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Flavia Azevedo
Publicado em 31 de março de 2026 às 21:37
No último ano, o psicólogo Lee Chambers percorreu o Reino Unido com uma missão: ouvir o que os meninos de 12 a 16 anos tinham a dizer. O que ele encontrou foi um cenário de frustração e incerteza: mais de 80% sentem falta de espaços físicos para "serem meninos", e a maioria considera o mundo digital mais recompensador que o real. Mas o dado mais alarmante é que quase 80% não sabem o que significa "masculinidade" hoje, ouvindo apenas que ela é "tóxica".>
O debate sobre uma suposta "crise dos meninos" ganhou força com o avanço da manosfera — redes online que frequentemente promovem discursos misóginos — e dados científicos que acendem o sinal amarelo para a saúde e o futuro profissional dos jovens do sexo masculino.>
O abismo nas salas de aula>
Embora historicamente as meninas tenham enfrentado mais barreiras para entrar na escola, os dados atuais da UNESCO mostram um fenômeno inverso na conclusão dos estudos. Globalmente, os meninos têm maior probabilidade de não progredir e de abandonar o ensino médio.>
A disparidade é ainda mais visível no ensino superior: em cerca de 40 países, há apenas 80 homens matriculados na universidade para cada 100 mulheres. Especialistas apontam que a pobreza é um fator crucial, pois pressiona os jovens a buscarem trabalho precário precocemente, além de expectativas de gênero que minam o desejo de aprender. Contudo, é importante notar que essas dificuldades na educação ainda não se traduziram totalmente em igualdade no mercado de trabalho, onde as mulheres continuam enfrentando menores salários e taxas de emprego.>
Crianças e adolescentes
Saúde mental e o "risco masculino">
A ciência também revela uma face sombria na saúde dos adolescentes. De acordo com o estudo Global Burden of Disease, as lesões — que incluem acidentes de trânsito, violência e auto-mutilação — representam 33% dos anos de vida saudável perdidos por homens jovens, contra 15% entre as mulheres. Pesquisadores sugerem que isso ocorre porque meninos são socializados para serem mais imprudentes e propensos a assumir riscos. >
No campo da saúde mental, o cenário é complexo:>
A "Crise de Conexão">
Um dos pontos centrais da discussão é o que Gary Barker, da organização Equimundo, chama de "crise de conexão". Meninos são frequentemente ensinados a "serem fortes" e a não demonstrarem emoções, o que dificulta a busca por apoio.
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Uma pesquisa do Pew Research Center revelou que apenas 38% dos adolescentes do sexo masculino se sentem confortáveis em falar sobre saúde mental com amigos, comparado a 58% das meninas. Esse isolamento emocional pode levar a um ciclo de violência: o que os meninos sofrem ou testemunham em casa e na escola muitas vezes se converte em perpetração de violência no futuro.>
Vítimas ou Vilões? O debate sobre a Manosfera>
A ideia de uma "crise masculina" é controversa. Alguns pesquisadores temem que esse enquadramento encoraje jovens a se verem como vítimas da igualdade de gênero, alimentando o ressentimento e a hostilidade contra mulheres. Sarah Baird, pesquisadora da George Washington University, ressalta que, embora os meninos enfrentem desafios reais, a situação ainda é sistematicamente pior para as meninas em muitos indicadores globais.>
O desafio para a ciência e para a sociedade no século XXI parece ser duplo: apoiar os meninos em suas vulnerabilidades específicas sem retroceder nos direitos conquistados pelas mulheres. Como resume Lee Chambers, o futuro para esses jovens é incerto, e enquanto alguns buscam mudar o mundo positivamente, outros, frustrados, parecem querer "queimar tudo".>
Por @flaviaazevedoalmeida , com informações da revista Nature (Pearson, Helen. "Are boys really in crisis? What the science says in the age of the manosphere".)>