São João na moda

O figurinista, designer e ilustrador mineiro Alceu Penna apresentou pela primeira vez as suas criações na revista Cigarra, em 1939

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  • Nelson Cadena

Publicado em 13 de junho de 2024 às 10:53

Se o conceito popular de moda é o figurino, vestuário de época, o figurino junino do século passado, oito décadas transcorridas pelo menos, nunca saiu da moda; dito de outro jeito, os estilistas das festas juninas, de todos os tempos, se renderam à elegância e ao convencional do figurino clássico e nada criaram fora da cartilha. A cartilha é a inspiração do figurinista, designer e ilustrador mineiro Alceu Penna que apresentou pela primeira vez as suas criações na revista Cigarra, em 1939, na seção “Garotas de São João”, e mais tarde, por mais de vinte anos na revista semanal O Cruzeiro, a de maior circulação no país, naqueles idos.

Se bateu a curiosidade e quer conhecer os figurinos juninos de Alceu não precisa recorrer às páginas das publicações citadas, basta passear nos shoppings e observar as vitrines das lojas, ou andar pela Baixa dos Sapateiros; muda a qualidade do pano, e até a origem, mas as estampas são as mesmas. Alceu Penna na moda Junina eternizou a sua arte e a mais simples de suas criações, as camisas xadrez e as saias floridas de chita com babados, prevaleceram e se não inventou as calças customizadas é porque no seu tempo mulher não vestia calças.

Já disse certa feita e reitero: ninguém neste país influenciou tanto a moda das festas juninas, quanto Alceu Penna, através de centenas de modelitos criados e divulgados nas páginas duplas de O Cruzeiro, nas edições de maio e junho, ano após ano, e eventualmente, com comentários de rodapé de sua autoria. Acabou sendo contratado pela Rhodia como estilista dos famosos desfiles da marca. Não especificamente de moda junina, mas imprimiu a sua característica de cores vivas nos modelos apresentados nas passarelas do Brasil e da Europa. Conquistou o mundo.

A Rhodia quando aportou no Brasil, em 1921, já era referência do mais cobiçado lança-perfume do Carnaval brasileiro: o Rodô. Desde 1907 os baianos já importavam o produto e consumiam milhares de bisnagas nas festas de Momo. Essa identidade da marca com nosso carnaval e o vínculo profissional do designer, é que deve ter inspirado as suas criações com o tema, fantasias que saíram de moda, o Carnaval se reinventou, mas fizeram sucesso na época. Quando Alceu começou a desenhar a Rhodia já fabricava moda, inicialmente tecidos sintéticos e lingerie com a marca Valisère. Se o estilista tivesse vivido além dos anos 80, certamente que teria desenhado calcinhas temáticas de cores vivas.

A moda junina das quadrilhas tem algo de seu traço, nas suas duas maiores referências de estilo: figurinos juninos e carnavalescos, assim me parece. Reparem. A propósito de figurinos “carnavalescos” há quem diga que o figurino de baiana tropical de Carmen Miranda, com o seu arranjo de frutas na cabeça, teria sido inspirado nas criações do estilista mineiro. A mídia da época rotulou a moda junina de Alceu de moda caipira. Bem em sintonia com o então conceito de cultura popular, chamado de folclore.

Nelson Cadena é publicitário e jornalista, escreve às quintas-feiras