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Publicado em 4 de abril de 2026 às 05:00
Era uma reportagem especial sobre a Inquisição na Bahia, ou de como se deu a migração forçada dos judeus na Europa rumo ao Novo Mundo, mais especialmente à grande reentrância do Atlântico Sul, como dizia o historiador Cid Teixeira. >
Durante a apuração para o caderno Correio Repórter, li, em Cristãos-novos na Bahia, de Anita Novinsky, o relato sobre a existência de um "snoga", corruptela de sinagoga, da família Ulhôa. Ficava ali, aos fundos da Ilha de Maré, em uma outra ilha, mas só na maré cheia, chamada de Santa Tereza. >
Conheci seu Sizínio Ferreira, um aposentado quase octogenário, morador próximo de Pacé, distrito de Candeias, lugar identificado em mapas da Baía de Todos-os-Santos como Mirante. Fomos visitar o sítio histórico apontado pela pesquisadora quando estava istmo e lá descobrimos os restos do pequeno altar com azulejos maçarocas, do século XVII, ainda em bom estado.>
O ano de 2006 se aproximava do fim. Na volta, na catraia, seu Sizínio, disse: “Tenho algo incrível em casa, as pessoas precisam saber”. Era um marco, de pedra lioz, de aproximadamente um metro de altura, com a inscrição T. do Tombo, uma referência ao aquivo nacional Torre do Tombo, situado em Portugal. “Taí o marco de fundação de Salvador”, disse, imponente e triunfal. Afirmou que havia encontrada enquanto fazia uma faxina à vera, no quintal.>
Era um autodidata. Devorava livros do Brasil Colônia, questionava Frei Vicente do Salvador e era fã de Gabriel Soares de Sousa. Sabia trechos inteiros do Tratado Descritivo do Brasil de 1587. Queria muito um tratamento adequado para a descoberta especial.>
Tirei fotos e corri para as referências. Primeiro, o professor Chico Senna que, ao ver as imagens no intervalo da aula de História da Arte, na Escola de Arquitetura da UFBA, também correu para me presentear um livro com a reprodução do Regimento do Governador-Geral de 1548, uma espécie Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano, entregue a Tomé de Souza pelo rei João III.>
No documento, as orientações para a criação da sede avançada do governo português. Entre elas, a indicação dos limites da futura cidade-fortaleza: seis léguas para o norte, seis léguas para o sul. “Pela localização, características da pedra e a inscrição, parece mesmo o marco de fundação da cidade”, disse Francisco Senna.>
Mostrei as fotos também ao professor Cid, de quem havia me tornado muito próximo após escrever a reportagem “Senhor História”, mais uma publicada no Correio Repórter. Expliquei tudo. Fiz o mesmo com os historiadores Fernando da Rocha Peres e Luís Henrique Dias Tavares. “É o marco”, disseram. “Temos agora que encontrar o de Ipitanga”, brincou Cid.>
Apenas a antropóloga Maria Hilda Baqueiro Paraíso, professora do Programa de Pós-graduação em História da UFBA, abriu a divergência, como se diz no Judiciário. Entendeu que poderia ser um indicador de limite de sesmaria, colocado ali pelo segundo governador-geral, Duarte da Costa. Era preciso pesquisar mais.>
Convidei o professor Eugênio Lins, superintendente do Iphan à época, e o professor Mário Mendonça, referência em conservação e em restauração, autor do excelente As fortificações portuguesas de Salvador quando Cabeça do Brasil, para visitarem Pacé. O arquiteto Francisco Santana, do quadro técnico do Iphan, também foi. A visita foi objeto de outra matéria no CORREIO.>
A partir daí, a peregrinação. O marco foi retirado do local e transferido para a sede do Iphan, na Barroquinha. Lá ficou até o Padre Abel, da Paróquia de Sant’Ana, decidir montar o Centro Cultural do Palácio da Sé, no antigo Palácio Arquiepiscopal. Nunca compreendi a razão de o marco mudar para aquele novo endereço, na verdade, um museu da Igreja.>
Mas entendi que era necessário levar Pablo Magalhães, um dos mais brilhantes historiadores da nova geração, para conhecer a pedra. Com os museólogos Aníbal Gondim e Simone Trindade, fizemos outra inspeção. Luzes apagadas, iluminação especial e direcionada para os detalhes do marco. Pablo acompanhou Maria Hilda e não cravou ser a peça fincada ali por Thomé de Sousa.>
Hoje, com a retirada das peças do museu para que o espaço se transforme na sede da prefeitura, o marco jaz no local, esquecido, aguardando um novo destino. “Ele continua lá, em uma sala onde era o antigo passadiço, entre o Palácio e a Igreja”, explica padre Abel. “A prefeitura está em obras, o espaço não está aberto ao público”, completa. >
Não seria a hora de alojar direitinho o marco? A Casa das Histórias de Salvador não tem as características ideais para um novo lar? A Fundação Gregório de Matos pode ajudar muito. Seu Sizínio, falecido em 2018, ficaria feliz. A cidade também.>
Flávio Novaes é jornalista, pesquisador e doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA>