Conheça a baiana que largou a sala de aula para criar uma marca de tiaras e turbantes

A empreendedora Isadora Alves, da 'Com Amor, Dora', conta como faz sucesso com linha de tiaras para cabelo feitas de tecido em Salvador

Publicado em 13 de outubro de 2015 às 07:54

- Atualizado há 10 meses

Os 'turbantinhos' viraram febre em Salvador e têm feito a cabeça das baianas com os gostos mais variados. Até a criançada já entrou na onda de enfeitar os cabelos com tiras de pano colorido que se ajustam de forma confortável e ainda compõem o 'look do dia'. E foi nessa onda que a bacharel em Letras e estudante de Moda Isadora Alves, de 26 anos, surfou. A empreendedora Isadora Alves faz sucesso com linha de tiaras para cabelo feitas de tecido(Foto: Evandro Veiga/CORREIO)Ela é criadora da 'Com Amor, Dora', marca - que como o próprio no nome sugere - conquistou o público-alvo pela dedicação e muita fofurice. Mas antes de sentar na máquina de costura, Isadora achou que já estava seguindo no caminho profissional certo. Ela se formou em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia e começou a dar aula enquanto ainda era estudante.

"Eu achava que seria professora para o resto da vida. Eu amo sala de aula, a relação com meus alunos e o modo de ver a educação como um ato de amor e militância pela melhoria da sociedade ainda me encanta, ainda mais como professora de português", comenta Isadora.

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Mas outra profissão, na área da moda, escolheu a professora. A nova estrada foi mais atraente e ela resolveu largar tudo para se dedicar ao negócio recém-criado. "Era a hora certa de fazer isso", sentiu. Hoje, Isadora cursa Design de Moda, na Unifacs, e, além das tiaras e turbantes, ela já produz roupas e bolsas.

Em dois anos, ela já conta com a ajuda de outras três pessoas que participam desde a costura até a venda dos produtos em feiras nos espaços públicos de Salvador. A 'Com Amor, Dora' conta ainda com o público fiel conquistado pelas redes sociais desde setembro de 2012, quando as tiarinhas começaram a dar as caras em fotos no Facebook e Instagram.Eu achava que seria professora para o resto da vidaDa ideia à mão na massaEmpreendedora desde sempre, Isadora começou revendendo anéis da Rua 25 de Março (SP) para as colegas da faculdade usando o nome 'Os Anéis de Pandora'. Nas horas vagas ela também escrevia em um blog pessoal onde falava sobre relacionamentos e algumas experiências desastrosas no campo do amor. Ao final das postagens ela assinava: Com amor, Dora. E esse passou a ser o nome do blog.

Foi lá em São Paulo, numa viagem para se recuperar de um coração partido, que ela viu pela primeira vez uma tiara feita com tecido e arame. Comprou algumas para presentear as amigas ao retornar à Salvador e as coisas começaram a acontecer. As meninas se encantaram pelo presente e, como já sabia costurar, Isadora fez algumas outras peças e colocou à venda. Desde então não parou de costurar. Os modelos foram aprimorados e conquistando ainda mais público.

"A demanda aumentou, as peças e a minha capacidade criativa também. Agora crio mais produtos. Espero que até o final de 2015 a lojinha cresça ainda mais, estou trabalhando muito para isso. Mas já fico bem feliz de ver aonde ela chegou", comemora a empreendedora que já possui espaço físico em um shopping bem localizado no Rio Vermelho. 

Conheça mais sobre a 'Com Amor, Dora':Microempreendedora individual, Isadora costurava tudo sozinha, vendia e cuidava da comunicação da marca. Hoje ela conta com ajuda de parceiras (Foto: Evandro Veiga/CORREIO)Qual foi a primeira peça que você fez e como você vendeu?A primeira peça foi a tiarinha de tecido com arame. Logo quando fiz as primeiras 10 peças tirei foto e postei no facebook, num álbum especifico para mostrar aos meus amigos.

Ali minhas amigas já curtiam e comentavam pendido para experimentar, para ver como usava e etc. A partir dali comecei a compartilhar nos grupos que participava e marcar minhas amigas. A internet me ajudou muito no início e ainda me ajuda muito.

Quando seu negócio começou a decolar e o que você considera responsável pelo seu sucesso?Uma vez me disseram que a gente só ver o lucro da empresa depois de dois anos de mercado, e foi exatamente assim. Setembro de 2014 começou o projeto "A Feira da Cidade". Fui convidada por Carla Maciel a iniciar a parte de manufaturas da feira, já que antes era apenas gastronômica.

Assim, minha marca saiu das redes sociais e tomou as ruas de Salvador fazendo com que a divulgação alcançasse meu público periférico, além de aumentar consideravelmente meu público-alvo. E foi nessa época que larguei a sala de aula, atividade que conciliava com a marca, para me dedicar exclusivamente a Com amor, Dora. Antes de ter a loja/ateliê, como você vendia seus produtos?Eu vendia pela internet, tenho um site que uso mais como vitrine dos produtos que também serve de suporte para vendas para outros estados e cidades. As vendas aconteciam também pelo Instagram e Whatsapp. Mas eu sempre gostei do contato presencial com as minhas Doralices.

Eu ia muito em agências de publicidade, onde algumas amigas trabalhavam, e assim, uma ia indicando para outra. Participava, também, de muitos bazares e brechós pequenos organizados por amigos ou conhecidos. Houve uma época em que eu e mais duas amigas nos juntamos e resolvemos tocar um bazar de Manufaturas Criativas para incentivar criativos modernos que estavam começando. Nesses eventos além de bazares e troca de ideias haviam também oficinas criativas. Foram nesses espaços que me criei como marca e conceito.Você sempre esteve ligada ao mundo da moda? Eu nunca imaginei que pudesse trabalhar com moda um dia na minha vida. Mesmo sendo bisneta de alfaiate, com tia e avó costureiras, mãe fazendo tricô em casa e eu costurando as roupas da minhas bonecas com linha e agulha na infância, não imaginava que seria uma entusiasta da moda. Esse ano concluo minha faculdade Design de Moda na Unifacs, mas ainda continuo dando aula numa ONG, o Instituto Bom Aluno da Bahia uma vez por semana para não deixar esse lado pedagógico meu morrer. Quem te ajuda a fazer ou vender seus produtos?Até final de 2014 eu costurava tudo sozinha, vendia, cuidava da comunicação e tudo mais. Mas com o aumento da vendas, percebi que precisava de ajuda na produção e venda. Hoje tenho três costureiras que me ajudam e muito, são minhas parceiras.

Duas delas estudam moda e são formadas em corte e costura pelo Senai, Aline Mendes e Flor França são minhas costureirinhas. Quero ver elas crescerem comigo. Nas vendas e comunicação, quem me ajuda é a Yasmin Nery, estudante de comunicação na Ufba, ela fica responsável pelas vendas em feiras e bazares, meu braço direito. Você tem medo da crise e dos concorrentes?Eu tinha medo da crise até abrir uma lojinha linda aqui no Shopping Rio Vermelho no terceiro andar, onde quase ninguém pisa. Pude perceber que com criatividade e amor a gente vai longe e vence qualquer perrengue. As pessoas estão entrando em outro modo de comportamento de consumo, valorizando o artesanal, deixando de comprar produtos feitos em série, vivendo mais a experiência da compra e deixando conceito da marca se sobrepor a qualquer outro critério de compra.

Nós, empresários, designers e comunicadores precisamos entender esse novo consumidor brasileiro. Até hoje eu me perco nisso de estudar concorrência, ver quem são meus concorrentes diretos e indiretos. Minha mãe sempre me diz que nesse mundo tem espaço pra todo mundo, todos tem a oportunidade de criar, conquistar seu lugar no mundo. Vejo meus concorrentes como exemplos a serem seguidos, olhar para o outro e ver o que deu certo e dizer: "poxa, que massa! Como não pensei nisso antes". E também entender que os erros do concorrente pode ser a sua chance de se sobressair. O produto artesanal tem uma carga maior de dedicação na hora da produção e exige investimento de matéria-prima de qualidade. Qual sua principal dificuldade de ser criativa em Salvador? Você acha que há bons fornecedores para atender ao pequeno negócio?Sempre busquei qualidade nas minhas peças, mesmo que isso aumentasse muito o meu custo. A maioria dos tecidos e aviamentos ainda compro aqui em Salvador por falta de tempo em fazer pesquisas em outras cidades ou até mesmo pela internet.

Então, ainda tenho o processo de ir nas avenidas Sete de Setembro e Carlos Gomes garimpar boas malhas e estampas de tecidos diferentes para as minhas criações e isso acaba aumento o meu preço, por não ter desconto com meu CNPJ, e pagar quase o dobro pelo mesmo material vendido em outras capitais por conta de impostos altos. Mas por enquanto eu tenho me saído bem com meus fornecedores, durante esse anos comprando com as mesmas lojas a gente acabando criando vínculos, e quando eu descobri e achar fornecedores mais baratos com a mesma qualidade vai ser difícil largar a Av. Sete (risos).Isadora aposta nas redes sociais para divulgar os produtos e ações da marca. Antes da loja-ateliê, vendas eram feitas exclusivamente pela internet (Foto: Reprodução/Instagram)Em algum momento de todo o processo de criação da marca ou até mesmo agora, em que a marca já possui espaço físico, você procurou o Sebrae?No início quando vi que a minha marca tinha perfil comercial para o mercado soteropolitano. Procurei o Sebrae, fiz muitos cursos que me ajudaram bastante na minha capacitação como microempresária. Noções básicas de vendas, gerenciamento, estoque e muitas outras informações básicas para quem tá começando um pequeno negócio.

Você já percebe lucro no que produz?O meu ponto fraco é o financeiro, mesmo com todos os cursos que fiz no Sebrae a minha falta de simpatia com planilhas e contas ainda me deixa perdida. Só sei que tenho lucro porque ganho mais do que gasto para produzir e ainda pago as minhas funcionárias direitinho. Mas ainda falta calcular outros custos fixos e variáveis, fico perdida com tanto número. Agora estou com a ajuda de um contador para tentar organizar mais esse lado.

Onde você quer chegar?Na verdade eu ainda não sei, onde estou está bem legal. Mas ainda quero estudar e aprender muito sobre processos produtivos e desenvolver outras linhas de produtos para a loja.  Com o espaço colaborativo que a loja- ateliê tem eu fiquei com muito vontade de ampliar esse projeto e conseguir reunir outros criativos em um mesmo espaço. Até 2016 quero que esse projeto saia do plano das ideias e se concretize com a criação de uma loja colaborativa independente da Com amor, Dora. Mas elas tem que ser vizinhas, claro.