Cadastre-se e receba grátis as principais notícias do Correio.
Luiza Gonçalves
Publicado em 20 de fevereiro de 2025 às 08:20
No curta-metragem 56 Dias a jovem Eva (Laís Machado) enfrenta um momento conturbado na sua vida ao descobrir uma gravidez indesejada em meio a um término e incertezas profissionais. Solidão, estranheza, questionamentos sobre o corpo e sentimentos inesperados conduzem a narrativa da diretora baiana Lara Carvalho sobre maternidades possíveis e aborto espontâneo, como o sofrido pela personagem. >
A história pode ser vista em primeira mão amanhã (21), a partir das 19h, na sala Walter da Silveira, no evento de lançamento do curta-metragem 56 Dias, que terá entrada gratuita e debate após a sessão.>
“Vejo como 56 Dias me ajudou a transformar uma experiência agridoce em um processo bonito. O audiovisual faz com que a gente se sinta menos sozinho quando assiste a uma narrativa que toca num lugar sensível, que nos faz questionar como estaríamos naquela situação. Espero que o filme destaque a importância de falarmos sobre aborto, seja ele espontâneo ou induzido, e sobre a necessidade de termos uma rede de apoio para nos amparar nesses momentos”, afirma a diretora.>
O curta-metragem de docuficção foi baseado em uma experiência pessoal vivida pela cineasta e traz como ponto central a discussão acerca do aborto, dos diretos sobre os corpos e maternidade. “Eu mesma já me perguntei muitas vezes se queria ser mãe ou se era algo que eu havia introjetado. Ainda não sei a resposta, mas sabia que aquele momento da minha vida não seria bom pra mim nem pra uma criança. Esse é um entendimento que escapa a algumas pessoas. Em geral, na representação audiovisual, sofrer um aborto espontâneo está associado a uma gravidez desejada e um aborto induzido a uma gravidez indesejada. Essa não foi a minha experiência e a de outras pessoas com útero que conheço. Vivi um aborto espontâneo e foi um alívio gigante, mas me fez sentir alheia ao meu próprio corpo”, partilha Carvalho.>
Memórias>
Com a escrita, produção e finalização do curta, que teve início em 2019, a diretora revela ter encontrado um caminho de encerramento para essas memórias e experiências vividas a partir da transposição para a poética audiovisual e adequação dessa narrativa para que ela pudesse atingir o público>
Ela diz que encontrar esse equilíbrio foi o maior desafio: “?É difícil discutir publicamente o aborto quando as pessoas não o reconhecem como prioridade para saúde pública, como uma alternativa segura para corpos racializados. Pra ser sincera, gostaria que a gente não precisasse explicar para as pessoas porque decidir o que fazer com nossos próprios corpos deveria ser um direito”, complementa Lara. >
A diretora pontua ainda que, a partir da escolha da atriz Laís Rocha para dar vida à protagonista, também é provocada a discussão sobre gravidez indesejada, abandono paterno e as consequentes violências obstétricas nas pessoas negras. “Que sabemos, por dados, que são as que mais são acometidas no Brasil”, diz, trazendo outras camadas interseccionais para o produto audiovisual.>
Até agora, 56 Dias já foi exibido em sete festivais nacionais de cinema nacionais em diferentes estados, além de ter sido semifinalista de um prêmio internacional no Woman Life Freedom Film Festival e atrair a identificação dos espectadores que já contemplarm a obra.>
“A recepção do público, em específico, tem sido bem calorosa. Já recebi mensagens no Instagram e abraços ao final de sessões porque muitas pessoas se viram ou viram pessoas que conheciam ali. A maior satisfação é saber como está chegando nas pessoas, acho que é aí que tá esse potencial de impacto. O filme chega de diferentes formas e isso é o mais bonito”, reflete Lara Carvalho.>
*Com orientação da editora Doris Miranda>