GIL VICENTE TAVARES

Escrevi esta carta como uma denúncia

Tomei esta decisão porque o provável futuro que se aproxima é nefasto, e é preciso que você saiba de certas coisas sobre o lugar onde você vive

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  • Gil Vicente Tavares

Publicado em 14 de maio de 2024 às 05:00

[Olá,

Escrevi esta carta como uma denúncia. Tomei esta decisão porque o provável futuro que se aproxima é nefasto, e é preciso que você saiba de certas coisas sobre o lugar onde você vive, e que muitas vezes você pode não ter ideia exatamente.

O partido que está no poder, agora, odeia a Arte.

É um partido de apelo populista, e que apresenta um discurso que pode ludibriar as massas. No entanto, tudo não passa de uma grande estratégia para que o partido se mantenha no poder.

E, para isso, é preciso que a Arte seja destruída.

Sabemos que nossa terra sempre fez germinar grandes artistas, poetas, e é mundialmente conhecida por isso. Mas, infelizmente, cada vez mais quem se destaca é porque saiu daqui. O exílio parece ser a única saída do artista. Os que aqui ficam, estão, em sua maioria, com medo. Há uma insegurança e uma falta de perspectivas de trabalho, de políticas para as artes e, com a demolição do setor, o quadro é desolador.

Os políticos desse partido falam em exaltar nossa cultura e tradição.

Insuflam na gente um orgulho sobre nossa raça, e discursam que é preciso investir em nossas raízes.

“Chega de estrangeirismos! Basta de influências de outras culturas!”

Essa gente esquece que nossa terra, como todas as outras, foram formadas justamente pelas trocas, influências, contaminações e misturas de culturas.

Essa gente talvez até saiba que a busca por uma cultura própria, genuína, autêntica, é uma falácia, mas ao dizer coisas assim, boa parte da população é tocada pelo espírito gregário, tribal. As pessoas têm cada vez mais mundos à sua frente, para ampliar seu horizonte, e preferem construir muros e repelir o estrangeiro, fortalecendo fronteiras que foram criadas por guerras, sangue, exploração, invasão e acordos escusos.

E a Arte sofre diretamente com isso. O quão pobre e limitada pode ser uma arte que não amplia sua visão sobre o mundo e a humanidade, que não faz do mundo sua casa, que não se aproveita de tudo que apreende do diferente para se ver como espelho ou máscara?

Pois é assim que o partido que nos governa quer destruir nossa arte.

Eles, do partido, odeiam quem tenha competência e visão mais ampla, com ideias e pensamento crítico.

Eles sabem que uma Arte livre não tem rédeas e é um belo cavalo selvagem que não pode ser selado. E o partido quer destruir espíritos livres, e precisa manter seu populismo, mostrar uma face que é nefasta, mas aparentemente bela. Um pensamento que exalta a própria cultura, que busca nas raízes e na tradição o real valor de uma Arte que precisa estar conectada com a essência de seu povo. E esse espírito rapidamente contamina a opinião pública. Separar, segregar, defender muros sempre seduziu mais que unir, misturar e construir pontes.

Existem diversas formas de censura. O partido pode oficialmente proibir determinada Arte e reprimir determinados artistas. Ou pode, mais cinicamente e perversamente, simplesmente fechar todas as possibilidades de subvenção e oportunidade para determinados artistas através de comissões “democráticas”. Destarte, utiliza-se de um recurso aparentemente justo, mas basta que as pessoas escolhidas para as comissões, e os critérios, por vezes nebulosos, vão ao encontro de todo esse discurso de exaltação da própria cultura, e perseguição ao exotérico. As comissões acabam sendo apenas uma diversidade de opiniões iguais.

E o discurso faz com que uma maioria que apoia o partido celebre o declínio, decadência e fim das diversas formas de arte que, de repente, se tornam degeneradas, traidoras da própria cultura, experimentando e sofisticando linguagens que não interessam ao homem comum; segundo dizem.

Desta maneira, a Arte vai sendo oprimida com a conivência dos que se deixam seduzir pelo populismo canalha do partido.

Posso afirmar que estamos numa terra devastada. Precisamos tirar esse partido do poder, sob pena de vermos a Arte de nossa terra definhar até virar apenas a terra do “já teve”.

Se você leu essa carta até aqui, peço que reflita sobre o que já foi a arte de nossa terra, e o quanto o atual partido foi nefasto para nós, artistas.

Espero que daqui a cem anos, vocês olhem para nós com piedade, e que a carta, mesmo não mudando a situação atual, sirva para que num futuro, que espero breve, as pessoas não leiam essas palavras como se fossem de uma carta endereçada ao seu tempo.]

O documento acima tem noventa anos, segundo sugerem pesquisas recentes da Universidade de Reykjavik. Foi encontrado dentro de uma escultura, em Aachen, por um restaurador, ao tentar reparar uma imagem de São Lucas, entre escombros de guerra. Há uma versão do mesmo período em italiano, apócrifa, encontrada anos depois, em Lugano, na Suíça, em meio aos pertences de um fagotista judeu de origem italiana.

Há uma polêmica sobre a versão em russo. A carta, manchada de sangue, estava no bolso de um soldado da Geórgia morto em Leningrado. Encontrava-se junto a um cartão postal não enviado, endereçado à mãe do rapaz, onde ele dizia que sempre ria e lembrava dela ao reler O nariz, de Gógol.

Ainda não se chegou a um consenso sobre qual das três foi a original, mas o fato é que são exatamente iguais, cada uma em sua língua.

O ano era 1934. Dez anos do fascismo de Mussolini na Itália. Segundo ano de Hitler no poder. O partido fascista tinha chegado ao governo em 1924, há exatos cem anos, quando também Adolf Hitler tentou dar um golpe de estado e foi preso. Cometeu um crime contra a democracia e foi eleito depois pela própria, como salvador.

1934 foi também o ano em que ocorreu o assassinato de Serguei Kirov, rival político e possível sucessor de Stalin. O que serviu de pretexto para Stalin iniciar os expurgos que, tão violentamente, marcaram um período de terror na União Soviética.

Três regimes que, para além de todas as desgraças, perseguiram as Artes.

Tudo isso com o apoio da população, mesmo de maneira negligente e desinteressada, que nada fez para tirar esses partidos do poder. E se havia pessoas do partido que prezavam pela Arte, essas acabaram sendo cúmplices da tragédia.

Muita coisa pior eles fizeram, sabemos.

Mas a carta, especificamente, fala, indiretamente, da relação de Mussolini, Hitler e Stalin com as Artes e os artistas, como forma de provocar você a refletir sobre como políticos e gestores podem ser nefastos para nós.

E para que estejamos sempre atentos ao que partidos podem fazer contra a Arte, perseguindo, oprimindo e destruindo a mesma. E cinicamente se dizendo a favor do povo.

Afinal, a arte não tem fronteiras. Assim como é perseguida igual em diversos países e épocas, é também um pégaso que atropela elegantemente qualquer muro, a caminho de uma imaginação que não conhece limites. Porque arte é liberdade.

Como a que tive, agora, de inventar essa carta para vocês.