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Amanda Cristina de Souza
Publicado em 20 de maio de 2026 às 21:00
A escalada das tensões no Oriente Médio começou a produzir reflexos diretos no agronegócio brasileiro e o café aparece entre os produtos mais pressionados pelo avanço dos custos. A alta dos fertilizantes, o encarecimento da energia, a volatilidade do dólar e os riscos climáticos já comprimem as margens dos produtores em meio à instabilidade do mercado internacional. >
O café ideal para cada signo
O impacto mais visível aparece na relação de troca do cafeicultor, indicador que mede quantas sacas de café são necessárias para comprar insumos agrícolas. Projeções do banco holandês Rabobank mostram que, em março, eram necessárias 4,66 sacas de café arábica para adquirir uma tonelada de fertilizante.>
Em abril, esse número avançou para 4,97 sacas, mais que o dobro das 2,25 sacas registradas no mesmo período do ano passado. Com isso, o produtor brasileiro precisa entregar muito mais café para manter o mesmo nível de adubação das lavouras.>
A pressão sobre os fertilizantes acontece em um momento de agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, região estratégica para o petróleo e para importantes rotas globais de transporte marítimo.>
O aumento dos custos de combustíveis e fretes internacionais acaba se espalhando por toda a cadeia agrícola, principalmente em países fortemente dependentes de insumos importados, como o Brasil.>
O Brasil ainda importa parcela significativa dos fertilizantes usados no campo, ampliando a sensibilidade do agronegócio às oscilações cambiais e aos choques internacionais.>
Além dos adubos, produtores enfrentam avanço nos custos de diesel, energia elétrica e transporte, o que eleva o peso operacional da safra e reduz a previsibilidade financeira.>
A volatilidade do dólar também dificulta o travamento de preços futuros, estratégia usada pelos cafeicultores para proteger receitas. Com o câmbio instável e o mercado internacional reagindo ao cenário geopolítico, muitos produtores passaram a evitar negociações de longo prazo.>
Mesmo com o café negociado em patamares historicamente elevados, o avanço dos custos começa a corroer parte da rentabilidade do setor.>
Segundo o Rabobank, o café Arábica acumulou alta de 3% em março e mais 2% em abril. Já o Conilon recuou 9% em março, antes de registrar recuperação de 2% no mês seguinte.>
O problema, porém, é que a valorização do café não acompanha o ritmo de alta dos custos de produção, comprimindo as margens justamente em um cenário de incerteza global e encarecimento dos insumos.>
O movimento aumenta a preocupação de cooperativas e exportadores com a sustentabilidade financeira da próxima safra, sobretudo entre pequenos e médios produtores, mais expostos à pressão operacional.>
Além da pressão econômica, o setor monitora com atenção as condições climáticas para o ciclo 2026/27.>
O Rabobank alerta para a redução do volume de chuvas em importantes regiões produtoras e para possíveis efeitos do El Niño sobre a florada e o desenvolvimento das lavouras.>
A combinação entre custos elevados e risco climático aumenta a incerteza sobre produtividade e rentabilidade nos próximos ciclos.>
Ainda assim, a projeção atual aponta para uma safra brasileira de 73,3 milhões de sacas em 2026/27, sendo 48,7 milhões de Arábica e 24,6 milhões de Conilon.>
Mesmo com expectativa de produção robusta, analistas avaliam que o avanço dos custos pode limitar investimentos em manejo, adubação e tecnologia, afetando o potencial produtivo no médio prazo.>
O efeito da crise internacional já atravessa toda a cadeia do café, do fertilizante usado no campo até o preço pago pelo consumidor.>
Com petróleo mais caro, fretes pressionados, dólar elevado e custos agrícolas em disparada, cresce o risco de novos reajustes no café nos próximos meses.>
O cenário reforça como conflitos geopolíticos distantes passaram a impactar diretamente tanto a renda do produtor brasileiro quanto o bolso do consumidor nas prateleiras.>