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Mecânico compra tanque on-line, encontra R$ 12 milhões em barras de ouro e choca com decisão

Cinco barras encontradas em um tanque iraquiano comprado online viram gancho para entender como o ouro pode carregar mercúrio e CO2 antes de chegar a joias e eletrônicos

  • Foto do(a) author(a) Agência Correio
  • Agência Correio

Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 11:00

O achado de US$ 2,4 milhões em ouro dentro de um veículo militar puxa um debate direto: rastreabilidade, garimpo e o papel do ouro reciclado.
O achado de US$ 2,4 milhões em ouro dentro de um veículo militar puxa um debate direto: rastreabilidade, garimpo e o papel do ouro reciclado. Crédito: Reprodução/Youtube

Ao restaurar um tanque iraquiano antigo comprado no eBay, o colecionador Nick Mead e um mecânico abriram o tanque de diesel e encontraram cinco barras de ouro escondidas. A estimativa chega a US$ 2,4 milhões, o equivalente a R$ 12 milhões.

O ouro foi entregue às autoridades britânicas e pode estar no veículo desde 1990. Mais do que a fortuna, o episódio chama atenção para o rastro ambiental do metal, do garimpo ao produto final.

O caso chama porque mistura guerra, coleção e um achado improvável. Só que ele serve, sobretudo, como espelho de um mercado presente no cotidiano: ouro em joias, em investimentos e até dentro de aparelhos eletrônicos.

Homem compra um tanque de guerra usado por US$ 37 mil e encontra cinco barras de ouro por Reprodução/Internet

Um tanque, cinco barras e uma investigação em andamento

Mead esperava o pacote tradicional de dor de cabeça: peças, manutenção e sujeira de um veículo militar antigo. Em vez disso, encontrou barras avaliadas em cerca de 2,5 milhões de euros dentro do compartimento de diesel.

A suspeita é que o ouro tenha sido escondido desde a invasão do Kuwait em 1990. A reação foi entregar o material às autoridades do Reino Unido, que tentam rastrear a origem e localizar os proprietários legítimos.

Mais tarde, o colecionador comentou que se arrependeu de não receber recompensa e afirmou que “gold has a fingerprint”. A frase resume a noção de que o ouro pode ser ligado a locais e cadeias de extração.

A procedência do ouro não fala só de conflito. Ela aponta para leitos de rios, minas informais e acampamentos isolados onde o diesel não para, e onde vapores de mercúrio podem dominar o ar.

Esse elo muda a leitura do ouro: o metal deixa de ser apenas símbolo de riqueza e passa a carregar um histórico de contaminação e emissões, que muitas vezes fica fora do radar de quem compra.

O mercúrio como chave do problema

Uma grande parte do ouro mundial ainda vem de mineração artesanal e de pequena escala. Nesse tipo de operação, o mercúrio aparece como método rápido para separar partículas minúsculas do sedimento.

Pesquisadores mostraram que essa mineração é a maior fonte humana individual de poluição por mercúrio, liberando algo em torno de mil toneladas por ano no ambiente. É um volume que transforma o risco em crise.

Em Gana, o texto base descreve um estudo conjunto da Pure Earth com a Environmental Protection Authority. O trabalho encontrou níveis de mercúrio no solo muito acima dos limites de segurança da Organização Mundial da Saúde em certas comunidades.

O mesmo levantamento identificou arsênio acima de valores de referência e registrou que profissionais de saúde já observam problemas renais e exposição ao mercúrio em crianças. Assim, o dano aparece antes de virar estatística.

O texto traz um retrato semelhante na Amazônia. Monitoramento por satélite indica que a mineração ilegal no Peru removeu cerca de 140.000 hectares de floresta tropical desde meados da década de 1980.

Além disso, a atividade contaminou mais de duzentos rios e córregos com mercúrio. Para famílias indígenas que pescam nesses locais, a presença do metal pode significar alimento contaminado e risco crescente à saúde.

Ouro e CO2: o custo climático antes da joia

Mercúrio é só parte do rastro. O texto base afirma que o ouro é intensivo em carbono. Uma análise global da mineração industrial estima emissões acima de 100 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano.

Na Amazônia brasileira, um estudo acompanhou mercúrio e emissões em garimpos e estimou que produzir 1 quilo de ouro pode gerar de 10 a 30 toneladas de CO2 equivalente, dependendo do método e das máquinas.

Boa parte vem da queima de diesel em escavadeiras, bombas e geradores. Isso conecta diretamente o ouro a combustíveis fósseis, com impactos que ultrapassam o local e pressionam o clima global.

O mesmo estudo comparou ouro novo com ouro reciclado e mostrou uma diferença marcante. Ouro refinado de sucata em instalações modernas teria cerca de 53 quilos de CO2 equivalente por quilo, muito abaixo da extração.

Em termos simples, o ouro mais sustentável é o que já está acima do solo. Ele pode vir de joias antigas, de eletrônicos, de placas de circuito e de estoques esquecidos, com potencial de reaproveitamento.

O que mudar sem complicar

Você não precisa encontrar barras escondidas para agir. A mudança começa com escolhas de compra, descarte e cobrança por rastreabilidade, além de apoio a regras que reduzam o uso de mercúrio na cadeia do ouro.

-procure ouro reciclado ou certificado ao comprar joias

-recicle eletrônicos e sucata em pontos adequados

-defenda rastreabilidade mais rígida para o metal

O tanque no interior da Inglaterra é um símbolo fora do comum. A lição, porém, é cotidiana: cada barra carrega uma história oculta, e diminuir mercúrio, diesel e desmatamento torna essa história melhor para todos.

O estudo foi publicado na Nature Sustainability.