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André Uzeda
Publicado em 1 de março de 2026 às 05:00
Não existe nenhuma placa na Praça Castro Alves ou em nenhum circuito do Carnaval que lembre a maior tragédia ocorrida durante os dias de folia em Salvador. >
Há quase quarenta anos, em 2 de março de 1987, sete pessoas foram esmagadas por um trio elétrico alegórico que perdeu o controle e desceu desgovernado da Rua Chile à Praça Castro Alves. O incidente aconteceu às 1h50 de segunda-feira, no comecinho do desfile do bloco Commanche do Pelô.>
De acordo com relato dos foliões a este CORREIO à época, o caminhão (de placa BJ-8944) estava em péssimo estado de conservação e vinha apresentando problemas elétricos desde a concentração do bloco, no Terreiro de Jesus. >
Ao começar a descer a Rua Chile para entrar no circuito da festa, o motorista perdeu completamente o controle dos freios e virou passageiro do próprio veículo que conduzia.>
Ao perceber que o caminhão descia desgovernado, os músicos em cima do trio sinalizaram para que os foliões – sem sucesso – tentassem segurá-lo. O resultado foi um esmagamento, com pessoas sendo retiradas sem vida embaixo das rodas. Houve princípio de pânico que causou pisoteamento e deixou pelo menos 25 pessoas feridas. Assustado, o motorista fugiu do local sem prestar socorro às vítimas.>
Era o desfecho trágico de um Carnaval marcado por uma série de incidentes. Um dia antes, o teto de uma casa onde funcionava uma Delegacia Especializada caiu, deixando três policiais feridos. Na noite daquele mesmo domingo, um operário foi morto à tiros dentro do circuito.>
O mais impressionante é que, mesmo diante destas mortes causadas pelo trio elétrico desgovernado, o Carnaval de Salvador não parou. No dia seguinte, a programação da festa se manteve intacta. >
A única medida, à pedido da Federação dos Clubes Carnavalescos (hoje Federação das Entidades Carnavalescas e Culturais da Bahia), foi que os trios colocassem uma tarja preta – um indicativo de luto – entre seus equipamentos de som. E, antes do início dos desfiles, foi feito um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.>
Naquele dia, morreram Djalma Ferreira dos Santos, de 43 anos; Edivaldo Fagundes Virgínio, de 16 anos; Marilene Silva da Costa, de 18 anos; Maria das Graças Teixeira de Andrade, 24 anos e Maria José Santana da Silva, de 27 anos. >
Maria Santana estava no oitavo mês de gestação, além de estar acompanhada da filha Nadja Santana, de um ano e sete meses, que também morreu no acidente.>
Eu falei ‘Faraó’>
O Carnaval de 1987 é bastante lembrado no imaginário baiano não pela tragédia, mas sim pela celebração de um movimento musical que ganhou corpo justamente naquele ano. A música ‘Faraó (Divindade do Egito)’ foi consagrada por meio da voz potente de Margareth Menezes, puxando o bloco afro Olodum. >
A atual ministra da Cultura do governo Lula foi a sensação daquele verão, batendo outras canções também lançadas em 1987, e que viriam a se tornar igualmente icônicas, como ‘Selva Branca’ (de Carlinhos Brown) e ‘Haja Amor’ (de Luiz Caldas).>
A composição do Olodum, escrita por Luciano Gomes, é considerada um marco fundador do samba-reggae – uma nova estética percussiva que viria a redefinir a célula musical baiana e também o próprio Carnaval. >
Filmes, documentários e livros que retratam a história da folia baiana quase sempre assinalam a importância de 1987, mas é raro mencionarem a tragédia que se sucedeu naquele mesmo ano. >
O prefeito da época era Mário Kertész (MDB), atual dono da Rádio Metropole. Em seu profundo livro de memórias recentemente lançado (‘Riso-Choro e tudo mais que vem no meio’), Kertész não dedica nenhuma linha ao episódio ocorrido na Praça Castro Alves.>
Jogo de empurra>
A tragédia com o bloco Commanche do Pelô foi causada por uma cadeia de eventos e ajudou a redefinir parâmetros de segurança para os anos seguintes.>
A prefeitura disse, à época, que a responsabilidade sobre a vistoria caberia ao Detran, por ser o órgão incumbido de fiscalizar os veículos que trafegavam na cidade. Até aquele ano, os caminhões que puxavam os trios eram os mesmos utilizados no dia-a-dia.>
Já o Detran, culpou a prefeitura, que deveria fiscalizar por meio da Secretaria de Transportes – responsável por conceder o alvará permitindo o desfile. Acontece que, às vésperas do Carnaval, tanto os funcionários do Detran quanto da Secretaria de Transportes da prefeitura estavam em greve, protestando por melhores salários em meio à crise econômica com o desgastado Plano Cruzado II, do governo de José Sarney.>
A partir da tragédia que matou sete foliões, as vistorias passaram a ser mais rigorosas e se tornaram exigências fundamentais para a liberação do desfile dos blocos.>
Esta coluna é uma homenagem às vítimas do carnaval de 1987 e seus familiares.>