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Portaria sobre riscos psicossociais avança na lei, mas deixa empresas sem guia para cumprir exigências

Norma entra em vigor em 2026 e exige avaliação obrigatória da saúde mental no ambiente de trabalho, mas ainda não há orientações metodológicas do MTE

  • Foto do(a) author(a) Carmen Vasconcelos
  • Carmen Vasconcelos

Publicado em 8 de dezembro de 2025 às 06:00

Avaliação dos riscos psicossociais será obrigatória e integrada ao PGR, mas metodologia e diretrizes ainda não foram definidas pelo MTE
Avaliação dos riscos psicossociais será obrigatória e integrada ao PGR, mas metodologia e diretrizes ainda não foram definidas pelo MTE Crédito: Shutterstock

A regulamentação dos riscos psicossociais no ambiente de trabalho entrou definitivamente no radar das empresas brasileiras, mas ainda avança em terreno de incertezas. A Portaria nº 1.419/2024, publicada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), prevê a avaliação obrigatória desses riscos dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Sem parâmetros técnicos claros, porém, o setor produtivo convive com dúvidas operacionais, temor de penalidades futuras e dificuldade para transformar o tema em práticas concretas.

Para a psicóloga Carmen Rezende, especialista em saúde mental do trabalho, o problema começa pela própria natureza do que se pretende medir. “Diferente do ruído ou do calor, que avaliamos com instrumentos, o risco psicossocial é invisível, multifatorial e subjetivo. Sem critérios definidos, há receio de autuações baseadas em percepções individuais, e não em dados”, explica. Para a profissional de saúde, a prevenção começa abandonando a adivinhação e passando a medir com escalas validadas, mapeamento de estressores e identificação de fatores como assédio, sobrecarga ou falta de autonomia.

A psicóloga Carmen Rezende acredita que, sem critérios definidos, há risco de autuações baseadas em percepções individuais
A psicóloga Carmen Rezende acredita que, sem critérios definidos, há risco de autuações baseadas em percepções individuais Crédito: Acervo pessoal

As advogadas Marina Pimentel, mestranda em Direito pela Unesp, e Cyntia Possídio, presidente da Comissão de Direito Tributário da OAB-BA, reforçam a crítica. Para elas, a norma acerta ao trazer o debate à obrigatoriedade legal, mas falha ao não indicar metodologia, instrumentos ou profissionais habilitados — abrindo brechas para insegurança jurídica e interpretações desiguais entre setores e fiscais.

“Antes de 26 de maio de 2026 não há penalizações, mas as empresas precisam se preparar desde agora. A falta de diretrizes oficiais não impede que a fiscalização cobre coerência, registro e consistência técnica no PGR”, alerta Cyntia.

Cyntia Possídio destaca que falta de diretrizes oficiais não impede que a fiscalização cobre aplicação da norma
Cyntia Possídio destaca que falta de diretrizes oficiais não impede que a fiscalização cobre aplicação da norma Crédito: Divulgação

Protocolos

Diante da ausência de orientações objetivas, tem crescido a procura por assessorias multidisciplinares. Marina e Cyntia afirmam que referências internacionais — como COPSOQ, OMS, ISO 45003 e a Agência Europeia de Segurança e Saúde — se tornaram guias essenciais para evitar arbitrariedades.

Carmen destaca, entretanto, que importar modelos sem adaptação pode gerar distorções. “Não adianta copiar um protocolo europeu e aplicar em uma empresa baiana como se fossem realidades idênticas. O papel da psicologia é traduzir essas diretrizes para a cultura local, criando programas de psicoeducação, canais de escuta seguros e estratégias humanizadas, e não apenas relatórios para cumprir tabela”, reflete.

Pequenas e médias empresas estão entre as mais afetadas pela falta de parâmetros. Sem equipes robustas em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), muitas temem não conseguir atender às exigências mínimas.

Para Carmen, a solução passa por simplificar. “PME não precisa montar grandes departamentos. O mais eficiente é treinar líderes — o dono, o gerente — para reconhecer sinais de sofrimento e adotar comunicação não violenta. Protocolos simples de feedback e clareza nas funções já reduzem sensivelmente a ansiedade da equipe”, defende

Marina, por sua vez, reforça que a ausência de diretrizes oficiais aumenta o risco de desigualdade entre empresas que conseguem pagar consultorias e outras que precisam improvisar. O consenso entre as especialistas é claro: saúde mental não aceita padrão único. Burnout no setor bancário, exaustão emocional no telemarketing, alto estresse cirúrgico na área da saúde, impacto de abuso de substâncias na construção civil — cada categoria profissional apresenta gatilhos específicos.

Para criar protocolos eficazes, Carmen recomenda o Mapeamento de Riscos Específicos, ouvindo diretamente quem vivencia o trabalho. “Questionários são frios. É preciso segurança psicológica para que o trabalhador fale sem medo. Grupos focais mediados por profissionais externos e comitês de ergonomia cognitiva ajudam a captar a dor real por trás dos problemas”, orienta.

Escuta Ativa

As advogadas concordam que a escuta ativa deve ser documentada e incorporada ao PGR com o mesmo rigor aplicado a riscos físicos, químicos ou biológicos.

No vácuo regulatório atual, especialistas recomendam utilizar metodologias já validadas no exterior, como o COPSOQ. Carmen explica que esses instrumentos devem deixar de ser tratados como “pesquisas de clima” e passar a compor a matriz de risco empresarial.

“Identificou-se alta carga mental? Isso deve entrar no PGR e exigir plano de ação — assim como se faria com risco químico. Mesmo sem diretriz nacional, as empresas podem e devem transformar a subjetividade em indicadores mensuráveis”, reforça a psicóloga.

Marina e Cyntia reforçam que a futura regulamentação do MTE precisará definir quem pode avaliar, quais instrumentos são válidos, periodicidade e responsabilidade de cada setor. “Sem isso, a segurança jurídica não se sustenta”, diz Marina.

Marina Pimentel destaca que os riscos psicossociais são tão específicos quanto os  ambientes de trabalho
Marina Pimentel destaca que os riscos psicossociais são tão específicos quanto os ambientes de trabalho Crédito: Divulgação

O avanço da Portaria representa, para Carmen, uma mudança de paradigma: sair da lógica de “apagar incêndios” e atuar na prevenção primária. “Hoje tratamos o trabalhador depois que ele adoece. Se reduzirmos estressores organizacionais, diminuímos biologicamente a ativação crônica do estresse e evitamos casos de Burnout e depressão”, explica.

Estudos internacionais mostram que depressão e ansiedade geram perdas de US$ 1 trilhão por ano à economia global. Líderes tóxicos aumentam em 60% a chance de adoecimento, e 77% dos trabalhadores cogitam sair de empresas que não cuidam do clima organizacional.

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