Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Carmen Vasconcelos
Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 17:40
Determinada, visionária e movida por propósito, Cátia Silene transformou uma infância simples no sertão baiano em uma trajetória de sucesso no empreendedorismo. Nascida na zona rural de Guajeru (BA), ela começou a trabalhar ainda menina, entre as obrigações do campo e os aprendizados de uma vida pautada pela fé, gratidão e trabalho duro. Aos 16 anos, entrou como funcionária na Mercadótica, uma das maiores redes ópticas do país — e, duas décadas depois, se tornou uma das principais franqueadas da marca, responsável por quase 20% das unidades. >
Hoje, além de empresária no setor óptico, ela também investe em outros ramos, como açaiteria e construção civil, com o mesmo objetivo que a guiou desde o início: gerar oportunidades para outras pessoas, especialmente mulheres. Inspirada pelos valores transmitidos pela família, Cátia defende que o sucesso nasce do comprometimento, da generosidade e da capacidade de recomeçar. >
Nesta entrevista exclusiva para o Correio, ela relembra a infância no campo, fala sobre o medo e a coragem de empreender, e compartilha os princípios que a tornaram um exemplo de liderança humana e inspiradora. >
Cátia, você nasceu na zona rural de Guajeru e começou a trabalhar muito cedo. Que lembranças dessa infância você carrega como base da mulher e empreendedora que se tornou? >
As lembranças são as melhores, mesmo que envolvam o trabalho duro desde cedo. Tínhamos obrigações diárias, mas elas sempre vinham acompanhadas de muito amor. Vivíamos na simplicidade, aprendíamos a nos virar com o que tínhamos — e muitas vezes nem tínhamos —, porém o mais importante é que tudo tinha muito valor. Lembro que minha maior felicidade era receber balas do meu avô. >
Quais foram os maiores aprendizados que o campo e a vida simples te ensinaram e que ainda hoje orientam suas decisões? >
Aprendi que a gente só colhe aquilo que planta, e que nem sempre colhemos no tempo que esperamos. Tudo tem valor, por mais simples que seja. Mesmo quando as coisas derem errado, é preciso ser grato e não ter medo de recomeçar. >
Como foi o momento em que você deixou o campo para estudar na cidade? O que mais te marcou nessa transição? >
Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida. Mesmo sabendo que, na cidade, eu teria uma oportunidade melhor, não estava indo com meus pais. Fui morar primeiro com uma tia, pois eles não tinham condições de sair do campo. A falta deles foi o que mais me marcou. Mesmo sendo muito nova, lembro quanta falta meus pais, meus irmãos e meus avós me faziam. >
Em algum momento da sua trajetória, você pensou em desistir ou mudar de rumo? O que te manteve firme? >
Em desistir, sim; em mudar de rumo, talvez não, pois eu ainda não tinha traçado um rumo para minha vida. A única coisa que eu sabia é que não tinha saído de perto dos meus pais em vão. O que me manteve firme foi o amor pela minha família e o desejo de um dia poder ajudá-los e ser um orgulho para eles. >
Você começou na Mercadótica aos 16 anos. O que mais te encantou na empresa naquela época? >
Para ser bem sincera, o computador. Nunca tinha visto um. Imaginei o quanto meus pais ficariam orgulhosos em me ver usando um. E, claro, com o tempo, tudo naquele lugar me encantava, pois ali eu estava tendo a oportunidade de aprender de tudo. >
Depois de passar por praticamente todos os setores, o que considera ter sido o ponto de virada na sua carreira dentro da rede? >
Primeiro, foi o fato de a rede ter virado franquia. Depois, por eu ter trabalhado em todos os setores, sabia que estava preparada para fazer o negócio dar certo. Foi então que uma amiga do trabalho levou meu nome ao fundador da marca. Ele me chamou e, mesmo eu não tendo dinheiro, me deu condições de pagamento e a oportunidade de adquirir a franquia — e aqui estou eu. >
Quando percebeu que o ramo óptico seria mais do que um trabalho — que seria sua vocação? >
Entendi que o sonho de ser doutora estava distante para mim, mas que eu poderia, sim, ajudar as pessoas cuidando da saúde visual delas, ganhando dinheiro com isso e ainda podendo ajudar minha família. Não existe nada mais perfeito. >
Você costuma dizer que “ajuda as pessoas a enxergarem o mundo de outra forma”. O que essa frase significa para você na prática? >
Essa frase dá sentido à minha vida e ao meu trabalho. Eu não vendo óculos; eu vendo saúde, autoestima, proteção, cuidado e personalidade. Quando meu cliente veste isso aqui, ele de fato encara o mundo de outra forma. >
O investimento na primeira franquia parecia impossível. Como foi lidar com o medo e o risco naquele momento? >
Foi bem difícil, mas nem tive tempo de pensar, porque a única coisa que passava pela minha cabeça era trabalhar e trabalhar. Eu não estava arriscando apenas o meu sonho — estava arriscando o sonho de muita gente. >
Qual foi o maior desafio de se tornar dona do próprio negócio — e o que te surpreendeu positivamente nessa experiência? >
Lidar com pessoas. Mas, a partir do momento em que decidi montar um time de mulheres com a mesma garra que eu tenho, com sede de trabalhar e com histórias de valor, descobri que ninguém segura a gente. >
Hoje, você representa quase 20% da rede Mercadótica. A que você atribui esse crescimento tão consistente? >
Trabalho incansavelmente. Enxergo oportunidades onde os outros não veem, entrego além do que foi pedido e vou contra a ideia de que precisamos vender acima de tudo. Não — precisamos primeiro cuidar das pessoas, criar laços e valores, entregar conhecimento. Aí, como no campo, a colheita é certa. >
Como equilibra a gestão de várias unidades e, ao mesmo tempo, mantém o olhar humano e próximo das equipes? >
Eu cuido da minha equipe de trabalho como cuido da minha família. E, assim, minha equipe cuida do meu negócio como se estivesse cuidando de mim — e é aí que está o equilíbrio. >
Você tem um estilo de gestão colaborativo e costuma apoiar outras unidades. De onde vem essa generosidade no modo de liderar? >
Vem de família. Meu avô sempre dizia: “Se tiver que passar pela vida do outro, que seja para fazer o bem; se não, é melhor nem passar.” Quando a gente se ajuda, todos crescem. >
Como você enxerga o papel da mulher no setor óptico e no empreendedorismo de modo geral? >
Enxergo além do horizonte (rsrs). Nós temos um potencial muito maior do que acreditamos. Carregamos o instinto de cuidar, zelar e aliviar as dores das pessoas — e, quando fazemos isso, potencializamos quem realmente somos. >
Por que acredita que as mulheres têm um olhar diferenciado para esse ramo? >
Porque, nesse ramo, as mulheres consomem mais. E, no setor óptico, elas se empoderam quando escolhem os óculos certos para o seu rosto, realçando a própria beleza. >
Que valores você busca transmitir à sua equipe — especialmente às mulheres que estão começando? >
Valor moral resume tudo. Tendo isso, força de vontade e trabalho duro, temos a base de qualquer negócio. >
Você também empreende em outros ramos, como açaiteria e construção civil. O que te move a diversificar os negócios? >
Meu maior desejo é gerar oportunidades de trabalho para outras pessoas, especialmente da minha família. E o desafio é empreender — afinal, minha vida sempre foi um desafio. >
Você mencionou o desejo de transformar funcionários em novos franqueados. O que te inspira nesse projeto? >
Meu sonho para minha família é criar condições para que um dia possamos estar todos próximos e formar meus filhos. Já meu sonho para a Mercadótica é ver várias unidades espalhadas pelo Brasil. Tenho o desejo de deixar um legado e de criar oportunidades para outras meninas, assim como criaram para mim. >
Que conselho você daria para quem quer começar a empreender, mas acha que ainda “não tem condições”? >
Dinheiro não faz negócios; negócios é que fazem dinheiro. Enxergue oportunidades — não espere que elas batam à sua porta. >
Se pudesse resumir sua trajetória em uma palavra, qual seria? >
Gratidão. >
Que mensagem deixaria para as meninas e mulheres do interior que sonham em trilhar um caminho de sucesso como o seu? >
Comece agora mesmo, fazendo o seu melhor em tudo que você faz. Se é CLT, seja a melhor no seu trabalho. Entregue ao seu cliente mais do que ele foi buscar; se é para o seu patrão, entregue além do que ele pediu. Não espere oportunidades: crie-as. E carregue sempre consigo os valores de família. >