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Carmen Vasconcelos
Publicado em 16 de março de 2026 às 06:00
O teto de vidro ainda é uma realidade incômoda no mercado brasileiro, mas as frestas estão se abrindo — e o que entra por elas vai muito além de representatividade. Quando uma mulher assume um cargo de decisão, a estrutura ao redor dela costuma mudar de tom. Deixa de ser um campo de batalha competitivo para se tornar um espaço de colaboração e, acima de tudo, segurança. >
Dados de 2023 mostram que as mulheres ocupam cerca de 38% dos cargos de liderança no país. O número, embora crescente, murcha à medida que se sobe na pirâmide: nos conselhos e diretorias (o chamado C-Level), a cadeira feminina ainda é raridade. "A participação feminina na liderança ainda é menor que a masculina, e os obstáculos são estruturais e culturais", pontua Adriano Pereira, professor de Gestão de RH da Unijorge. Segundo ele, microagressões e a falta de acesso às redes de influência ainda barram o avanço de talentos femininos, especialmente entre mulheres negras e indígenas.>
Mas por que o mercado, os investidores e os próprios funcionários estão clamando por mais saias nas mesas de reunião? A resposta está na saúde — mental e organizacional. Especialistas concordam que a liderança feminina atua como um antídoto natural contra ambientes tóxicos.>
Segurança psicológica >
Para Pauline Lopes, gerente de projetos da GT7 (Grupo TODOS Internacional), a diferença é sensível no dia a dia. "Mulheres na liderança proporcionam maior escuta, acolhimento e apoio. Tendem a ser mais mediadoras e solidárias", afirma. >
Essa característica reflete diretamente no combate ao assédio. Enquanto culturas machistas tendem a silenciar o erro, a gestão feminina costuma abrir canais."Muitas vezes, mulheres líderes são vistas como mais acessíveis. Isso incentiva funcionários a denunciar comportamentos inadequados", reforça Adriano Pereira. >
Não se trata apenas de "jeito feminino", mas de uma postura estratégica que prioriza a ética e o bem-estar como pilares da produtividade.>
Um termo que tem ganhado os corredores das grandes corporações é a segurança psicológica: a liberdade de um colaborador errar, perguntar ou sugerir sem medo de ser punido. Nesse quesito, a diversidade de gênero é o combustível principal.>
Damaris Dias, gerente de Pessoas & Cultura da GT7, destaca que a transformação precisa vir de cima. Para ela, a segurança no trabalho nasce de políticas claras, como canais de denúncia independentes e treinamentos sobre vieses inconscientes. >
"A transformação cultural acontece quando a alta liderança assume o tema como parte estratégica e não apenas como iniciativa de comunicação", alerta.>
Para além da publicidade >
O desafio agora é separar o "marketing" da realidade. O mercado financeiro já entendeu que diversidade dá lucro — critérios de ESG (Ambiental, Social e Governança) são hoje bússolas para investidores. No entanto, Pauline Lopes adverte que os colaboradores percebem quando a pauta é apenas para "inglês ver". >
"A liderança machista ainda atua de forma velada. As empresas precisam de lideranças interessadas de forma genuína", diz.>
Para o futuro, o caminho exige mais do que boas intenções. Passa por metas claras de diversidade, programas de mentoria e, fundamentalmente, o apoio à parentalidade. Afinal, se o ambiente é seguro para uma líder que também é mãe, ele provavelmente será seguro para todos.>
Como resume o professor Adriano Pereira: "Diversidade não é apenas questão de imagem. É estratégia de negócio. Ignorar esse tema significa perder talentos e oportunidades de crescimento".>
No mercado baiano e brasileiro, a mensagem é clara: o topo precisa ter o rosto da sociedade que ele atende.>
Rumo ao Topo>
Busque Mentoria e Patrocínio Procure líderes (homens ou mulheres) que já chegaram lá. A mentoria oferece o "caminho das pedras", enquanto o patrocinador é aquele que fala o seu nome em salas onde você ainda não está presente.>
Desenvolva sua Rede de Influência (Networking) Um dos grandes obstáculos citados por especialistas é a dificuldade de acesso a redes de influência. Participe de eventos do setor, fóruns de decisão e grupos de afinidade. Estar no radar é fundamental para ser lembrada em promoções.>
Domine a Linguagem de Negócios (ESG e Finanças)O mercado hoje cobra diversidade através da agenda ESG. Entenda como a presença feminina impacta os resultados financeiros e a inovação da empresa. Use dados para mostrar que sua liderança não é apenas "acolhedora", mas altamente rentável.>