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Maiara Baloni
Publicado em 20 de março de 2026 às 15:13
O mapa global da energia limpa e da tecnologia de ponta acaba de ganhar uma coordenada estratégica no interior do Brasil, carregada de simbolismo político. Na última quarta-feira (18), o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assinou no consulado norte-americano em São Paulo um Memorando de Entendimento (MoU) com o governo dos Estados Unidos. A proposta é transformar o estado em um centro de referência para minerais críticos, insumos indispensáveis para motores de carros elétricos, turbinas eólicas e sistemas avançados de defesa. >
Caiado assina acordo com EUA por terras raras; veja o que diz a lei
O acordo, embora seja uma carta de intenções não vinculante, funciona na prática como um sinalizador de confiança para o capital estrangeiro. Ele se sustenta em três frentes: o intercâmbio com agências americanas, a proposta de um ambiente regulatório célere e a meta de agregação de valor em solo brasileiro. O projeto propõe romper o ciclo de exportação de minério bruto para processar elementos como neodímio e disprósio diretamente no estado.>
Para além das cifras econômicas, o movimento de Caiado é lido como um lance estratégico em sua construção como nome para a Presidência da República. Ao estabelecer um canal direto com a maior economia do mundo, o governador goiano sinaliza ao mercado e ao eleitorado de centro-direita que possui trânsito internacional e uma agenda econômica pragmática, operando de forma independente das tratativas do governo federal. >
A assinatura no consulado americano é uma demonstração de "diplomacia subnacional" que coloca o governador em evidência diante do Palácio do Planalto. Enquanto o governo Lula mantém um ritmo de cautela nas tratativas com a administração de Donald Trump, priorizando a autonomia comercial e evitando a adesão automática a blocos exclusivos, Caiado se antecipou, apresentando Goiás como um parceiro preferencial para investimentos que buscam alternativas à hegemonia da China no setor.>
Goiás detém hoje uma vantagem competitiva que o coloca à frente de outros estados com a operação da Serra Verde, em Minaçu. Atualmente, esta é a única unidade de produção comercial de terras raras em atividade no Brasil. Com um aporte já sinalizado de mais de US$500 milhões (2,6 bilhões) da agência de fomento americana (DFC), a planta busca acelerar seu cronograma para atingir 5.000 toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027. >
Para Washington, o interesse possui um componente predominantemente estratégico. Em um cenário onde a China controla a vasta maioria do processamento global desses minerais, estabelecer uma cadeia de suprimentos segura nas Américas é tratado como prioridade de segurança nacional. O Brasil, dono da segunda maior reserva de terras raras do mundo, surge como o parceiro ideal, e o governo goiano busca se consolidar como a porta de entrada para esses projetos.>
A validade do acordo assinado por Caiado divide opiniões jurídicas. De um lado, o Governo Federal sustenta que o memorando fere o Artigo 22 da Constituição, que reserva exclusivamente à União a tarefa de legislar sobre minérios e conduzir a política externa. Sob essa ótica, Goiás teria invadido uma competência federal ao negociar ativos estratégicos com uma potência estrangeira. >
Por outro lado, Goiás respalda sua ação na Lei Estadual nº 23.597/2025, que criou Zonas Especiais de Minerais Críticos no estado. A procuradoria goiana argumenta que o documento não é um tratado internacional vinculante, mas um termo de cooperação técnica e fomento econômico. Para o Estado, trata-se de um exercício legítimo de autonomia administrativa para atrair investimentos e agilizar licenciamentos locais.>
O embate jurídico reforça a narrativa de Caiado como um gestor que busca desburocratizar o setor através das Zonas Especiais de Minerais Críticos. A lei estadual prevê reduzir o tempo de licenciamento para pesquisas para até três meses, além de oferecer incentivos fiscais condicionados à instalação de fábricas de ímãs e ligas metálicas. >
Caso essas estimativas de investimento se concretizem em empregos de alta tecnologia e renda nos próximos anos, Caiado terá em mãos um argumento central para sua plataforma presidencial, a tese de que é possível liderar a reindustrialização do país a partir dos estados, criando um novo eixo de poder econômico e tecnológico fora do controle direto da capital federal.>