Xuxa e Galisteu disputam amor de um homem que morreu há décadas

Não importam personagens, mas o texto, o discurso, a mentalidade.

Publicado em 5 de agosto de 2023 às 10:00

Xuxa, Senna, Galisteu
Ex-namoradas querem o Selo Ayrton Senna de Qualidade Crédito: Arte: Quintino

Não tenho nada contra nem a favor de uma nem da outra e sei que as vidas delas estão "ganhas", confortáveis e luxuosas. Tudo certo. Quero só usar como exemplo mesmo. Precisamente, a parte de domínio público, exposta pelas próprias donas dessas vidas. Especificamente, o "diálogo" recente, entre ambas, sobre o finado Ayrton Senna.

Em resumo, pra quem não tá sabendo: motivadas pelo documentário sobre a "rainha dos baixinhos", Xuxa e Adriane Galisteu estão disputando o amor de um homem que morreu há décadas. Pode acreditar. Duas das (várias) "ex" de Ayrton Senna estão, em 2023, competindo pra ver quem era a mais amada, pelo piloto, em 1994. Pelo menos foi o que eu entendi.

Na troca de "farpas", publicada em tudo que é canto, o ponto central é decidir qual delas era a mais "mulher dele", quem tem "mais direito" ao título de "viúva", de quem ele gostava mais, quem era o "grande amor" de "Beco". Talvez até definir com quem ele ficaria "para sempre", se vivo continuasse. Ou seja, quem é "mais importante", entre as duas.

Xuxa e Adriane Galisteu disputam o Selo Ayrton Senna de Qualidade, é isso. E quem merece mais? Adriane - que era a namorada "oficial" - ou Xuxa que seria um desenlace "mal-resolvido"? Tem torcida dos dois lados, tem "posição da família dele". Não procurei mais detalhes, não me interessa. É o sentido disso que importa aqui.

Porque observe, essas criaturas são bem-sucedidas. Ricas. Uma com 50 anos e a outra com 60. Mulheres maduras e lindas. Têm dinheiro de sobra pra fazer viagens incríveis e procedimentos estéticos de alta tecnologia. Mas também para ler livros maravilhosos de filosofia e pagar psicanálise. Até quatro vezes por semana, se houver necessidade ou vontade.

No entanto, apesar de tantas conquistas e possibilidades, estão preocupadas em ganhar a validação de um defunto, reivindicam importância na vida de um homem morto há quase 30 anos. Precisam ser, por ele, "amadas". Não, caro leitor, isso não é bonito de jeito nenhum, seja quem for o homem em questão. Mesmo sendo esse famosíssimo que todo mundo adorava e morreu de forma trágica.

Se fosse disputa pela herança, eu até entenderia porque dinheiro tem utilidade pra qualquer mortal. Mas nem é. O caso é apenas o print mais recente da maior fragilidade feminina. Taí ela de novo, toda arreganhada, inclusive tirando onda com a cara da Barbie do filme. Também trolando Anitta que acabou de dizer que não "venceu na vida" porque tá pegando um boy padrão, como os fãs afirmam. Que venceu sim, mas porque é dona da própria existência.

Toda certa está a cantora. Precisando ser carinhosamente didática com uma maioria que ainda acha mulher "incompleta" até que um macho chegue pra assinar embaixo como quem diz "essa daí vale algo". Aí, pronto, ela faz sentido, tá aprovada. O homem que é a "grande conquista", o objetivo final. Todo o resto é apenas caminho. Percebe o desatino?

Quem vê esses episódios apenas como "fofoca de artista" é porque só pensa na superfície. Não importam personagens, mas o texto, o discurso, a mentalidade. Sempre tudo igual, definindo (e refletindo) relações e escolhas de vidas femininas. Raciocine aí. Extrapolando, você vai chegar às notícias, ao número (sempre crescente) das violências que sofremos. Mulher "precisar de homem" é uma doença perigosíssima que enfraquece nossa imunidade psíquica.

(Não tô culpando vítima nenhuma, tô incluindo esse padrão de "necessidade de validação masculina" na lista de "comportamentos de risco".)

Por isso que passei a achar Luana Piovani ótima e cito, já que hoje o assunto envolve "famosas". Numa entrevista recente, entre muitos assuntos, ela falou dos problemas com o pai dos filhos de forma honesta e abrangente, contou do namorado novo e disse que nunca sofreu por homens, que eles sempre foram "instrumentos".

Sabemos que pessoas não são coisas e que em qualquer relação, todos somos sujeito e objeto, ao mesmo tempo. Também que de um sofrimento romântico ou outro ninguém escapa e isso é normal. Mas, dadas as nossas circunstâncias coletivas, achei o exagero da atriz útil e saudável.

A mudança da direção do fluxo de nosso interesse, é sobre isso que ela fala. Nosso protagonismo dentro das nossas próprias cabeças. Na prática, em vez de (às vezes mesmo depois de décadas) a emoção feminina se debruçar sobre a questão "o que eu significo pra ele?", talvez seja importante começar a perguntar "o que ele significa pra mim?". Dentro dessa lógica, é possível que a ideia de "mas ele me ama" não seja mais suficiente para nos colocar e manter em relações. Pulo da gata tá aí.

Por enquanto, segue a treva de um mundo no qual mulheres bem-sucedidas se engalfinham pela validação de um ex-vivente e todos discutem o assunto de dentro do assunto, achando a disputa absolutamente corriqueira, até esperada. Ninguém estranha o conteúdo, as pessoas apenas se limitam a opinar na "enquete" pública. Eu me escandalizo, fico apavorada e toda vez vou falar. Vigia, gente. Vigia, pelo amor de Darwin. É de muita fragilidade esse lugar.

Flavia Azevedo é articulista do Correio, editora e mãe de Leo