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Carnaval de 1987 em Salvador teve sete pessoas esmagadas por um trio elétrico desgovernado

Durante desfile do bloco Commanche do Pelô, o caminhão perdeu o controle e atropelou foliões na Praça Castro Alves

  • Foto do(a) author(a) André Uzeda
  • André Uzeda

Publicado em 1 de março de 2026 às 05:00

Acidente foi destaque na edição de 4 de março de 1987
Acidente foi destaque na edição de 4 de março de 1987 Crédito: Acervo Correio

Não existe nenhuma placa na Praça Castro Alves ou em nenhum circuito do Carnaval que lembre a maior tragédia ocorrida durante os dias de folia em Salvador.

Há quase quarenta anos, em 2 de março de 1987, sete pessoas foram esmagadas por um trio elétrico alegórico que perdeu o controle e desceu desgovernado da Rua Chile à Praça Castro Alves. O incidente aconteceu às 1h50 de segunda-feira, no comecinho do desfile do bloco Commanche do Pelô.

De acordo com relato dos foliões a este CORREIO à época, o caminhão (de placa BJ-8944) estava em péssimo estado de conservação e vinha apresentando problemas elétricos desde a concentração do bloco, no Terreiro de Jesus.

Ao começar a descer a Rua Chile para entrar no circuito da festa, o motorista perdeu completamente o controle dos freios e virou passageiro do próprio veículo que conduzia.

Ao perceber que o caminhão descia desgovernado, os músicos em cima do trio sinalizaram para que os foliões – sem sucesso – tentassem segurá-lo. O resultado foi um esmagamento, com pessoas sendo retiradas sem vida embaixo das rodas. Houve princípio de pânico que causou pisoteamento e deixou pelo menos 25 pessoas feridas. Assustado, o motorista fugiu do local sem prestar socorro às vítimas.

Era o desfecho trágico de um Carnaval marcado por uma série de incidentes. Um dia antes, o teto de uma casa onde funcionava uma Delegacia Especializada caiu, deixando três policiais feridos. Na noite daquele mesmo domingo, um operário foi morto à tiros dentro do circuito.

O mais impressionante é que, mesmo diante destas mortes causadas pelo trio elétrico desgovernado, o Carnaval de Salvador não parou. No dia seguinte, a programação da festa se manteve intacta.

A única medida, à pedido da Federação dos Clubes Carnavalescos (hoje Federação das Entidades Carnavalescas e Culturais da Bahia), foi que os trios colocassem uma tarja preta – um indicativo de luto – entre seus equipamentos de som. E, antes do início dos desfiles, foi feito um minuto de silêncio em homenagem às vítimas.

Naquele dia, morreram Djalma Ferreira dos Santos, de 43 anos; Edivaldo Fagundes Virgínio, de 16 anos; Marilene Silva da Costa, de 18 anos; Maria das Graças Teixeira de Andrade, 24 anos e Maria José Santana da Silva, de 27 anos.

Maria Santana estava no oitavo mês de gestação, além de estar acompanhada da filha Nadja Santana, de um ano e sete meses, que também morreu no acidente.

Durante desfile do bloco Commanche do Pelô, o caminhão perdeu o controle e atropelou foliões na Praça Castro Alves
Durante desfile do bloco Commanche do Pelô, o caminhão perdeu o controle e atropelou foliões na Praça Castro Alves Crédito: Acervo CORREIO

Eu falei ‘Faraó’

O Carnaval de 1987 é bastante lembrado no imaginário baiano não pela tragédia, mas sim pela celebração de um movimento musical que ganhou corpo justamente naquele ano. A música ‘Faraó (Divindade do Egito)’ foi consagrada por meio da voz potente de Margareth Menezes, puxando o bloco afro Olodum.

A atual ministra da Cultura do governo Lula foi a sensação daquele verão, batendo outras canções também lançadas em 1987, e que viriam a se tornar igualmente icônicas, como ‘Selva Branca’ (de Carlinhos Brown) e ‘Haja Amor’ (de Luiz Caldas).

A composição do Olodum, escrita por Luciano Gomes, é considerada um marco fundador do samba-reggae – uma nova estética percussiva que viria a redefinir a célula musical baiana e também o próprio Carnaval.

Filmes, documentários e livros que retratam a história da folia baiana quase sempre assinalam a importância de 1987, mas é raro mencionarem a tragédia que se sucedeu naquele mesmo ano.

O prefeito da época era Mário Kertész (MDB), atual dono da Rádio Metropole. Em seu profundo livro de memórias recentemente lançado (‘Riso-Choro e tudo mais que vem no meio’), Kertész não dedica nenhuma linha ao episódio ocorrido na Praça Castro Alves.

Jogo de empurra

A tragédia com o bloco Commanche do Pelô foi causada por uma cadeia de eventos e ajudou a redefinir parâmetros de segurança para os anos seguintes.

A prefeitura disse, à época, que a responsabilidade sobre a vistoria caberia ao Detran, por ser o órgão incumbido de fiscalizar os veículos que trafegavam na cidade. Até aquele ano, os caminhões que puxavam os trios eram os mesmos utilizados no dia-a-dia.

Já o Detran, culpou a prefeitura, que deveria fiscalizar por meio da Secretaria de Transportes – responsável por conceder o alvará permitindo o desfile. Acontece que, às vésperas do Carnaval, tanto os funcionários do Detran quanto da Secretaria de Transportes da prefeitura estavam em greve, protestando por melhores salários em meio à crise econômica com o desgastado Plano Cruzado II, do governo de José Sarney.

A partir da tragédia que matou sete foliões, as vistorias passaram a ser mais rigorosas e se tornaram exigências fundamentais para a liberação do desfile dos blocos.

Esta coluna é uma homenagem às vítimas do carnaval de 1987 e seus familiares.

Tags:

Carnaval Tragédia Praça Blocos Fiscalização de Trios Elétricos em Salvador