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Agro baiano aposta em produtividade para superar cenário complexo

Com preços em baixa, insumos mais caros e desafios da economia brasileira, o segredo é fazer mais com menos

  • Foto do(a) author(a) Donaldson Gomes
  • Donaldson Gomes

Publicado em 7 de junho de 2026 às 07:00

Bahia Farm Show oferece a produtores acesso a tecnologia e máquinas de última geração Crédito: Divulgação

Quem trabalha com o agro não sabe o que é tédio. Como se fossem poucas as armadilhas comuns da economia brasileira, com suas taxas de juros entre as mais elevadas do mundo e infraestrutura além das porteiras como fator de custos adicionais, entre outras questões, guerras dificultam o acesso da atividade a insumos essenciais, os preços dos principais produtos estão em baixa e o fenômeno climático El Ninõ promete chegar com tudo na nova safra agrícola que se aproxima. A soma destas condições levou recentemente a senadora Teresa Cristina, ex-ministra da Agricultura, a definir o cenário como o de uma “tempestade perfeita”.

E sabe o que o agro baiano está fazendo diante deste cenário desafiador? Reforçando as estruturas das suas embarcações e se preparando para enfrentar as águas tempestuosas. Os oceanos, principalmente nos momentos de tormenta, são cheios de riscos e cobram daqueles que ousam enfrentá-lo, mas como disse o poeta Fernando Pessoa: “Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu”. Na véspera da Bahia Farm Show, que inicia oficialmente as suas atividades nesta segunda-feira (dia 8), produtores e representantes do setor falam sobre as expectativas para a próxima safra no país.

Algumas das principais safras agrícolas já foram colhidas, ou estão em fase final. No Oeste baiano, entre as principais culturas, a soja foi praticamente finalizada, o milho está 50% colhido, enquanto o algodão começará dentro de 20 dias, explica o presidente da Associação Baiana de Agricultores e Irrigantes (Aiba), Moisés Schimidt. Segundo ele, este é o período do ano em que o agricultor está planejando o que vai fazer nos próximos 12 meses.

“É verdade que o cenário para a agricultura está muito complexo, mas a região do Matopiba (composta pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste baiano) e a Bahia têm se salvado por conta das altas taxas de produtividade”, explica. Ele destaca que a produção baiana de soja bateu o recorde de produtividade pelo terceiro ano consecutivo. “Quando você tem um cenário de preços oscilando e uma realidade geopolítica que impõe desafios além do nosso controle, este é o caminho”, aponta.

Olhando para a frente, o presidente da Aiba afirma que o problema em relação aos fertilizantes para o mercado brasileiro diz respeito mais ao custo do produto que incerteza de fornecimento. “A alta valorização do petróleo interfere no preço e, junto com a instabilidade política, cria incertezas em relação à chegada do navio no momento certo”, explica.

Segundo ele, com este cenário, é hora do produtor fazer contas. “Nossa atividade não aceita apostadores. Produtor que aposta tem o tempo contado, é hora de estar cada vez mais consciente, com os números na mão e olhar de forma simples os custos de produção, versus a produtividade”, recomenda. Para Schimidt, este é o único modo de sobreviver à volatilidade no mercado de commodities. “Quem domina os seus números, vai saber a hora de comprar os insumos e de vender com os melhores preços”, acredita.

Caravanas Bahia Farm Show por Divulgação

Segundo a produtora rural Alessandra Zanotto Costa, presidente da Abapa, o ciclo que está se encerrando foi marcado pela oferta de pluma barata, com safra recorde, estoque cheio e preço pressionado. Entretanto, para a safra 2026/27 o jogo vira. “A produção global deve cair cerca de 3% e o consumo mundial vai ao maior nível em seis anos, pois saímos de oferta folgada para equilíbrio, e equilíbrio dá sustentação a preço. Para a Bahia, que entrega qualidade, isso significa um ano com receita mais saudável”, projeta, com uma condicionante: “desde que o custo não devore essa margem”.

Alessandra recorda que o preço da ureia, um dos principais insumos para fertilizar o solo, já subiu 40% desde o início do conflito no Oriente Médio. Segundo ela, o calendário do segundo semestre é desafiador para os produtores. “Como a compra se concentra no segundo semestre, quem adiar, apostando num recuo que pode não vir, fica espremido na janela de entrega”, acredita.

Para ela, o caminho ideal para atravessar o momento turbulento é olhar mais para as próprias margens. “Trave a margem em vez de apostar no topo do preço. Antecipe o insumo dentro da janela. Calibre o pacote pela eficiência, não pelo tamanho do gasto. E use o associativismo, o diálogo, que podem ajudar”, recomenda. “Mas o que organiza tudo isso tem nome, planejamento”, completa.

A presidente da Abapa acredita que a demanda elevada pelo algodão dará fôlego para a atividade seguir se expandindo. “Com o mercado global mais comprador, 2027 chega favorável. Mas faço a ressalva honesta, no início de 2026 o volume cresceu quase 12% e a receita só 1,7%”, lembra. Segundo ela, o preço e o frete apertaram. “A vantagem da Bahia se concretiza porque conseguimos nos posicionar no mercado antes, devido ao nosso ciclo. Soma-se isso a qualidade e a certificação”, completa.

O produtor Humberto Miranda, presidente da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb), acredita que os produtores rurais baianos estão fazendo bem o seu dever de casa para superar o momento desafiador. “Nossa atividade está enfrentando um dos momentos mais difíceis da sua história, tanto em relação aos preços dos produtos, quanto ao acesso a insumos básicos, como os fertilizantes. Talvez este cenário explique porque estamos vendo tantos pedidos de recuperação judicial no campo”, analisa.

Miranda lembra ainda que o fenômeno El Ninõ já está em atividade desde o início de junho. “O que nós não sabemos ainda é qual será a sua intensidade e a sua duração”, diz. Ele conta que, através do Senar, braço do Sistema S do Agro, a Faeb está preparando os produtores para a mitigação dos efeitos adversos do clima.

O produtor destaca também a importância de investimentos públicos para preparar melhor o estado em relação às intempéries. “O El Ninõ é um fenômeno cíclico, um pouco mais leve ou severo, mas está sempre acontecendo, então é algo que precisa estar no planejamento das políticas públicas”, acredita.

“Temos o semiárido mais chuvoso do mundo, temos água no subsolo, várias bacias hidrográficas, é inconcebível que não tenhamos uma reserva hídrica para passar por estes momentos”, acredita.

Além da questão climática, o presidente da Faeb destaca a preocupação com o acesso a fertilizantes. Segundo ele, a incerteza pode levar produtores a reduzir a área plantada de culturas que dependem mais dos insumos, além de impactar na produtividade entre os que plantam nos chamados sequeiros – áreas em que não há irrigação.

“Precisamos melhorar a infraestrutura do nosso estado, tanto com mais reserva hídrica, fomentar o acesso a novas tecnologias, mecanização e infraestrutura para ajudar o setor a fazer a travessia de momentos difíceis como estes. Além disso, a qualificação é fundamental”, enumera.