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Em documentário de 2h, Suzane von Richthofen quebra o silêncio, relembra crime e afirma: 'Tenho certeza de que Deus me perdoou'

Em longa-metragem inédito, ela também fala sobre a relação com os pais e diz ter presenciado uma cena de violência quando era criança: 'Vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede'

  • Foto do(a) author(a) Giuliana Mancini
  • Giuliana Mancini

Publicado em 6 de abril de 2026 às 06:22

Suzane von Richthofen no documentário
Suzane von Richthofen no documentário Crédito: Reprodução

Mais de vinte anos após o assassinato dos próprios pais, Suzane von Richthofen, hoje com 42 anos, decidiu revisitar o passado. Em um documentário inédito com cerca de duas horas de duração, ela apresenta sua versão sobre o crime pelo qual foi condenada a 39 anos de prisão, pena atualmente cumprida em regime aberto. No filme, relembra a própria trajetória e reconstrói, em sua versão, a história que marcou o país.

As informações são da coluna True Crime, de Ullisses Campbell, do jornal O Globo. Por enquanto, o longa foi disponibilizado apenas em uma pré-estreia restrita na Netflix e ainda não tem data oficial de lançamento. No relato, Suzane inicia pela infância e descreve a casa onde ocorreu o crime como um ambiente frio, sem demonstrações de afeto e marcado por cobranças constantes.

Suzane von Richthofen no documentário por Reprodução

“Eu vivia estudando. Era só nota alta. Tirava 9 e 10 em todas as matérias. Não tinha demonstração de amor, nem deles pra gente, nem da gente pra eles. Minha vida era brincar com o meu irmão”, afirmou. Sobre Manfred, acrescentou: “Meu pai era zero afeto. Minha mãe ainda tinha um pouco. Volta e meia ela pegava a gente no colo. Mas era muito de vez em quando”.

Ela também relata um ambiente familiar conturbado. “O relacionamento dos meus pais era muito ruim”, disse, ao recordar um episódio de violência que presenciou ainda nova. “Eu era criança. Meus pais botavam a gente pra dormir muito cedo. Ouvi uma discussão e desci pra ver o que era. Eu vi meu pai enforcando a minha mãe contra a parede. Foi horrível”.

Segundo Suzane, não havia diálogo dentro de casa, inclusive sobre temas íntimos. “Eu nunca conversei sobre sexo com a minha mãe. Nenhuma vez. Zero”, contou. O distanciamento, de acordo com ela, aumentava com o tempo. “Eu e meu irmão fomos ficando invisíveis dentro de casa”. Nesse contexto, ela afirma que criou com Andreas um vínculo isolado dos pais. “Era um refúgio nosso dentro de casa”.

Ao longo do documentário, Suzane sustenta que a relação familiar era marcada por ruptura. “Minha família não era família Doriana. Longe disso. Meus pais construíram um abismo entre nós”. Em outro momento, afirma que “esse espaço vazio foi ocupado pelo Daniel”.

Produtos de Suzane von Richthofen por Reprodução/Redes sociais

A narrativa sugere que esse cenário abriu caminho para o relacionamento com Daniel Cravinhos, condenado pelo mesmo crime. Sem assumir diretamente essa conexão, Suzane constrói a ideia de que o ambiente doméstico contribuiu para o desfecho.

Manfred e Marísia von Richthofen foram assassinados a pauladas em 31 de outubro de 2002. O crime foi planejado pela filha e executado pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos. “Eu não construí a arma do crime. Não tenho nada a ver com isso”, declarou.

Segundo Suzane, o relacionamento com Daniel intensificou os conflitos dentro de casa. “O Daniel passou a ocupar todos os espaços da minha vida”, disse. A mãe, segundo ela, criticava o namoro: “Ela falava que ele ia me puxar para o fundo do poço”.

A partir disso, ela afirma ter levado uma vida dupla. “Eu saía de casa dizendo que ia pro karatê, mas ia pra casa do Daniel”, contou. “Escondida dos meus pais, conheci todo o litoral de São Paulo. A gente alugava carro e seguia viagem. O Daniel me mostrou o mundo que eu queria viver”.

Veja como está Suzane von Richthofen hoje por Reprodução

As mentiras, segundo Suzane, acabaram descobertas. “Virou uma guerra dentro de casa. Qualquer coisa era briga”. Ela relata ainda um episódio de agressão. “Ele me deu um tapão na cara tão forte que meu rosto virou pro lado”.

O ponto de virada, de acordo com o relato, aconteceu durante uma viagem dos pais à Europa. “Foi um mês de liberdade total. Um sonho que eu não queria que acabasse. Era o dia inteiro de sexo, drogas e rock ’n’ roll”, disse. “Aquele mês mudou tudo na nossa vida”.

Ela afirma que a ideia do crime foi sendo construída gradualmente. “Nós não falávamos em matar meus pais. A gente dizia que seria muito bom se eles não existissem”.

Mesmo tentando se distanciar do planejamento, Suzane reconhece sua participação. “Eu aceitei. Eu os levei pra dentro da minha casa”. E conclui: “A culpa é minha. Claro que é minha”.

Sobre a noite do assassinato, ela diz que não participou diretamente. “Eu fiquei no sofá, com a mão no ouvido para não escutar nada”, relatou, embora admita: “Eu sabia”. Em outro trecho, descreve seu estado emocional como “dissociado”. “Eu não estava em mim. Era como um robô, sem sentimento”. Ainda assim, reconhece: “Se eu parasse pra pensar, aquilo não aconteceria. (...) Quando tudo terminou, o impacto veio de forma imediata. Não tinha mais como voltar atrás. O que eu fiz não tem mais volta”.

O documentário, ainda de acordo com Ullisses Campbell, apresenta poucos momentos de confronto. Em um deles, a delegada Cíntia Tucunduva relata que Suzane foi encontrada em uma festa na casa da família após o crime, de biquíni, fumando e com uma lata de cerveja, apresentando o local como se fosse um museu. Suzane contesta: “Não tinha a menor condição de fazer uma festa naquela casa. A casa estava com cheiro de sangue”.

Com título provisório de "Suzane vai falar", a obra já circula entre fãs de true crime, que compartilharam trechos nas redes sociais. O filme também mostra a vida atual de Suzane, incluindo o relacionamento com o médico Felipe Zecchini Muniz, que, no próprio documentário, relata ter entrado em contato com ela pelo Instagram para encomendar para as três filhas sandálias que Suzane customizava.

As filhas dele aparecem em cenas familiares, como quando surgem ajudando a decorar a casa para o Natal. Assim como o filho pequeno de Suzane, reforçando a construção de uma nova rotina.

No final, ela tenta se dissociar da própria história. “Aquela Suzane ficou lá no passado. A sensação que eu tenho é que ela morreu junto com os meus pais”, disse. Segundo ela, hoje é “uma outra pessoa”.

Ao abordar fé e redenção, Suzane afirma: “Quando eu olho para o meu filho, eu tenho a certeza de que Deus me perdoou”.

Ainda assim, admite que não consegue escapar do reconhecimento público. “Você entra num lugar e parece que o ar para. Todo mundo olha. ‘Olha, a Suzane’”, relatou. “Quantas fotos minhas, às vezes, no supermercado... a pessoa tirando foto”.

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Netflix Suzane von Richthofen Documentário