FLAVIA AZEVEDO

Qual é seu problema com a 'lacração de tragédia' das subcelebridades?

A verdade é que, se não há um ganho, o ser humano não faz nada

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  • Flavia Azevedo

Publicado em 11 de maio de 2024 às 11:00

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Tô ligada que, por exemplo, Pedro Scooby (ex-BBB e de Luana Piovani) tá trabalhando bastante pelo próprio capital simbólico enquanto dá esse rolê de resgatar pessoas e animais, lá em Porto Alegre. Toda hora ele aparece contando vitória sobre um obstáculo muito dificultoso, descrevendo um salvamento emocionante e já apareceu até rezando, em roda, com os bróder dele. Parece que são todos bastante religiosos, então. Também pilotos do tipo que salva - de moto aquática - surfista que levou caldo em ondas gigantes. Mas não sei como é isso direito.

O que eu sei é que, enquanto pratica o bem lá pelo Sul do país, em alguma vara de família do Sudeste deste mesmo Brasil, ele responde pelos vocativos 'outra parte' e 'genitor', num infinito quebra-pau jurídico. Do lado de cá (sim, 'de cá' porque não sou otária nem negacionista da violência que mulheres sofrem nesses processos) está Luana. Proibida de falar dele, porém dando jeito de contar todas as loucuras judiciais e extrajudiciais do processo.

(De acordo com ela, inclusive, o filho mais velho do ex-casal - o que mora com ele, no Rio - estava há 20 dias sem ir para a escola. Agora, parece que a madrasta da criança resolveu o problema.)

Entre outros desacertos, o intrépido voluntário também já incluiu foto de Luana nua nos autos do processo. Pra deixar a fria papelada mais humanizada? Quem dera fosse. Mais provável que tenha sido pra dar uma forcinha a um 'eventual' machismo de algum juiz que poderia pensar 'olha que mãe depravada' e não dar mais razão a ela em nada. Desqualificação da imagem materna, negócio super comum. Quando não estamos 'inconformadas com a separação', somos 'desequilibradas' ou não prestamos de jeito nenhum. Ainda cola e nosso herói tentou.

Problema é que Luana, lá de Portugal, não come reggae. Dá entrevista, fala, denuncia e queima ele cada vez mais. Isso importa no processo e na vida. Reverbera e ele sabe disso. Quer dizer, tá precisando limpar a barra dele? Tá. E aí não basta a vozinha de carioca good vibes de quem ralou pra chegar 'onde chegou'. Que não sei onde é porque não acompanho direito negócio de surfe, mas agora tô sabendo que ele desceu no mapa pra praticar excelentes ações.

Do mesmo modo, eu tinha passado incólume por todo o BBB e igualmente ilesa pelo pós-BBB. Conhecia o tal Davi só de relance e sequer pude opinar nas calorosas discussões sobre se ele era marido ou não de Mani, a moça que o publicitário baiano premiado transformou em ex-BBB mesmo sem nunca ter sido. Eu não sabia direito, mas agora tive que estudar. Precisamente, desde que o ex-BBB que ganhou o jogo mostrou comprando litros e litros de água em Santa Catarina, mostrou dizendo quantos litros ia entregar em Porto Alegre, mostrou fazendo vaquinha, mostrou rindo no meio dos gaúchos resgatados e mostrou mexendo panela de comida para os refugiados climáticos do Sul.

Porque a confusão com a ex-nãoseiexatamenteoquê 'dividiu o Brasil' e o vencedor do jogo começou a perder seguidores na vida. Seguidores servem para multiplicar dinheiros e todos sabemos que quatro milhões precisam dar cria e tal. Pelo que entendi, depois que veio para a vida real, Davi perdeu a hegemonia da opinião pública. Sendo assim, saiu de Salvador pro Sul, pra buscar. Por enquanto, o programa 'levar uma nêga pra comer na torre Eiffel' (ele que disse num podcast) vai ter que esperar.

Há outros (muitos!) exemplos parecidos, mas vou desviar só um pouquinho pra comentar o sensacional vídeo de Jojo Todynho. Essa eu acompanho. Gosto por muitos motivos e acabei rindo um pouco quando ela publicou uma fala emocionadíssima pedindo a não-sei-quem que for responsável por alguma coisa que faça alguma coisa porque a situação no Sul tá difícil. 'Fala da enchente, Jojo, tá pegando mal não falar', acho que alguém soprou. E lá foi ela, brifada só com o título, se jogar. Coragem não falta ali. Pelo menos tentou.

Acabou se saindo melhor do que tantos outros que dizem algo como 'estou arrasado, já fiz minha doação' (quem viu?) e seguem com seus conteúdos de unhas, cabelos, roupas, carros e viagens. Assim, como se a tragédia coubesse num pequeno intervalo comercial. Não cabe, mas já é alguma coisa. No mínimo, tocam no assunto. Todos estão fazendo alguma coisa e se lhe incomodam as motivações, deixe eu lhe contar um segredo: a 'caridade' sempre foi feita em troca de algo.

Votos, moral com deus, popularidade, o amor do outro, companhia, 'ter um propósito', reencarnar melhor, paz de espírito, ver a felicidade de quem a gente ama ou apenas se sentir uma pessoa mais legal. A verdade é que, se não há um ganho, o ser humano não faz nada. Aliás, nem de bom, nem de mau. Essa é uma característica nossa, não fui eu que inventei. O que a gente pode discutir é a natureza do ganho que essas pessoas têm, então? É, sim.

Pense direitinho. Qual é seu problema com a 'lacração de tragédia' das subcelebridades? É porque a ‘bondade’ vai virar dinheiro? Vai mesmo. Sim, estão fazendo pra 'se promover'. Ou estão fazendo e se promovendo. Uns com mais elegância, outros sem qualquer noção. Mas muitos deles estão surfando nas ondas do Guaíba e é bom você se acostumar. Esse é o maior ganho do nosso tempo: a aprovação do outro que recheia bolsos. Quanto mais gente aprovar, melhor.

Numa metáfora, é como se 'deus' - essa ideia que, pela onisciência, conduzia à uma caridade mais silenciosa - tivesse mudado de lugar. Se, antes, 'Ele' sabia do que se passava em todos os corações (e recompensava as ‘pessoas boas’), agora é preciso mostrar, publicar, lacrar. Porque 'deus' passou a ser o olhar do outro que leva ao paraíso ou ao inferno e não se zangue comigo não. Estou apenas te lembrando a dinâmica dos cancelamentos e das pessoas que ficam milionárias apenas exibindo suas rotinas em redes sociais. A ‘lacração de tragédia’ é só mais um lance no jogo. Relaxe. Fique tranquilo que ainda vai piorar.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo