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Rivalidade Ardente: romance proibido entre rivais vira hit global

Sucesso entre fãs, trama une rivalidade esportiva e amor secreto

  • Foto do(a) author(a) Maria Raquel Brito
  • Maria Raquel Brito

Publicado em 24 de março de 2026 às 06:00

Ilya Rozanov e Shane Hollander
Ilya Rozanov (Connor Storrie) e Shane Hollander (Hudson Williams) Crédito: Divulgação

Quando os times entram na pista de gelo, a disputa é palpável. Seis jogadores de uniforme azul para um lado, seis de preto para o outro. Entre dois deles, porém, a rixa é ainda mais conhecida: Shane Hollander e Ilya Rozanov estão sempre competindo pelo título de melhor jogador profissional de hóquei.

Se você é do mundo das séries, é difícil essa cena e esses nomes não soarem familiares. Interpretados por Hudson Williams e Connor Storrie, o canadense Shane e o russo Ilya são os protagonistas de “Rivalidade Ardente”, que tomou conta da internet nos últimos meses.

Rivalidade Ardente acompanha o romance de Shane Hollander (Hudson Williams) e Ilya Rozanov (Connor Storrie) por Reprodução

Baseada na série de livros “Game Changers”, escrita pela canadense Rachel Reid, “Rivalidade Ardente” acompanha o romance secreto de quase uma década de dois atletas rivais, que começa puramente carnal e torna-se mais complexa com o passar dos anos. Os livros começaram a ser publicados em 2018 com a história de Kip e Scott, personagens que também aparecem na adaptação.

Desde a estreia nos Estados Unidos, em 28 de novembro do ano passado, não demorou muito para que o seriado se transformasse num fenômeno. Foram, em média, nove milhões de espectadores por episódio na HBO enquanto a temporada era lançada, de acordo com o Hollywood Reporter. E no lançamento do último episódio, em 26 de dezembro, a audiência foi 300% maior que a do primeiro.

Agora, os atores estão em todos os lugares: nos programas da madrugada estadunidenses, nas grandes premiações da TV e do cinema e, claro, estampando as redes sociais dos milhares de fãs que aguardam ansiosamente pela segunda temporada – confirmadíssima, mas ainda sem data definida. Em entrevista à Variety, o criador da série, Jacob Tierney, confirmou que a segunda temporada está nos planos, mas não deve estrear antes de 2027.

No Brasil, “Rivalidade Ardente” chegou oficialmente há pouco tempo. A série estreou na HBO Max em 13 de fevereiro, cerca de um mês e meio atrás. O livro que deu origem à história também chegou às estantes brasileiras no início de fevereiro, traduzido pela Editora Alt. Mas isso não quer dizer que os fãs brasileiros ficaram alheios à trama por todo esse tempo. Muito pelo contrário.

Antes mesmo da série ser lançada, a jornalista Larissa Almeida, 24, já estava obcecada. Ficou encantada com a ideia de duas pessoas se manterem apaixonadas por quase uma década, em segredo, sendo rivais. No dia da estreia, que ocorreria por volta das 2h30 da madrugada, teve insônia e ficou até 7h da manhã esperando um grupo voluntário legendar para assistir. E deixa claro que não se arrepende.

“Minha história com a série começou através do livro. Sou consumidora assídua de literatura queer e já estava acostumada a ler romances LGBTs, principalmente com a temática de esportes. Curiosamente, não conhecia Heated Rivalry, mas vi no X que uma série sobre hóquei com protagonistas LGBTs seria adaptada para o formato de série. Procurei me informar e decidi dar uma chance ao livro – e quis fazer isso rápido pra ver antes da série ser lançada. Acabei lendo tudo em menos de duas semanas e me apaixonei”, conta.

O estudante Mateus Costa, de 18 anos, foi atraído para a série pelos trechos mais picantes que via em cortes nas redes sociais. Correu para assistir e se apegou ainda mais conforme a relação de Shane e Ilya – o casal “Hollanov” – se aprofundava. “É uma sensação muito representativa e gratificante, pois com essa visibilidade enorme que eles tiveram conseguiram encorajar várias pessoas, fazendo com que elas se sentissem confortáveis o suficiente para saírem do armário”, resume.

Identificação

É justamente o receio da descoberta em um ambiente conservador que faz com que “Rivalidade Ardente” se destaque. O processo de atração, repulsa, confronto e aceitação dos protagonistas faz eco em telas de jovens LGBTQIA+s mundo afora.

Para Leandro Colling, professor titular da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e integrante do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades (NuCuS), esse tipo de narrativa é relevante porque evidencia para as outras pessoas, especialmente aquelas que estão vivendo coisas similares, que elas não são monstros e que é possível enfrentar preconceitos.

Segundo ele, a série questiona mais pelas cenas de sexo, que explicariam boa parte do sucesso, em especial para o público gay. Outro fator para o sucesso seria o protagonismo de esportistas, que atuam num campo ainda muito homofóbico, “a exemplo do que vemos no futebol no Brasil”.

“Uma história similar a essa no futebol brasileiro também poderia fazer muito sucesso. Além disso, nos últimos anos, temos visto um constante ataque às pessoas LGBTQIAPN+, com muito discurso de ódio sendo produzido em muitos lugares. Talvez por isso a série também tenha atraído a atenção, mostrando que a aceitação da homossexualidade, mesmo em ambientes e personagens bem padronizados, não é tão tranquila como muita gente imagina”, afirma.

Atraiu a atenção, por exemplo, do ex-jogador de hóquei Jesse Kortuem, de 40 anos. Natural dos Estados Unidos, Kortuem sempre nutriu uma paixão pelo esporte, mas abandonou ainda na adolescência por não se sentir aceito. Décadas depois, se sentiu confortável para assumir a própria sexualidade por conta da série.

Leonardo Ribeiro, psicólogo que tem como um dos focos a população LGBTQIA+, afirma que, em contextos em que a autoexpressão torna alguém alvo de preconceito, a construção da identidade pode ser atravessada por sofrimento psíquico intenso, levando quem sofre violência a acreditar que viver a própria identidade é o problema. E aqui está um dos pontos fortes da série.

“A construção crua e realista apresentada em ‘Rivalidade Ardente’ ressalta como o afeto pode existir mesmo em cenários adversos. Na sociedade, constroem-se como tabu as sexualidades e o sexo, buscando definir um único jeito de ser como correto e excluindo as diversas formas de existir. Shane e Ilya podem gerar identificação por representarem algo comum para pessoas LGBTQIA+: a tentativa de validar os sentimentos e, paralelamente, o medo das consequências por estar em uma sociedade em que se expressar pode significar o fim da própria vida”, afirma.

O acolhimento da família – ou falta dele – é um fator importante para entender os protagonistas e suas angústias. Enquanto Ilya tem uma relação conturbada com a família na Rússia, Shane é próximo dos pais e é recebido com apoio por eles quando descobrem sobre sua sexualidade, apesar do receio que sentia de como os dois lidariam com isso.

Segundo Leonardo, esse suporte é uma questão essencial para jovens da comunidade LGBTQIA+. “A série oferece um retrato da influência familiar no processo identitário, seja oferecendo acolhimento ou contribuindo para o isolamento que muitas pessoas LGBTQIA+ acabam sofrendo, precisando se distanciar para ser quem são”, diz.

Público feminino

Larissa Almeida está longe de ser a única mulher a se apaixonar pela história de Shane e Ilya. De acordo com informações de um porta-voz da HBO concedidas ao New York Times, 53% do público da série era composto por mulheres em 22 de dezembro, quatro dias antes do lançamento do último episódio. Na segunda semana de janeiro, o percentual era ainda maior: elas representavam cerca de dois terços da audiência.

Essa afeição é visível nas redes sociais e na presença feminina nos eventos da série e dos livros. Além, claro, da própria autora ser uma mulher.

Para Colling, o sucesso entre as espectadoras mulheres se deve basicamente a dois fatores. O primeiro seria o fato de serem dois homens considerados bonitos, másculos, esportistas e jovens tendo relações sexuais. Mas vai além disso.

“Em geral, as mulheres, ao contrário dos homens heterossexuais, possuem muito mais empatia e sensibilidade para com as pessoas gays. O fato de sofrerem com a misoginia talvez promova esse tipo de sensibilidade para com o outro”, diz.

Larissa, fã de carteirinha dessa história, agora conta os dias para ver nas telas a continuação do romance entre Shane e Ilya, que promete ser mais madura e tratar de temas sensíveis para os dois. Para ela, a série inspira uma mudança, põe no radar e instiga a reflexão de onde estão as pessoas LGBTQIA+ nas ligas esportivas.

"Porque, sim, eles definitivamente existem, mas é muito provável que não apareçam por medo de represálias. Além disso, acredito que a história de Shane e Ilya mostra para as produtoras que o público não apenas está pronto para ver casais como esses, como também está ávido. É uma febre porque coloca na tela o que muita gente quer ver há muito tempo."