Uriel mon amour, I love you, cadê tu?

Por Rogério Menezes

Publicado em 17 de setembro de 2017 às 09:08

- Atualizado há 10 meses

. Crédito: Foto: Angeluci Figueiredo/CORREIO

Cais da Urca, Rio de Janeiro. Meio-dia. Calor tórrido. Talvez 2012. Os meus neurônios cozem em panela fervente de azeite de dendê, ao som de jam session intracraniana na qual se misturam: 1. Metallica. 2. Intenção expressa de dar um tiro no futuro.   Caminho nervoso. Quase estapeio a bunda gorda de velhusca simpática, mas apalermada, que ziguezagueia a bunda gorda à minha frente, sem saber se leva a bunda gorda para a direita ou para a esquerda.

Quem me salva de cometer tal indelicadeza – não se deve perder a delicadeza nunca – é o fato de, ao olhar para o lado, perceber: acompanha-me, com olhar compassivo, cachorro branco com manchas pretas, cuja cabeçorra chega quase à altura dos meus ombros.  

Não precisamos de apresentações – é, tenho certeza, anjo-cachorro que cisma de me acompanhar para me tirar o foco do atoleiro existencial no qual me afundo. Andamos alguns metros, trocamos olhares amistosos, com certeza não éramos estranhos – a  simples companhia dele me reconforta a ponto de lhe abrir largo sorriso, e ele também me sorri.

Nosso transcendente e encantador encontro é  interrompido por bofe enfezado e bombado de esteroides, Aos berros, chama o anjo-cachorro que me flerta. Com voz de placido-domingo-de-araque, urra: - Uriel, meu bebê. Volte pro ‘papi’, volte! O placido-domigo-de-araque tonitrua outra vez: - Uriel, Uriel! O cão mais elegante que já vi, feito espelho, reflete meu rosto de desespero e tenta me dizer: - Salve-me desse verme, cara!

O ‘papi’ de Uriel, arfante, enfim nos alcança, abraça-o, e me olha como se eu fosse estátua de barro do cavalo do bandido. Então lhe pergunto: - Este é um dálmata gigante, não? O bofe altera-se: - Veja como fala. O Uriel não é dálmata coisa nenhuma. É nobilíssimo e premiadíssimo dog alemão.

[Uriel o olha com raiva, e novamente me dirige o pensamento: - Livre-me desse bofe nojento, cara!] Invade-me vontade inexorável de enfiar faca enferrujada na pélvis do canalha e levar Uriel para minha casa. O bofe nojento o puxa com força, mas Uriel, em cabo-de-guerra cão-homem, pende cada vez mais na minha direção – até se soltar de vez e correr para me lamber o rosto. Também lambo o rosto de Uriel.

Começo de tarde de sábado. Sol a pino torna boca banguela da baía da Guanabara enorme braseiro, no qual cariocas e não cariocas se deixam assar. Na areia da Praia Vermelha, menino olha para o alto e aponta: - Mamãe, o que é aquilo voando perto do Pão de Acúcar?  A mulher não sabe o que responder. Respondo por ela: somos eu e Uriel, abraçados, flanando nos ares rumo a conjunto de nuvens em Niterói, onde seremos felizes para sempre. 

[Abrolhos. Ao redor, o trivial simples de sempre: o quarto nu. Levanto e procuro: não há Uriel algum. Vou á janela e esbravejo: - Urieeeeeeeeel!!!!.  No silêncio da madrugada fria, voz ameaçadora ecoa ao longe: - Cala a boca, viado!