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Carmen Vasconcelos
Publicado em 9 de fevereiro de 2026 às 06:00
O ano de 2026 marca o fim definitivo da previsibilidade corporativa. Se, nos anos anteriores, a adaptação tecnológica e o cuidado com a saúde mental eram vistos como diferenciais, agora tornaram-se questões de continuidade de negócios. Atravessar este ciclo com consistência não é mais uma questão de seguir rotas pré-definidas, mas de preparar lideranças capazes de navegar no caos, humanizar a tecnologia e garantir a segurança psicológica como um ativo financeiro. >
Planejamentos de longo prazo, que antes serviam como mapas seguros, transformaram-se em bússolas instáveis em um mar de mudanças semanais. Nesse cenário, o papel do líder migrou do antigo "comandante de rota" para o gestor de contexto.>
Como aponta a sócia da consultoria especializada em recrutamento e desenvolvimento de alta liderança EXEC, Maria Paula Paschoaletti, a estratégia deixou de ser um caminho reto, exigindo versatilidade para ler cenários e identificar alavancas de crescimento em tempo real. "A estratégia e a forma tática de implementá-la já não são tão lineares. Isso exige que a liderança tenha versatilidade, capacidade de ler cenários e identificar onde estão suas alavancas para enfrentar desafios que antes nem existiam”, explica.>
Novos modelos >
Essa mudança de paradigma exige o que a sócia da Hera.Build e diretora de Recursos Humanos Franciane Fenólio define como uma "curadoria de energia". >
"Em um cenário onde o Brasil enfrenta recordes de afastamentos por transtornos mentais, o líder não pode mais ser apenas um cobrador de volume", alerta a especialista. Franciane Fenólio reforça ainda que o novo papel é o de gestor de contexto. "O líder precisa ter o olho clínico para notar quando o time entrou no modo de sobrevivência, ou seja, aquele estado onde o medo trava a criatividade e drena o engajamento”, esclarece.>
Para navegar nessa instabilidade, a presidente do Future Is Now, especialista em inteligência relacional, networking estratégico e liderança na nova economia Laís Macedo reforça que a liderança deve ser horizontal, pautada na coragem de assumir a própria humanidade. Para ela, “está tudo bem agora não saber de tudo. É impossível. Esse novo líder tem que encarar essa humanidade e ter clareza de quem ele é, dos seus inegociáveis, para ter um solo fértil enquanto todo o resto é instável”, pontua.>
Delegar com inteligência >
A Inteligência Artificial, por sua vez, deixou de ser uma novidade para se tornar um desafio de senso crítico. O grande risco de 2026, segundo as especialistas, é o "delargar" processos em vez de delegar com inteligência. >
Laís Macedo adverte para o perigo do descolamento humano, onde interações mediadas por máquinas sem curadoria destroem a conexão real. Ela defende que o desafio do líder é entrar em harmonia com a interferência da IA. "É preciso senso crítico para entender que a IA é aliada, mas não pode ocupar o lugar do diálogo real, intencional e genuíno”, reflete a presidente da Future Is Now.>
Franciane Fenólio complementa que, na alta gestão, a IA deve ser um extensor cognitivo. "A máquina nos dá o 'o quê', mas o líder é quem decide o 'como' e o 'porquê'. O líder de futuro busca soluções proprietárias para que os dados de saúde e performance da sua própria organização treinem a tecnologia”, esclarece, lembrando que o paradoxo atual é, portanto, digitalizar para humanizar, utilizando plataformas de escuta para intervir antes que o burnout ocorra.>
Desenvolvimento >
No campo do desenvolvimento, o brilho isolado de um CEO já não sustenta as organizações; a resiliência em 2026 tornou-se um esporte de equipe. >
Maria Paula enfatiza que o desenvolvimento coletivo é o que gera tração ao reduzir a desordem interna. “Quando juntamos diferentes áreas para discutir desafios reais, criamos uma consciência compartilhada. Isso gera alinhamento, reduz atritos e tira entropias e as desordens, que roubam tempo e eficiência”, explica a sócia da EXEC. >
Esse fortalecimento do coletivo funciona também como um antídoto à ansiedade gerada pela pressão por velocidade. Laís Macedo sugere que o líder autêntico deve ter a audácia de ditar seu próprio ritmo: “o caminho é uma liderança pautada em bancar seu tempo, um tempo meio avesso a esse tempo acelerado do mundo. É muito diferente não perder o timing de embarcar nesse mundo acelerado e ansioso”, defende.>
Nesse novo cenário, o RH assume o papel de arquiteto da experiência humana e guardião legal da continuidade operacional. Com o rigor da NR-01 em 2026, monitorar riscos psicossociais tornou-se uma obrigação estratégica. >
Franciane Fenólio é direta: “se o seu líder entende tudo de KPI e nada de gente, ele é um detrator de valor. Quem não cuidar de quem cuida dos negócios, não terá negócios para cuidar”, setencia. >
Para evitar que os programas de liderança falhem, o foco saiu das hard skills para as Power Skills, exigindo um desenvolvimento contínuo e personalizado.>
Como conclui Maria Paula, o investimento precisa ser preciso: “o assessment traz clareza e custos menores, pois mostra com precisão as fortalezas e oportunidades. Precisamos investir esforços para acelerar a autoconsciência de cada líder, pois esse avanço não ocorre de forma pasteurizada”, conclui.>