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Marcio Meirelles reinterpreta o clássico Odisseia, de Homero

Espetáculo inédito estreia neste sábado (7) no Espaço Cultural da Barroquinha

  • Foto do(a) author(a) Doris Miranda
  • Doris Miranda

Publicado em 5 de março de 2026 às 06:00

Peça, que apresenta trajetória do herói Odisseu, mescla texto de Homero e Heiner Müller
Peça, que apresenta trajetória do herói Odisseu, mescla texto de Homero e Heiner Müller Crédito: Ananda Brasileiro Ikishima

O rei grego Odisseu (ou Ulisses, na mitologia romana) vagou por dez anos depois da Guerra de Tróia, que também havia lhe consumido uma década, até chegar, 20 anos depois, à sua terra natal, Ítaca. Nessa viagem cheia de aventuras, quem diria, passou pelos mares quentes da Bahia e até visitou Salvador.

A licença poética, claro, vem da ficção. Não da clássica Odisseia, texto do grego Homero. Mas da imaginação do dramaturgo baiano Marcio Meirelles, que apresenta a partir deste sábado (7), no Espaço Cultural da Barroquinha, a montagem inédita Odisseia. As apresentações acontecem até dia 22, com sessões às sextas (19h), aos sábados (16h e 19h) e aos domingos (16h).

O espetáculo, cujo texto se funde com Paisagem com Argonautas (1982), do dramaturgo alemão Heiner Müller, é resultado do projeto de capacitação artística e profissional que o diretor desenvolve desde janeiro do ano passado com o Centro Cultural Banco do Brasil, o Tempo: Disseminação Cultural e Inclusão Social no Teatro Vila Velha.

Através dele, cuja conclusão marca a formatura dos 30 bolsistas da 11ª turma da Universidade Livre (com uma carga horária extensa de mil horas, ao longo de 1 ano), os participantes vivenciaram atividades, ações, experimentos, além de uma série de oficinas das mais diversas linguagens, como teatro, dança, percussão e libras. O resultado estará no palco da Barroquinha.

A Odisseia, poema épico de Homero, narra o regresso de Ulisses para casa, numa jornada de tormenta e experimentações. Como diz no texto, o “herói de mil estratagemas que tanto vagueou, depois de ter destruído a cidadela sagrada de Tróia, que viu cidades e conheceu costumes de muitos homens e que no mar padeceu mil tormentos, quanto lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros”.

A partir da epopeia do guerreiro, o texto desloca o mito do heroísmo para o território das escolhas humanas. Após a guerra, Odisseu, Penélope e Telêmaco seguem atravessados pelos escombros do conflito: a vitória não coloca um ponto final na vertigem da guerra, ou salvaguarda seu retorno para o seio da família. Sua travessia não apenas é geográfica como também de reinvenção do homem que já foi certa feita.

A partir desse mote, a Universidade Livre investiga questões políticas, econômicas e culturais que atravessam milênios e possuem muitos paralelos atuais. “Ao encarar o mito do nosso ponto de vista, do presente, Odisseia torna o nosso momento num tempo histórico, marcado por crises políticas, guerras, colapsos institucionais e disputas de narrativa. Vivemos um momento em que cada escolha coletiva (silenciar, consentir, resistir, agir) projeta um futuro possível”, reflete Marcio Meirelles, encenador e diretor artístico do Teatro Vila Velha.

O diretor Marcio Meirelles
O diretor Marcio Meirelles Crédito: Ananda Brasileiro Ikishima

Diálogo de dois tempos

Através da conexão entre os textos de Homero e Müller, Marcio Meirelles retoma nesse espetáculo um recurso de metateatro que costuma incorporar às suas montagens. Um exemplo disso é o que fez em Hamlet+HamletMachine, ao juntar Shakespeare e Müller, espetáculo que se organiza em múltiplas formas de narrativa.

Esse diálogo, entre os sete primeiros Cantos do texto clássico e a contemporaneidade de Paisagem com Argonautas, conecta linguagens e imaginários. Essa zona em comum amplia a narrativa mítica e a conecta à atualidade, marcada por desgraças de diversas naturezas, como as crises políticas, as guerras, ou os colapsos climáticos quem nos encontramos.

Despojado dos deuses ancestrais, dos monstros mitológicos ou das realizações típicas dos heróis, o texto da montagem se concentra no que há de mais humano na jornada de cada ser humano que já andou, anda ou ainda vai andar por esta Terra: o peso da escolha entre o sim e o não.

Todas as sessões de Odisseia têm tradução de Libras integrada à dramaturgia como parte constitutiva da cena.

SERVIÇO - Espetáculo Odisseia | de 7 a 22 de março, com sessões às sextas (19h), aos sábados (16h e 19h) e aos domingos (16h), no Espaço Cultural da Barroquinha, na Praça Castro Alves | Ingressos: R$ 40 e R$ 20, à venda no Sympla - 40% de desconto no Clube CORREIO.

Tags:

Teatro