Quem matou Luana Andrade?

A cirurgia da moça foi o tipo do procedimento necessário para a cabeça da mulher brasileira

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  • Flavia Azevedo

Publicado em 11 de novembro de 2023 às 11:00

Você não precisa ter a minha sólida formação em medicina, conquistada em tantas madrugadas assistindo Grey´s Anatomy. Muito menos ter passado semanas acompanhando os plantões do Doctor House. Também não é necessário ter cursado “Conversas com Profissionais de Saúde I, II, III e IV”. Mesmo não sendo especialista como eu, se tiver alguma curiosidade em relação à área, já deve saber que qualquer cirurgia tem riscos. Exatamente. Todas. Por melhores que sejam o hospital e a equipe.

Desde extrair um dente até retirar um sinal na pele, passando pela tão banalizada cesariana, chegando aos transplantes de órgãos e cirurgias no cérebro, que sempre metem um medo danado. Todas precisam ser bem indicadas e isso significa fazer uma cuidadosa ponderação entre riscos e benefícios. Assim, a depender do cenário, extrair uma unha pode ser considerada uma ação irresponsável. Por outro lado, a amputação de um membro é “o menor problema”, diante de determinados quadros.

Tudo tem a ver com a relação entre a condição do paciente e a necessidade do procedimento. A equação é bem simples, em tese, mas sofisticada na prática porque não existe uma pessoa igual à outra em todo o planeta. Então, a bem da verdade (e da ética), as duas variáveis precisam ser estudadas e isso é caso a caso. Não há uma resposta que sirva a todos os pacientes, justamente porque “todos os pacientes” não existe. Cada qual é (e precisa ser percebido) em sua individualidade. Pelo menos devia ser assim.

Por esses dias, uma moça morreu durante uma lipoaspiração no joelho. Eu não sabia que existia lipoaspiração no joelho. Mais do que isso, jamais poderia imaginar que, além de existir, houvesse algum caso em que lipoaspiração no joelho fosse uma necessidade. Não, não vou ridicularizar a moça. Muito menos me contradizer. Indivíduos são indivíduos. Em cada pessoa, específicas condições e necessidades, lembra? O que interessa aqui é a reincidência de uma mesma necessidade em mulheres que morrem, em número cada vez maior, nas mesas dos cirurgiões plásticos, no Brasil. Aí, passamos a falar do coletivo.

“Ela não precisava ter feito isso”, dizem. Ela precisava, sim. Precisava demais, foi lá e fez. Mesmo que não tivesse consciência dos riscos, sabia dos incômodos e não se importou. Do mesmo jeito que eu usava lentes de contato 24 horas por dia, apesar do desconforto e perigo. Do mesmo modo que minha amiga precisa tomar Ozempic e passar mal o dia todo, mas não come, tá magra, então insiste. Todas depositamos nossa cota de dor e sangue no altar do deus da “beleza”, em algum momento. Não, não é uma “deusa”. Ele é masculino, impiedoso e, muitas vezes, exige a nossa vida em sacrifício.

Antes disso, nos tira a lucidez, desde pequenininhas. O mundo acontecendo, ele protegendo os dele (homem pode ser “feio”), enquanto nos enlouquece aos gritos de “odeie seus pés!”, “esconda essa pinta!”, “tenha medo do tempo!”, “sinta vergonha da sua barriga!”, “veja como seus peitos são caídos!”, “pinte esse cabelo!”, “você precisa se arrumar!”, “só vão lhe amar se você for bonita!”. No fim, estamos exaustas e sequeladas, com os rostos desfigurados, os corpos cheios de cicatrizes, obcecadas por produtos de “beleza”, investindo tudo nessa “missão de vida”. Ou de morte, como aquela menina.

Quem matou Luana Andrade foi ele. É mais uma no altar de uma estrutura que nos quer – quando não limpando a casa e cuidando de homens, idosos e crianças – obcecadas com a ideia de “beleza”. Fúteis, superficiais, entretidas com unhas postiças, skin care e novas técnicas de intervenções para ficar mais “bonita”. O plano é perfeito, como pode perceber. Se cumprimos a “missão”, não nos sobra tempo, dinheiro nem saúde pra fazer mais nada na vida e ficamos quietas, exatamente onde nos colocam, historicamente: longe das decisões importantes, fora dos espaços de poder, servindo para cuidados e entretenimento alheio.

(Observe que a “taxa rosa” vai muito além de valores mais altos em produtos e serviços femininos.)

(Na maioria das vezes, mesmo quando ficamos ricas e conhecidas, não “influenciamos” ninguém além de outras mulheres sobre como emagrecer, se vestir “com elegância”, decorar a casa, cuidar de crianças, arranjar um homem,“enlouquecer um homem na cama”, “manter o relacionamento”, “trabalhar a espiritualidade”, fazer maquiagem, finalizar os cabelos e deixar a bunda duríssima. Ou seja.)

(Não acredite em mim. Pesquise o percentual de mulheres onde as coisas são decididas: na política, no topo das grandes empresas, no corpo docente das universidades, na ciência, na filosofia, no judiciário e no jornalismo que não seja fofoca de "celebridades" ou entretenimento. Por exemplo.)

Não só as “famosas” precisam. A cirurgia da moça foi o tipo do procedimento necessário para a cabeça da mulher brasileira comum. Pode mudar o nível da doença, mas estamos todas fodidas. Sugiro, portanto, que em vez de julgar a “futilidade” da outra, preste atenção no seu próprio comportamento. Principalmente, entenda que quando mulheres questionam as intervenções estéticas, a obrigação de pintar cabelos, as sobrancelhas assombrosas, as unhas de Zé do Caixão e as bocas de salsicha, não é inveja nem pirraça. Pode ser uma saudável insubordinação, inclusive.

Não é “cada uma faz o que quer”. Se fosse, tava lindo. Não há liberdade nisso, acorde. Se houvesse, pelo menos gozaríamos. É o mínimo. Mas mais de 70% das mulheres brasileiras nem sabem o que é um orgasmo. Pelo menos, não no encontro com “o outro” para o qual “precisam” estar “lindas”. Isso diz muito, perceba. Ser um corpo, mas não habitar o corpo. Estar alienada do corpo. Ser “sexy”, mas não sentir prazer. Maltratar, rejeitar, torturar o corpo. Se distanciar do corpo. Veja que não é só morrendo pra tirar gordura do joelho que se perde a vida.

(“Mas e a responsabilidade do médico que fez a cirurgia?”, você pode estar se perguntando. Ô, criatura, pelamordedeus. A depender, eles arrancam até seu olho bom, se você quiser e puder pagar por isso. Já está posto, é sabido. Então, deixa o mensageiro pra lá e vamos cuidar da gente.)

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo