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Armas, telefone da II Guerra, gramofone e carros: as relíquias do colecionador do Sertão da Bahia

Há 51 anos, Seu Araújo junta um acervo de objetos históricos na cidade de Itaberaba, portal da Chapada Diamantina

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 22 de março de 2026 às 05:00

Seu Araújo, ao lado do gramofone e outras relíquias do seu acervo particular
Seu Araújo, ao lado do gramofone e outras relíquias do seu acervo particular Crédito: Arquivo Familiar

Uma pequena folha de papel, escrita em letras maiúsculas e sublinhada em três linhas, indica a importância do acervo acumulado ao longo de 51 anos: “FAVOR, NÃO TOCAR NAS RELÍQUIAS”.

Desde 1975, quando empenhou um mês de salário de office boy para adquirir um óculos banhado a ouro, Antônio Araújo, hoje com 67 anos, tem vencido a resistência familiar para guardar quinquilharias de diferentes períodos históricos dos últimos dois séculos.

No museu particular, dividido entre o hotel que administra e a casa ainda em construção, ambos em Itaberaba, na entrada da Chapada Diamantina, Araújo contabiliza armas, um telefone da II Guerra Mundial, facas, pianos, gramofone, vitrolas, mimeógrafos, baús, relógios, máquinas de escrever, balanças de precisão, notebooks, celulares antigos e até um carro – um modelo alemão, DKW Belcar, comprado por R$ 7 mil.

“Eu não sei explicar de onde veio toda essa minha admiração por coisas antigas. Meu pai e minha mãe não eram assim. Minha esposa também não. Ela só gostava do que era moderno. Suspeito que, quando eu morrer, meus filhos vão jogar tudo fora”, debocha.

Nascido em Rui Barbosa, mas levado ainda bebê de colo para Itaberaba, o colecionador se tornou uma figura icônica na cidade. Por 24 anos manteve uma loja de confecção e material esportivo até migrar definitivamente para o ramo hoteleiro. Há quase três décadas, administra o Hotel Araújo, localizado na Avenida Rio Branco, centro da cidade.

Os compromissos profissionais nunca o impediram de estudar a fundo a história das relíquias que tanto garimpa. “Muitas escolas fazem excursão até o hotel e lá eu explico todo o material que tenho. Me sinto realizado nestes momentos, porque consigo transmitir o tanto que aprendi com os objetos que guardo”, aponta, orgulhoso.

A mais valiosa relíquia

Araújo sabe separar muito bem dois conceitos distintos que organizam o seu antiquário: o que tem valor e o que é realmente precioso. Na primeira categoria, ele enumera sobretudo peças que fazem parte da história de Itaberaba – município que neste mês de março completa 149 anos de emancipação.

Como, por exemplo, um apito índigena, provavelmente da etnia dos Maracás, encontrado próximo da pedra de Itibiraba, cartão postal da cidade. “Esse artefato deve ter cerca de 200 anos. Foi achado em uma escavação”, explica.

Outros dois materiais do mesmo gênero são as ferramentas de mestre Paulo, considerado o primeiro mecânico da cidade, e o chapéu de Rafael Sincorá de Andrade, um dos mais antigos advogados da região.

“Até uns anos, eu dizia que não vendia nada da minha coleção. Nem que me oferecessem preço de ouro com brilhante. Mas, a vida vai apontando caminhos muito diferentes. Fiquei viúvo e decidi que precisava terminar a construção da minha casa, há 15 anos em obras. Por isso, precisei vender algumas peças”, conta o colecionador.

Nessa leva foram embora uma cristaleira de mais de 150 anos; o primeiro relógio de parede de Itaberaba e o baú da primeira escrivã da cidade. Sob hipótese nenhuma, entra em leilão aquilo que considera o mais precioso bem da sua coleção: dois bonecos de pano herdados da sua tia, que morreu aos 99 anos.

“Tem uma foto de quando eu tinha 4 anos, que estou com minha mãe e minha tia. Nela, estou segurando um pimentão em uma mão e, na outra, um desses bonecos de pano. Quando minha tia estava no leito de morte, me disse que daria esses bonecos para guardar. Isso é de uma confiança indescritível. É o tipo de coisa que não vendo de jeito nenhum", pontua.

Ânimo, projeto e amor

Pela vitalidade e disposição, o espírito de Antônio Araújo em nada não se confunde com a natureza envelhecida dos objetos que conserva. Ele conta que mantém uma rotina acelerada. Acorda às 6h15, levanta para comprar pão para o hotel, carrega mala dos hóspedes e faz questão de conversar com todos eles durante o café da manhã.

“Meu projeto é viver mais 50 anos para colecionar ainda mais coisas. Os celulares que tenho, peguei para guardar porque sei que no futuro vão ficar antigos. Então, já estão na minha coleção”, ri da engenhosidade.

Ainda sobra tempo para brincar com o único neto, dar assistência ao casal de filhos e planejar novas aquisições. O atual objeto de desejo é uma Fobica bigode, de 1929 – muito parecida com a usada por Dodô e Osmar no desfile do primeiro trio elétrico no Carnaval de Salvador. O automóvel custa em torno de R$150 mil.

No campo do amor, não esconde suas preferências. “Eu amo as mulheres mais velhas. Namorei dois anos, um mês e 16 dias com a última que foi uma grande paixão. Infelizmente acabou e agora estou solteiro. Mas pronto para amar novamente”, brinca.

Essa coluna é dedicada a Debora Rezende, amiga jornalista dos contos e dos pontos, e que ‘descobriu’ Seu Araújo.

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Histórias Curiosas