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Elton Serra
Publicado em 9 de fevereiro de 2015 às 07:52
- Atualizado há 3 anos
“Futebol é força e velocidade”. Com certeza, você já deve ter ouvindo algum treinador falar esta frase em alguma entrevista coletiva. Um conceito que, nos últimos anos, tem tomado conta do futebol baiano, fazendo com que a sua essência se perca em meio à correria que se tornou o esporte mais popular no país.Hoje se fabrica muito mais jogadores que correm do que aqueles que pensam – os chamados jogadores de beirada, de borda, de lado de campo... Chame como quiser. Atletas que são colocados para correrem atrás do lateral adversário ou funcionarem como falsos laterais no último terço do gramado, fazendo jus à frase citada no começo desta coluna. O futebol tornou-se mais veloz, mas menos inteligente, visto que esses “novos pontas” garantem verticalidade no jogo, porém tiram a objetividade na finalização.Ao longo de sua história, o Vitória teve pontas brilhantes. Na década de 1970, jogava com Osni pelo lado direito e Mário Sérgio pelo esquerdo, com ambos também tendo versatilidade para centralizar e armar o jogo. No início dos anos 90, Alex Alves, atacante com muita velocidade e força física, tinha suas características equilibradas à capacidade técnica de Paulo Isidoro, meia que pensava a partida como poucos na sua geração.No Bahia, Zé Carlos teve suas primeiras oportunidades no profissional como ponta-direta, mas sua inteligência de entender o jogo o levou para o meio-campo. Jogadores mais cerebrais costumavam ser deslocados para a faixa central do campo, a fim de fugir da correria das laterais. Isto não fazia de Osmar, Sandro e Marquinhos, por exemplo, atletas menos inteligentes que Zé Carlos, proporcionando ao tricolor alternativas táticas fundamentais para o sucesso do time na segunda metade década de 1980.Obviamente que as referências são de quase trinta anos atrás ou mais, porém servem para entender o quanto o futebol baiano – reflexo do futebol nacional – mudou. Na última semana, o Vitória anunciou oficialmente Rhayner, atacante que, apesar da função, tem poucos gols contabilizados na carreira. O jogador de beirada se junta a atletas com as mesmas características: Willie, Wellington e Rogério. São atletas capazes de incomodar os adversários pelas pontas, mas que não são definidores, tampouco criadores. O rubro-negro pode até ser montado no 4-3-3, com Rogério e Rhayner abertos, mas seguramente um dos meias será sacrificado para dar espaço a um jogador veloz.Atletas rápidos são fundamentais em qualquer esquema tático. Entretanto, o futebol baiano, em particular, não tem sido capaz de produzir homens que pensam o jogo, sejam volantes ou meias. Em compensação, revela e contrata em profusão os famosos jogadores de velocidade, que muitas vezes rendem pouco nos irregulares campos do interior do estado. Se o cenário permanecer desta forma, continuaremos elogiando motores potentes e sentindo saudades de bons motoristas.Bahia No sábado, o Bahia iniciou o triunfo por 3x1 diante do Jacobina com uma jogada bem trabalhada por Rômulo, jovem que parece entender o jogo em que está inserido. Passe preciso para o gol de Kieza que, centralizado, rende muito mais do que aberto pela ponta esquerda, longe da área.Vitória Ontem, no triunfo do Vitória contra o Serrano, Vander fez um belo gol de fora da área – o segundo do rubro-negro na partida. Jogador classificado como meia-atacante, ainda é uma ponta de esperança naqueles que procuram um jogador veloz e com boa capacidade de finalização. Tem tudo para, em 2015, recuperar o bom futebol apresentado nas categorias de base do Bahia.Elton Serra é comentarista e editor de esportes da Rádio CBN Salvador. Escreve durante as férias de Miro Palma>