Expandir o som, o desafio do rádio

Conheça a história da chegada do rádio na Bahia, nos anos 1920

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  • Nelson Cadena

Publicado em 7 de março de 2024 às 05:00

Os inventores do rádio não aprenderam nada com as lições da história. Mais de três séculos após o surgimento dos primeiros jornais e outro tanto das revistas, as duas mídias originadas na Alemanha, os inventores do rádio não apostaram na possibilidade de a caixa falante ser um dia uma mídia de massa como as que a precederam. E, enquanto “brincavam” de transmitir e ouvir sinais, não lhes ocorreu fabricar qualquer coisa que pudesse expandir esses sinais. E foi assim que, enquanto surgiram centenas de emissoras no mundo, na década de 1920, no Brasil algumas a partir de 1923; e na Bahia, a primeira em 1924, não se tinha receptores que pudessem configurar uma audiência.

Quem desejasse ouvir a programação das emissoras de rádio no Brasil tinha que ter especialização técnica para montar um aparelho de galena, o mais simples, que utilizava as propriedades semicondutoras do mineral, na Bahia, abundante no município de Mundo Novo. Ou, importar peças de vários fabricantes e montar algo mais sofisticado, com tubos, ou seja, válvulas, que custavam os olhos da cara. Até a massificação dos rádios de marca, prontos, os Telefunken, Phillips e Philco, o improviso na fabricação dos aparelhos foi a regra.

Os aparelhos rudimentares não expandiam o som, o ouvinte usava uma espécie de fone de ouvido. Fabricantes mais sofisticados inventaram o receptor com duas entradas de fone de ouvido. Audiência da zorra. Duas pessoas, na mesma residência, podiam ouvir a emissora ao mesmo tempo. Um olhando para a cara do outro, sem a obrigação de montar ou adquirir mais de um aparelho. Enquanto isso, as emissoras brasileiras, na sua maioria denominadas de sociedades e clubes, se esforçavam em aumentar o número de associados.

Para ter o direito de ouvir uma rádio, o cidadão pagava uma taxa mensal em torno de 5 mil réis, um jornal diário custava 100 réis e palpitava sobre a programação de sua preferência, a partir de enquete publicada nas revistas “Rádio” e “Antenna”. Era meio induzida, elencando uma dúzia de assuntos, dentre os quais música séria, música leve, palestras para senhoras, noções de higiene, informações comerciais e bancárias, poesias, alocuções patrióticas, histórias morais para crianças, conferências científicas e literárias...

Quando a Rádio Sociedade da Bahia montou a sua grade de programação, em 1925, um dos mais assíduos conferencistas foi o Dr. Inácio Tosta Filho, futuro Secretário de Agricultura no governo de Arthur Neiva, com a série “Caixas Raifessen”, o sistema de crédito rural europeu que teria inspirado cooperativas agrícolas no Rio Grande do Sul. E, em 1927, o candidato ao governo do estado Vital Soares apresentou a sua plataforma na rádio. Antes, na Sociedade do Rio de Janeiro, o professor de mineralogia da Escola Politécnica da Bahia, Alfeu Diniz Gonçalves, dissertara sobre “Pedras Preciosas” e o historiador, folclorista e poeta baiano Mello Morais Filho declamara poemas de sua autoria.

Rádio, mesmo sem audiência de massa, empolgava. A venda de aparelhos se dava porta-a-porta, os vendedores deixavam o receptor na casa do futuro cliente, a título de experimentação. Retornavam uma a duas semanas depois propondo pagamento em até doze parcelas. Modelo de crediário. Era um produto sofisticado, caro. A estratégia vingou e o rádio se popularizou. Já era mídia de massa no final da década de 1930.