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Morro dos Ventos Uivantes é um filme sensacionalista, e mais interessante quando se assume

Estrelado por Jacob Elordi e Margot Robbie, longa explora erotismo da obra de Emily Brontë

  • Foto do(a) author(a) Doris Miranda
  • Foto do(a) author(a) Estadão
  • Doris Miranda

  • Estadão

Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 06:00

Jacob Elordi dá vida a Heathcliff e Margot Robbie interpreta Cathy Earnshaw no filme dirigido por Emerald Fennell
Jacob Elordi dá vida a Heathcliff e Margot Robbie interpreta Cathy Earnshaw no filme dirigido por Emerald Fennell Crédito: divulgação

Desde seu primeiro anúncio, a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell, foi recebida com desconfiança. A diretora vinha de dois filmes controversos – Bela Vingança e Saltburn – e, embora o primeiro tenha sido indicado a diversos Oscars, a crítica e o público se dividiram entre enxergá-la como uma autora original e considerar que seus filmes traziam apenas o choque pelo choque.

Além disso, o anúncio de Jacob Elordi como Heathcliff e Margot Robbie como Cathy Earnshaw pareceu inadequado aos leitores do romance. Na obra original, Heathcliff é um homem não branco e Cathy se casa com Edgar Linton com apenas 17 anos e morre pouco tempo depois. As diversas entrevistas da diretora afirmando que havia privilegiado os aspectos sexuais da história e as imagens de divulgação com figurinos e cenários, pouco fieis à época em que o livro se passa, também não ajudaram.

As divergências entre filme e livro se tornaram tamanhas que parte do público passou a especular que se trataria de uma adaptação pós-moderna, algo como uma história dentro da história. Uma estrutura como essa, além de explicar mudanças tão significativas, seria uma maneira de trazer para o cinema um dos aspectos mais desafiadores e esquecidos de Morro dos Ventos Uivantes: a narração polifônica e não confiável. Não é disso que se trata e, embora tome diversas liberdades importantes, o filme é uma adaptação bastante direta do romance.

Sua estética surrealista não parece ser um erro de caracterização, mas uma escolha criativa que o situa não na tradição de dramas de época, da mesma linhagem de Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrman, que não leva o espectador para os anos 20 ou a Paris da Belle Époque, mas para um imaginário dessa época. Importa menos o período preciso da história e mais o que o presente faz desse período.

E é inegável que o presente tem feito da Inglaterra vitoriana e regencial o cenário de incontáveis histórias de amor, nas quais a tradicional trama do casamento é incrementada por diversas cenas de sexo. Bridgerton é o maior exemplo dessa tendência em que a extrema rigidez moral que projetamos para a época é exatamente o que torna sua transgressão tão excitante.

Apesar da indignação de parte do público quando a diretora anunciou esse caminho, a temática do desejo e da sexualidade é bastante presente na narrativa de Brontë. Ao tornar sua Cathy muito mais velha que a versão literária, Emerald Fennell permite que ela e Heathcliff de fato possam consumar um desejo físico que no livro permanece apenas latente.

Nobreza sensual

Embora muito tenha sido feito do filme como “fetichista”, há apenas duas cenas que usam a imagética que nós hoje chamaríamos de BDSM. Durante o restante do tempo, o que Fennell faz é dar um subtom erótico e tornar mais explícitos os complicados jogos de dominação e humilhação moral que já se encontram no material fonte.

Da mesma forma, embora o filme evite tratar da questão racial de Heathcliff, há um bom trabalho de construção do personagem como aparte ao mundo da nobreza inglesa: aqui, ele é animalizado, construído como alguém cuja separação da natureza e vínculo com a civilização é tênue. Owen Cooper, de Adolescência, faz um belo trabalho com o jovem Heathcliff na primeira parte do filme e a atuação de Jacob Elordi é notável, ao mesmo tempo ameaçadora e sensual, com o ator fazendo um uso pleno e bastante consciente de sua fisicalidade impressionante.

Mas o que poderia ser um deslocamento interessante da questão racial de Heatchliff para Nelly, de origem asiática, é esvaziado pelo casting de Shazad Latif, ator britânico de ascendência paquistanesa, como Edgar Linton. Escolha que novamente aproxima Morro dos Ventos Uivantes de adaptações literárias recentes como Bridgerton e Os Bucaneiros (Apple+): ambas trazem atores não brancos em papéis de destaque.

No romance de Brontë, Catherine Earnshaw é criada como uma menina livre e, ao crescer, ela se sente profundamente dividida entre a identificação que sente com o selvagem Heathcliff e seu desejo de se integrar ao mundo da boa sociedade. Aqui, Cathy é mais claramente ávida por luxos e sedas. Ela e Heathcliff são construídos como opostos – o bruto e a princesa, ele, moreno e sombrio; ela loira e luminosa –, o que contradiz toda a relação deles no livro e torna duvidosa a citação literal de uma de suas passagens mais famosas: “E amo não por ele ser bonito, Nelly, mas por ser mais eu do que eu mesma. Não sei do que as almas são feitas, mas a dele e a minha são iguais”.

Adaptar um clássico é sempre acrescentar uma voz a um campo já lotado: há mais de uma dezena de adaptações cinematográficas de Morro dos Ventos Uivantes. O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennel é extremamente pessoal e ela se firma como uma diretora de marca autoral firme e suas melhores escolhas são aquelas que vão de encontro ao projeto estético já estabelecido da cineasta.

Por outro lado, o filme é também um produto comercial de seu tempo, mais uma oferta para um mercado sedento por romances tórridos e histórias de época. É um filme sensacionalista, de fato, mas que se torna mais interessante quando assume essa veia e o kitsch inerente a ela.

Tags:

Cinema