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Publicado em 30 de novembro de 2025 às 09:30
À medida que o digital avança e organiza a nossa vida em telas, pastas e algoritmos, a casa passa a buscar outro tipo de linguagem. Não como oposição à tecnologia, mas como equilíbrio. Quando o ritmo acelera demais, a resposta quase sempre vem de algo totalmente offline. É por isso que 2026 chega com força no movimento do feito à mão: objetos produzidos com intenção, conceito e presença. Um trabalho manual que entende que design não é enfeite: é mensagem.>
Tapeçarias que voltam às paredes como se fossem pinturas, cerâmicas com superfícies irregulares, fibras naturais que abraçam o espaço. Esse repertório já vinha crescendo, mas agora se consolida como afirmação estética. Quem escolhe peças manuais comunica, de imediato, personalidade. Sempre digo que aquilo que funciona é o que tem design, e design, hoje, é clareza. É impacto no primeiro olhar, mesmo quando nasce de um gesto torto, de uma linha irregular, de uma forma que poderia existir apenas ali. É o sentido antes da simetria.>
De tudo que eu vejo
A estética excessivamente “clean”, quase laboratorial, começa a perder força. O futuro da decoração não está mais na ausência de coisas, mas na presença de escolhas. Na edição pessoal de cada detalhe. Isso dialoga com o que conversamos na coluna passada: a necessidade de assumir o que nos representa, aproximando o ambiente de quem vive nele. O gesto manual cria aconchego porque devolve humanidade ao espaço.>
Neste contexto, algumas criadoras ajudam a ampliar o repertório do que significa “fazer à mão hoje”, cada uma com sua própria linguagem. A primeira delas é Kaori Matsumo (@kaorimatsumo.to), que vive em Osaka, no Japão, e cria tutoriais acessíveis com acabamento impecável. Suas ideias de decoração e presentes — especialmente agora, na temporada natalina — mostram como projetos simples podem ganhar força quando existe direção estética. É manual, mas tem propósito. É o tipo de inspiração que ensina que design é escolha, não luxo.>
Na mesma linha, Débora Jardim (@deborajarrdim) cria soluções que misturam praticidade com linguagem visual clara. Em plena maratona de sugestões para presentes de Natal, ela mostra como materiais comuns podem se transformar em objetos cheios de estilo. Débora faz parte desse grupo de criativas que provam que o “faça você mesmo” também pode ser contemporâneo, organizado e cheio de identidade.>
Outra figura que vale entrar nessa conversa é Chica Capeto (@chicapeto). Filha da designer Isabela Capeto, Chica cresceu aos olhos de quem acompanha a moda brasileira e hoje se afirma como uma criativa por conta própria. No perfil, ela se define como fazedora, e isso já explica muita coisa. Ela mistura cores, texturas e pequenos projetos de um jeito leve, quase intuitivo, e é inspiradora pelo conjunto. Além disso, ver o olhar afetuoso que ela lança sobre a mãe cria essa sensação de continuidade criativa, de legado vivo. É daqueles perfis que servem como respiro mental: quando a gente pensa “preciso ver algo interessante agora”, ir à página de Chica resolve.>
E encerro a lista com a ilustradora Nath Araújo (@nanaths), que construiu um universo rosa e preto absolutamente reconhecível. O cotidiano dela — ao lado do marido Lusca e dos cinco gatos — vira uma narrativa onde humor, cor e sensibilidade convivem sem esforço. Quando retorna à sua “skin de ilustradora”, emerge o traço que a tornou referência. Sua novidade mais recente é o livro de colorir Nanaths, lançado em plena retomada desse formato como ferramenta de descanso e expressão criativa. Uma ótima dica de presente de Natal, ou até um presente para si mesma: entrar, por alguns minutos, no mundo lúdico que ela criou. Custa: R$ 44,90. >
E já que estamos falando de criação manual, de gesto e de intenção, não posso deixar de incluir Kátia Najara, uma das cozinheiras mais curiosas e inquietas que conheço. Ela acaba de lançar o Zabé (@zabesalvador), seu novo projeto gastronômico em Salvador, que nasce desse lugar onde comida, memória e design se encontram. A estreia vem com um menu natalino afetuoso, prático e cheio de sabor, mas o projeto segue depois das festas com delivery, kits congelados e encomendas que unem técnica e afeto. Kátia cozinha como quem desenha: cada prato tem ritmo, textura e propósito. É a mão em ação do preparo à apresentação.>
E, na vibração do aconchego que atravessa toda esta edição, deixo uma última dica: no dia 11 de dezembro, “Orgulho & Preconceito” (2005) volta aos cinemas brasileiros em comemoração aos 20 anos do filme. Ver Keira Knightley e Matthew Macfadyen novamente nas telonas é revisitar um lugar afetivo que mora em muita gente. Funciona como os shows de bandas antigas que lotam estádios: um retorno breve ao que nos formou. Um respiro. Um lembrete de que, às vezes, o aconchego está no reencontro com aquilo que nos marcou.>
No fundo, tudo nesta coluna fala do mesmo assunto: presença. O gesto manual, o design que comunica, a peça que tem intenção, o filme que volta, a comida que abraça. O mundo pode acelerar o quanto for — a gente sempre retorna ao que tem verdade. Porque é ali que mora o sentido.>