquitetura econômica que faça esse valor render mais e com menos atrito. É preciso financiar cultura, gastronomia, afroturismo, moda, serviços criativos e tecnologia que já geram renda nos territórios. Isso significa crédito sem exigência de imóvel como garantia, compras corporativas plurianuais, aceleração com apoio ao cuidado, tecnologia acessível e dados públicos com recorte de gênero e raça.

O Estado vem reposicionando essa agenda, mas ainda faltam escala, continuidade e coordenação. O que nasce em editais deve se tornar política pública com orçamento previsível, metas claras e monitoramento constante.

As empresas também têm papel determinante. Diversidade é competitividade: incluir negócios liderados por mulheres negras amplia inovação e mercado. Contratos longos, compras inclusivas e apoio tecnológico geram impacto muito maior que ações pontuais.

Realizado entre 28 e 30 de novembro, em Salvador, o Feira Preta Festival mostrou na prática como a economia preta é regenerativa: conecta criadores a mercados, circula capital, fortalece cultura e oferece acesso a conhecimento. Cultura é também estratégia de desenvolvimento.

Outro ponto central é enfrentar a violência contra mulheres. Sem segurança para circular, trabalhar e empreender, não há produtividade possível. Cuidado, transporte, creches e proteção são infraestrutura econômica, liberam tempo e fazem a renda render mais.

O Brasil conhece seus desafios; falta ambição para soluções duradouras. A agenda mínima passa por crédito público parcial, compras inclusivas, tecnologia acessível, bolsa de cuidado e fortalecimento das cadeias da economia preta.

Três Graças lembra que, atrás dos números, há famílias que dependem de renda, tempo e segurança. Feira Preta mostra que cultura, mercado e finanças podem atuar juntos. As Graças do Brasil estão nas cozinhas, ônibus, feiras, salões e aplicativos. Falta ao país confiar nelas, e investir onde o Brasil já acontece.

Adriana Barbosa fundadora e diretora-executiva do Instituto Feira Preta