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Heider Sacramento
Publicado em 1 de junho de 2026 às 18:29
Uma declaração de Caetano Veloso sobre os debates contemporâneos envolvendo raça, sexualidade e gênero chamou atenção nesta segunda-feira (1º). Em entrevista ao jornal espanhol El País, o artista afirmou que as discussões atuais estariam marcadas por um excesso de exposição e disse acreditar que isso tem provocado confusão no debate público. >
“Agora me parece que há mais exposição do que qualquer outra coisa. Quando escrevi ‘Verdade Tropical’, eu dizia que a esquerda precisava prestar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje me parece que há um excesso de racialização, sexualização e ênfase nas questões de gênero. Isso gera muita confusão”, declarou.>
A entrevista foi publicada justamente no início do Mês do Orgulho LGBTQIA+ e integrou uma conversa mais ampla sobre política, comportamento, cultura e o cenário brasileiro. Prestes a iniciar a etapa espanhola da turnê “Caetano nos festivais”, o cantor também falou sobre seu olhar para o momento atual do país.>
Caetano Veloso e Paula Lavigne
Segundo o músico, a sensação predominante hoje é de preocupação. “Neste momento, a preocupação predomina em mim; às vezes, uma espécie de desencanto. Hoje as coisas estão tão feias… O Brasil parece incapaz de se salvar”, afirmou.>
Apesar do diagnóstico pessimista, Caetano disse que ainda acredita na capacidade do Brasil de oferecer contribuições importantes ao mundo. “Ao mesmo tempo, porém, ainda tenho a sensação de que o país pode dizer algo importante ao mundo. Esse sentimento ainda não morreu dentro de mim”, completou.>
Durante a conversa, o artista também demonstrou incômodo com a normalização de discursos favoráveis à ditadura militar. Preso e exilado durante o regime, ele classificou esse tipo de posicionamento como algo “insuportável”.>
Outro tema abordado foi a influência do Tropicalismo e a defesa da mistura cultural. Ao recordar conceitos ligados ao movimento, Caetano voltou a citar a ideia de antropofagia cultural como uma forma de absorver referências externas e transformá-las em algo próprio.>
“Nas Américas não existe pureza cultural. Por isso, não aceitávamos uma defesa fechada da tradição. Mais tarde descobrimos as ideias de Oswald de Andrade e a noção de ‘antropofagia cultural’: devorar influências do mundo dominante para transformá-las em algo nosso. Essa visão complexa da cultura ainda me parece válida”, afirmou.>
Após os compromissos na Europa, Caetano Veloso tem apresentações previstas em cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.>