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Homem vítima do maior acidente radioativo do mundo teve DNA destruído em segundos e sobreviveu após 'bomba atômica' no próprio corpo

Acidente nuclear no Japão revelou até onde o corpo humano pode resistir à radiação extrema

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Foto do(a) author(a) Gabriela Barbosa
  • Agência Correio

  • Gabriela Barbosa

Publicado em 6 de março de 2026 às 13:00

Trabalhador exposto a uma dose considerada incompatível com a vida sobreviveu por 83 dias
Trabalhador exposto a uma dose considerada incompatível com a vida sobreviveu por 83 dias Crédito: Freepik

Em 30 de setembro de 1999, um acidente em uma instalação nuclear no Japão expôs de forma dramática os limites do corpo humano. O episódio ocorreu na cidade de Tokaimura, quando um procedimento errado desencadeou uma reação nuclear inesperada.

Entre os trabalhadores presentes estava Hisashi Ouchi. Ele recebeu uma das maiores doses de radiação já registradas em um ser humano. O impacto foi tão intenso que especialistas afirmam que poucos organismos poderiam resistir sequer por minutos.

Média de vida em território japonês ultrapassa a expectativa de todo o planeta e as mulheres lá vivem, em média, 86 anos por KIMIMASA MAYAMA/AFP

Ainda assim, a história não terminou naquele instante. O que aconteceu nas semanas seguintes transformou o caso em um dos mais discutidos da medicina e da segurança nuclear.

O procedimento que ignorou as regras

O acidente ocorreu em uma instalação operada pela empresa JCO, responsável pelo processamento de combustível nuclear. Naquele dia, técnicos manipulavam uma solução de urânio enriquecido que deveria seguir um protocolo rígido de segurança.

O método correto exigia o uso de tanques especiais projetados para evitar o risco de criticidade. Esse estágio ocorre quando o material nuclear inicia uma reação em cadeia capaz de liberar grande quantidade de energia.

Para acelerar o trabalho, porém, os funcionários despejaram manualmente a solução em um recipiente inadequado. A decisão mudou completamente o desfecho da operação e permitiu que a reação nuclear começasse.

Não houve explosão convencional nem fogo. Em vez disso, um clarão azul intenso iluminou o ambiente e indicou a liberação abrupta de radiação. Quando os alarmes soaram, a exposição já havia ocorrido.

A dose considerada impossível

Entre os três técnicos presentes, Ouchi estava mais próximo do recipiente no momento da reação. Por isso, acabou recebendo a maior carga de radiação.

Investigações posteriores estimaram que ele foi exposto a cerca de 17 sieverts. Para comparação, uma dose de 4 sieverts já é considerada extremamente perigosa e pode levar à morte.

Quando a exposição ultrapassa 8 sieverts, a sobrevivência torna-se praticamente impossível. Por esse motivo, os 17 sieverts recebidos por Ouchi foram classificados como incompatíveis com a vida.

Mesmo assim, ele permaneceu consciente durante o transporte ao hospital. Esse detalhe surpreendeu médicos e ajudou a dimensionar a gravidade do acidente.

Quando o corpo perde a capacidade de se recuperar

Nos dias seguintes, exames mostraram um cenário devastador. Os glóbulos brancos praticamente desapareceram, deixando o organismo sem defesa contra infecções.

Os médicos também constataram danos profundos ao DNA das células. Sem capacidade de se multiplicar, os tecidos deixaram de se regenerar, o que provocou deterioração progressiva do corpo.

A pele começou a se desprender, os tecidos internos se degradaram e infecções se espalharam com rapidez. Além disso, o paciente sofreu sangramentos internos e falência gradual de órgãos.

Durante o tratamento, a equipe tentou diversas estratégias médicas. Ouchi recebeu transfusões de sangue, estímulos para produção celular e até um transplante de células-tronco.

83 dias que ainda geram debate

Apesar dos esforços médicos, o corpo não conseguiu reagir aos tratamentos. Ouchi permaneceu internado por 83 dias em estado extremamente grave.

Nesse período, o coração precisou ser reanimado após paradas cardiorrespiratórias. Já os pulmões e os rins perderam gradualmente a capacidade de manter funções vitais.

Há relatos de que, em momentos de lucidez, ele teria pedido a interrupção dos procedimentos devido ao sofrimento intenso. Mesmo assim, a equipe manteve as intervenções.

A morte foi confirmada em 21 de dezembro de 1999, após falência múltipla de órgãos. Até hoje, o caso levanta debates sobre limites éticos da medicina e segurança no setor nuclear.

O que as investigações revelaram

As apurações oficiais indicaram que o acidente não ocorreu por falha tecnológica. Na verdade, decisões humanas tiveram papel central no desastre.

Entre os problemas identificados estavam o desrespeito às normas de segurança e o uso de práticas improvisadas no manuseio de material radioativo. Além disso, o treinamento da equipe foi considerado inadequado.

Outro ponto citado nas investigações foi a cultura de trabalho que priorizava rapidez em vez de segurança. Esse ambiente contribuiu para a escolha de procedimentos fora do protocolo.

A empresa responsável pagou indenizações milionárias às vítimas do acidente. Mesmo assim, a instalação de Tokaimura continuou operando por anos e só encerrou as atividades em 2011.