Nelson Cadena: cocô de pombo

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Publicado em 23 de outubro de 2015 às 01:31

- Atualizado há 10 meses

Não pense leitor que vou aqui perder meu tempo com o cocô de pombo da Codeba, esse é assunto para a editoria geral ou de política,  a minha inspiração é outra: um sincero sentimento de indignação diante da ousadia de um bando de pombos que todo dia no Campo Grande não se constrange em cagar em  cima da estátua de Catharina Paraguassu, nenhum respeito com os nossos ancestrais, e já observei também, em cima dos leões que Carlo Nicoli esculpiu com tanto carinho nos distantes idos de 1895.

E a minha preocupação é que, se não dermos algum jeito, até o caboclo do alto do monumento, 25,86 metros acima do chão, está ameaçado de ver a sua dignidade profanada, pois, quem sabe, um dia um pombo mais atrevido faz escadinha nas estátuas de baixo e vai se aliviar lá em cima, bem na ponta do cocar. Não é de se admitir tamanho desrespeito com o nosso símbolo maior da Independência, já bastam outras tentativas que vêm de baixo, ao longo do tempo. Em todo caso vale a pena ficar alerta.Não sei de quem foi a ideia de introduzir os benditos pombos nesta cidade de São Salvador. Originário da Europa ou da Ásia, há divergências, o animal não veio com Thomé de Souza e eu já sabia disso por uma simples dedução: os bichos não têm o menor respeito e consideração pelo nosso primeiro governador, ficam o dia todo cagando no chapéu do mandatário na estátua da praça que leva seu nome e um e outro disputam a cabeça do bronze como ponto de observação, passam horas ali deitados. Se você costuma andar pelo centro da cidade e repara nos detalhes sabe do que estou falando.   E é tamanha a falta de sentimento pátrio e pouco apreço pela nossa diplomacia que já andam cagando também a cabeça recém-pintada de nosso querido Barão do Rio Branco, na pracinha restaurada pela prefeitura, no ensejo do centenário da Avenida Sete, ali nas imediações da Fundação Politécnica. E um desses pombos, no horário da tarde, quando a sombra se evidencia sobre as mesas onde os jogadores de dominó gritam a pleno pulmão, desce ao gradil e sobe, dá uma volta e desce de novo e assim aguarda a sua vez de cagar em cima do Barão, é claro se o outro bicho permitir e sair do lugar, já reparei. Esses benditos pombos não têm jeito. São tantas as cagadas de pombo nesta cidade que não caberia aqui tratar de tão relevante matéria, ainda que algumas resultem num bom pretexto para se aferir lucros e benefícios, essa questão não é de minha alçada. Mas, definitivamente, nem todos os pombos da cidade têm predileção pelas cabeças de nossos heróis, a maioria ainda prefere os subterrâneos, os vácuos dos telhados mal conservados que é onde se reproduzem e fazem seus ninhos e também juras eternas no sentido de atazanar a vida desta e das futuras gerações, afinal de contas, eles são os legítimos representantes de Salvador, está aí o brasão oficial que não nos deixa mentir. É que se Thomé de Souza não trouxe consigo os benditos pombos, nem um mensageiro que fosse para se prevenir de um eventual desvio de rota, foi ele quem instituiu o pombo com  o ramo de oliveira na boca como símbolo da cidade, logomarca hoje usada pelas repartições da Câmara e da Prefeitura.  

E o nosso primeiro governador nem se deu ao trabalho de traduzir a frase latina do escudo (Sic illa ad arcam reversa est), que significa, “assim ela voltou à arca”, numa referência à passagem  bíblica de Noé. Os designers arregalaram o olho do pombo original, ao longo do tempo, olho bem aberto! Quem sabe para reparar nas cagadas que volta e meia a imprensa é obrigada a denunciar.