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Nelson Cadena: religiosidade e pagode

  • D
  • Da Redação

Publicado em 17 de janeiro de 2014 às 03:29

 - Atualizado há 3 anos

Muito antes de Theodozio Roiz de Farias se empenhar na construção da Igreja do Senhor do Bonfim para instituir, de fato, o seu culto e devoção à maneira de Portugal, Itapagipe já era local de romaria para as festas de São Gonçalo, o “santo das moças” que causava arrepios ao clero baiano. Quando o templo ficou pronto, no seu interior e arredores, o povo durante anos celebrou as festas do santo aqui mencionado, que aborreciam o arcebispo, mas também as festas de Nossa Senhora da Guia. Os festejos de um e outro motivo de devoção, incluindo o Senhor do Bonfim, atraíram olhares curiosos para além das manifestações religiosas propriamente ditas.Um desses observadores privilegiados foi o viajante francês Mr. La Barbinais Le Gentil que registrou as danças “lascivas” e impressionou-se com a tradição do culto a São Gonçalo, referendado pela ilustre presença do vice-rei do Brasil que, sem apego à liturgia do cargo, ele próprio se meteu no meio do povaréu, plebeus e escravos, a dançar ao som dos batuques, enquanto dava vivas ao santo.

Le Gentil registrou também as touradas e comédias profanas no entorno. Outros observadores de época registraram as corridas de cavaleiros e fogos de artifício e, à noite, as esplêndidas fogueiras à lenha.Alguns anos depois, em 1839, dom Romualdo Antônio de Seixas, escandalizado com as batucadas e danças rituais de mulheres seminuas dentro do templo e a africanização do culto a São Gonçalo, emitiu portaria fazendo duras críticas aos festejos, naquele tempo, realizados dentro da igreja e no entorno do Bonfim.A gota da água para a puxada de orelhas foi um panfleto distribuído na igreja com “a sacrílega, blasfema, indecente e ridícula legenda ou inscrição: ‘São Gonçalo das Moças’, que, derivando-se de absurdos prejuízos ou crenças populares, deslustra a pureza do culto tributado àquele santo e importa uma verdadeira superstição”.  Dom Romualdo lamentava a mistura do sagrado com o profano, da “mitologia com o evangelho, e Babilônia com Sião”. A portaria era uma recomendação, mas também um aviso de que a Igreja não mais toleraria esses “abusos”. E não os tolerou.Era o início de um litígio entre a igreja e o povo baiano com os santos sincretizados, o próprio Senhor do Bonfim, celebrado como Oxalá, uma questão nunca resolvida e que implicou na delimitação de espaços rituais e no fechamento do templo nas quintas-feiras da lavagem. O que, efetivamente, ocorreu a partir de 1890, quando o arcebispo dom Luís Antônio dos Santos requereu força policial para sequestrar as vassouras e vasos de barro e impedir o povo de santo de lavar o adro. No ano seguinte, populares impedidos de adentrar no templo já lavavam as escadarias e nunca mais a Igreja Católica e o povo de santo se entenderam quanto à liturgia da festa.O divórcio religioso fortaleceu o amasio cultural, justamente a característica mais marcante da Festa do Bonfim com a sua pluralidade, o que a tornou a maior referência de festa popular da Bahia. Tinha razão o escritor itaparicano Xavier Marques, contemporâneo das festas populares do século XIX, quando expressou o seu sentimento acerca delas:  “O baiano quer entrar no céu com alarde e fanfarra”.