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Maiara Baloni
Publicado em 26 de março de 2026 às 20:10
O preço da gasolina é, talvez, o termômetro mais sensível da economia brasileira. Quando o ponteiro sobe nas bombas, o impacto é imediato no bolso, do custo do frete ao preço do tomate no mercado. Mas afinal, o governo tem a caneta para simplesmente “baixar” o valor? A resposta curta é sim, ele tem ferramentas, mas não manda no preço sozinho.
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Postos com gasolina barata em Salvador
O valor que o motorista paga no posto é o resultado de um cabo de guerra entre o mercado internacional, impostos estaduais e federais, e a própria estratégia da Petrobras. Entender essa engrenagem é o primeiro passo para saber por que o preço oscila tanto.
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Para entender quem define o valor final, é preciso visualizar que ninguém manda sozinho. O preço na bomba é uma construção de quatro grandes "sócios". A Petrobras é o primeiro deles, definindo o preço na refinaria com base nas cotações internacionais do petróleo e no dólar, além de seus custos de produção e refino. O segundo sócio são os governos estaduais, que, por meio do Confaz, estabelecem o ICMS, hoje um valor fixo de R$ 1,57 por litro em todo o país.
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O terceiro é o próprio Governo Federal, que decide as alíquotas de impostos como PIS/Cofins e CIDE, além de influenciar a orientação estratégica da Petrobras. Por fim, o quarto elo são as distribuidoras e os postos de combustíveis, que adicionam seus custos de transporte e margens de lucro, operando em um regime de mercado livre onde cada dono de posto tem autonomia para fixar seu preço.
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Em 2026, esse equilíbrio está sob teste constante devido à instabilidade global. Com os conflitos no Oriente Médio e no Leste Europeu atingindo novos picos de tensão, o petróleo se tornou a principal arma econômica dessas disputas. A guerra influencia o preço brasileiro de forma direta: cada vez que uma rota de suprimento é ameaçada ou uma refinaria internacional é atingida, o preço do barril do tipo Brent dispara nos mercados internacionais, com referência principal em Londres.
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Como o petróleo é uma mercadoria global, a Petrobras, mesmo sendo uma gigante nacional, precisa lidar com esse custo de oportunidade. Se o preço lá fora sobe muito e a estatal mantém o valor interno baixo por tempo demais, ela corre o risco de desabastecimento, já que o Brasil é autossuficiente em petróleo bruto, mas ainda depende da importação de parte dos derivados.
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Durante anos, o Brasil viveu sob a política do PPI, o Preço de Paridade de Importação. Na prática, isso significava que o preço na refinaria brasileira seguia de perto o que acontecia no exterior, com base nas cotações internacionais e no dólar. Em 2023, essa lógica foi alterada para um modelo que também considera os custos internos de produção da Petrobras. Essa mudança deu ao governo uma espécie de "colchão" para filtrar a volatilidade causada pelas guerras, evitando que cada oscilação no exterior vire um aumento imediato no posto da esquina.
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Contudo, esse filtro tem limite. Em um cenário de guerra prolongada e barril em alta, a pressão para reajustes se torna inevitável para não comprometer a saúde financeira da companhia e a arrecadação da União.
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Outro ponto central na conta é o ICMS. No modelo atual, o imposto estadual não é mais uma porcentagem que sobe junto com a gasolina, mas um valor fixo em reais. Essa mudança reduziu o ganho automático dos estados com a alta dos combustíveis, mas também criou um "piso" rígido.
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Mesmo que a Petrobras anuncie uma queda expressiva em suas refinarias, esse R$ 1,57 por litro permanece fixo no curto prazo nos cofres estaduais. Para o consumidor, isso significa que as quedas de preço tendem a ser menos percebidas do que as altas, já que uma parte generosa do valor pago na bomba é um tributo que não oscila conforme o mercado.
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Como uma tentativa de reduzir a dependência do petróleo e minimizar o impacto das crises externas, o governo tem discutido a implementação da gasolina E30, que elevaria a mistura de etanol anidro para 30%. Como o etanol produzido no Brasil costuma ser mais barato que a gasolina pura, a expectativa é de redução no preço final, embora o impacto dependa das condições de mercado.
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Essa medida funciona como uma estratégia de soberania energética. Quanto mais álcool nacional na mistura, menos o motorista brasileiro fica exposto aos choques de preço causados por conflitos geopolíticos do outro lado do mundo.
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