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Publicado em 4 de janeiro de 2026 às 07:21
A minha vida profissional foi dedicada à gestão estratégica. Meus dois livros favoritos sobre esse tema têm algo em comum: nenhum deles ultrapassa gloriosas 150 páginas. Afinal, para que perder tempo com tijolos acadêmicos que prometem “mudanças de paradigma” quando a sabedoria real cabe na mochila e ainda sobra espaço para o lanche? >
O primeiro da lista é A Arte da Guerra, de Sun Tzu, aquele manualzinho discreto que já me ensinou mais sobre estratégia do que todos os tratados universitários cheios de PowerPoints, siglas e frases que ninguém entende, nem quem escreveu. Segundo os estudiosos (aqueles mesmos que adoram transformar o óbvio em tese), esse livreto foi o companheiro de uns comandantes aí: Napoleão Bonaparte e o vietnamita Vo Nguyen Giap. Os dois sujeitos que derrotaram metade do mundo usando ideias simples que qualquer aluno de MBA juraria ser “pouco sofisticadas”. Vo Nguyen venceu a guerra do Vietnã com um punhado de camponeses furiosos contra o maior e mais poderoso exército que o mundo já viu.>
O segundo livro, por sua vez, é o clássico Como Mentir com as Estatísticas. Aliás, uma leitura indispensável em nossos tempos de gráficos criativos, porcentagens que surgem por mágica e pesquisas opinativas travestidas de ciência. Descobri, por exemplo, que com um eixo bem ajustado e uma amostragem selecionada no carinho, qualquer gato vira tigre e qualquer fracasso se parece muito com sucesso. Não é lindo? Talvez seja por isso que esses dois livrinhos me encantam: um ensina como vencer guerras; o outro, como convencer que você as venceu.>
Há uma clara conexão entre A Arte da Guerra, Como Mentir com as Estatísticas e a expressão “true lies ou mentiras verdadeiras”. É comum acreditarmos com veemência na comunicação política que usa técnicas de narrativa, estatísticas seletivas e enquadramentos emocionais para moldar a percepção pública. Sun Tzu já ensinava que “a suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”: ou seja, vencer pela narrativa, pelo domínio da informação e pela criação de consensos psicológicos. A guerra de hoje não se trava apenas com exércitos, mas com discursos que definem quem é o herói, quem é o vilão e quais fatos merecem ser lembrados ou esquecidos.>
Em Como Mentir com as Estatísticas, aprendemos o poder de transformar dados em “mentiras verdadeiras”: números reais, mas apresentados de modo a levar o público a conclusões convenientes. Essa lógica está presente em todas as ideologias quando buscam convencer e destacam métricas que reforçam sua visão e camuflam as que a contradizem. Assim, ideias se tornam verdades percebidas não porque são absolutas, mas porque foram comunicadas com habilidade estratégica. O verdadeiro antídoto, inspirado por ambos os livros, é manter pensamento crítico: identificar quem está “vencendo sem lutar” e onde as estatísticas viraram argumentos com uniforme de fato, mas com alma de propaganda.>
Vejamos alguns exemplos de mentiras verdadeiras ou meias-verdades para nossa reflexão.>
Os dados oficiais mostram um quadro dramático da violência letal no Brasil em 2024: foram 44.127 mortes violentas intencionais, sendo mais de 91% das vítimas homens. (dados consolidados do Anuário de Segurança Pública). Enquanto isso, o país registrou 1.492 feminicídios, o maior número desde que essa categoria foi criada, representando assassinatos de mulheres por motivo de gênero, sim, uma tragédia que revela a persistência da violência contra a mulher, o que nos cobre de vergonha.>
Mas o que não se conta, nem se faz alarde, é que as estimativas baseadas no padrão observado pela ONU e por estudos nacionais indicam que cerca de 10% dos homicídios de homens podem ter mulheres como autoras. Aplicando esse intervalo aos dados brasileiros (aprox. 35,3 mil homens assassinados em 2024), chegamos a uma estimativa conservadora de cerca de 3.500 homens mortos por mulheres no ano, mais que o dobro do total de feminicídios. Esse dado não reduz a gravidade da violência contra mulheres, mas nunca vi nenhuma campanha para evitar o “masculinicídio”, ou melhor, para reconhecer que a violência no Brasil é um fenômeno complexo e multidirecional, que exige políticas diferentes para realidades diferentes.>
No campo do meio ambiente, as mentiras verdadeiras se alastram e criam crenças sem base nos fatos e nos dados. É o caso da demonização do plástico. Eu tenho uma amiga que só usa canudinhos de papel e rejeita canudinhos de plástico pois, segundo ela, canudinhos de papel matam as tartarugas marinhas. Na verdade, tartarugas marinhas estão mostrando sinais de recuperação em muitos lugares do mundo, especialmente onde esforços de conservação são fortes, como proteção de praias de nidificação e redução de captura incidental em redes de pesca. Um levantamento global com dados de cerca de 150 instituições em 50 países indica que a proporção de grupos populacionais de tartarugas marinhas considerados pouco ameaçados subiu de 23% em 2011 para 40% em 2025, o que sugere tendência geral de melhora em muitas populações. O que minha amiga desconhece é que foi o plástico que salvou as tartarugas.>
Como? Antes da era dos polímeros sintéticos, quase tudo era feito de partes de animais: marfim de elefante, óleo de baleia para iluminação, e o casco de tartaruga para fabricar pentes, armações de óculos e outros acessórios de luxo. Esse comércio intenso levou muitas populações de tartarugas, como a tartaruga-de-pente, ao colapso populacional, pois eram capturadas aos milhares simplesmente para suprir a demanda por esses itens ornamentais. Quando surgiram os primeiros plásticos, como baquelite, nylon e outros materiais derivados de petróleo no início do século XX, eles começaram a substituir de forma barata e prática muitos desses produtos de origem animal, reduzindo drasticamente a pressão sobre espécies antes intensamente exploradas. Esse fenômeno celebrado por alguns estudiosos como um dos “paradoxos do plástico” ajudou indiretamente a aliviar a caça comercial que empurrava tartarugas e outros animais para a beira da extinção.>
Da mesma forma, as baleias foram vítimas durante séculos de uma indústria baleeira voraz, que usava o óleo de espermacete e gordura como combustível de lampiões, lubrificantes e insumos industriais. Com o advento dos derivados do petróleo e outros materiais sintéticos, a dependência desses produtos naturais diminuiu, removendo um dos principais incentivos econômicos para a caça de grandes cetáceos. No entanto, do ponto de vista histórico, a substituição de produtos de origem animal por materiais plásticos contribuiu para a redução de uma fonte importante de exploração direta desses animais, criando espaço para esforços modernos de conservação. Sem o plástico, as baleias e as tartaruguinhas estariam extintas. >
Quanto aos canudinhos de papel, a minha amiga inocente não acredita que o plástico vence o papel quando comparado o seu desempenho ambiental. Sim, existe um estudo acadêmico que concluiu exatamente isso ao comparar canudos de plástico com canudos de papel por meio de uma Avaliação de Ciclo de Vida (ACV): ele mostrou que canudos plásticos têm desempenho ambiental melhor em 10 de 11 critérios analisados quando comparados com canudos de papel. Ou seja, de acordo com essa avaliação científica, em praticamente todos os indicadores de impacto ambiental (energia, emissões, uso de recursos etc.) o plástico saiu melhor que o papel, o que contradiz um pouco a narrativa simplista de que “papel é sempre mais ecológico”. >
Achou que é mentira? Para saber mais leia o artigo ZANGHELINI, G. M. et al. Comparative life cycle assessment of drinking straws in Brazil. Journal of Cleaner Production, v. 276, p. 123070, 2020.>
E para encerrar, em 2026, quando vierem te dizer que o simples ato de usar um canudinho de papel vai salvar o planeta inteiro, respire fundo, olhe para o céu, veja se não tem nenhuma tartaruga voando, e lembre-se: não caia nessas lorotas ambientais que mais parecem roteiro de comédia. Porque salvar o mundo é coisa séria, mas acreditar em bobagem é que polui a nossa inteligência!>
Feliz 2026!>
Jorge Cajazeira é Ph.D. pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP) e consultor internacional de empresas>