Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Maiara Baloni
Publicado em 4 de março de 2026 às 12:56
Em um cenário em que cerca de 79,5% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, patamar próximo ao recorde histórico da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da CNC, o crédito consignado tem ocupado um papel central no orçamento doméstico. A modalidade, que desconta as parcelas diretamente na folha de pagamento ou benefício previdenciário, vive um momento de expansão acelerada, impulsionada especialmente pela adesão do setor privado. >
CRÉDITO CONSIGNADO
No entanto, o crescimento deste crédito traz consigo uma dúvida central: ele está ajudando as famílias a se reorganizarem ou apenas empurrando um problema financeiro para o futuro?>
O ano de 2025 marcou uma virada no perfil dessa modalidade. Se antes o consignado era quase exclusivo de servidores públicos e aposentados do INSS, o "Crédito do Trabalhador" (consignado privado) explodiu. Dados do setor indicam que o volume dessa categoria cresceu cerca de 250% em 12 meses e passou a figurar entre os principais motores do endividamento entre trabalhadores com carteira assinada e microempreendedores individuais (MEIs), além de estimular novos modelos de crédito vinculados a plataformas digitais.>
A lógica por trás da adesão é compreensível. Com o cartão de crédito e o cheque especial acumulando os juros mais altos do mercado, o consignado se apresenta como uma "fuga": ele troca uma dívida de curtíssimo prazo, com juros que superam a barreira dos três dígitos ao ano, por uma parcela fixa e mensal, com taxas que, dependendo do perfil do contratante, especialmente no consignado privado, podem chegar à faixa de 50% a 60% ao ano.>
A operação, porém, exige cautela técnica. Na visão de Reinaldo Domingos, presidente da Abefin (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira), o crédito consignado pode atuar como uma espécie de “superendividamento silencioso” quando é usado para quitar o cartão de crédito sem que haja mudança no comportamento de consumo. >
Segundo Domingos, problemas surgem quando a família paga a fatura com o consignado, libera o limite do cartão e, em poucos meses, volta a acumular novas compras. O resultado é que, em vez de reestruturar o orçamento, a pessoa passa a conviver com duas pressões: o desconto automático da parcela do consignado e a renovação do endividamento no cartão. “Na prática, muitos estão apenas trocando um problema por outro”, resume a análise de especialistas, que enxergam o crédito mais como substituição do que como reestruturação financeira.>
O comprometimento da renda é o termômetro de saúde dessa operação. Para beneficiários do INSS, o limite legal de consignação pode chegar a 45% do benefício, dividido entre empréstimo consignado tradicional (35%) e modalidades como cartão consignado. Já para trabalhadores CLT, o limite legal de comprometimento da renda com consignado costuma chegar a 35% do salário. Contudo, alguns estudos indicam que quase um quarto dos contratantes já opera acima desse patamar. >
Quando o comprometimento ultrapassa a barreira dos 30% da renda mensal, qualquer imprevisto, uma redução de horas extras, uma demissão ou uma emergência médica, transforma o consignado em uma "bola de neve". Por ser um débito automático, não há margem de manobra: a parcela é descontada antes mesmo de o salário chegar à conta, reduzindo o poder de compra e forçando o endividamento em outras frentes para cobrir despesas básicas.>
Antes de contratar, o consumidor deve tratar o crédito como uma ferramenta cirúrgica, e não como um complemento de renda. Confira o que observar:>
1. Compare antes de assinar (Custo Efetivo Total): Não olhe apenas a taxa de juros nominal. Exija o CET (Custo Efetivo Total). Ele inclui todas as taxas, seguros e encargos. Muitas vezes, uma parcela mensal menor esconde um prazo de pagamento tão longo que, ao final, o valor total pago é proibitivo. >
2. O teste da finalidade: O consignado deve ser usado para quitar dívidas caras (como cartão e cheque especial). Se o motivo for consumo de bens duráveis ou lazer, o ideal é construir uma reserva de emergência antes de se comprometer por meses ou anos.>
3. Verifique o impacto total: Some todas as suas parcelas fixas (consignado, financiamentos, faturas, empréstimos). Se o total de dívidas já consome mais de 30% da sua renda, evite novas contratações. O "limite seguro" para dívidas de longo prazo, segundo especialistas, deve girar entre 20% e 30% da renda líquida.>
Reinaldo Domingos é presidente da Abefin (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira) e costuma alertar sobre o risco de superendividamento silencioso em cursos, artigos e entrevistas sobre educação financeira. >