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Doris Miranda
Estadão
Publicado em 19 de fevereiro de 2026 às 06:00
Desde seu primeiro anúncio, a adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell, foi recebida com desconfiança. A diretora vinha de dois filmes controversos – Bela Vingança e Saltburn – e, embora o primeiro tenha sido indicado a diversos Oscars, a crítica e o público se dividiram entre enxergá-la como uma autora original e considerar que seus filmes traziam apenas o choque pelo choque. >
Além disso, o anúncio de Jacob Elordi como Heathcliff e Margot Robbie como Cathy Earnshaw pareceu inadequado aos leitores do romance. Na obra original, Heathcliff é um homem não branco e Cathy se casa com Edgar Linton com apenas 17 anos e morre pouco tempo depois. As diversas entrevistas da diretora afirmando que havia privilegiado os aspectos sexuais da história e as imagens de divulgação com figurinos e cenários, pouco fieis à época em que o livro se passa, também não ajudaram.>
As divergências entre filme e livro se tornaram tamanhas que parte do público passou a especular que se trataria de uma adaptação pós-moderna, algo como uma história dentro da história. Uma estrutura como essa, além de explicar mudanças tão significativas, seria uma maneira de trazer para o cinema um dos aspectos mais desafiadores e esquecidos de Morro dos Ventos Uivantes: a narração polifônica e não confiável. Não é disso que se trata e, embora tome diversas liberdades importantes, o filme é uma adaptação bastante direta do romance.>
Sua estética surrealista não parece ser um erro de caracterização, mas uma escolha criativa que o situa não na tradição de dramas de época, da mesma linhagem de Moulin Rouge (2001), de Baz Luhrman, que não leva o espectador para os anos 20 ou a Paris da Belle Époque, mas para um imaginário dessa época. Importa menos o período preciso da história e mais o que o presente faz desse período.>
E é inegável que o presente tem feito da Inglaterra vitoriana e regencial o cenário de incontáveis histórias de amor, nas quais a tradicional trama do casamento é incrementada por diversas cenas de sexo. Bridgerton é o maior exemplo dessa tendência em que a extrema rigidez moral que projetamos para a época é exatamente o que torna sua transgressão tão excitante.>
Apesar da indignação de parte do público quando a diretora anunciou esse caminho, a temática do desejo e da sexualidade é bastante presente na narrativa de Brontë. Ao tornar sua Cathy muito mais velha que a versão literária, Emerald Fennell permite que ela e Heathcliff de fato possam consumar um desejo físico que no livro permanece apenas latente.>
Nobreza sensual>
Embora muito tenha sido feito do filme como “fetichista”, há apenas duas cenas que usam a imagética que nós hoje chamaríamos de BDSM. Durante o restante do tempo, o que Fennell faz é dar um subtom erótico e tornar mais explícitos os complicados jogos de dominação e humilhação moral que já se encontram no material fonte.>
Da mesma forma, embora o filme evite tratar da questão racial de Heathcliff, há um bom trabalho de construção do personagem como aparte ao mundo da nobreza inglesa: aqui, ele é animalizado, construído como alguém cuja separação da natureza e vínculo com a civilização é tênue. Owen Cooper, de Adolescência, faz um belo trabalho com o jovem Heathcliff na primeira parte do filme e a atuação de Jacob Elordi é notável, ao mesmo tempo ameaçadora e sensual, com o ator fazendo um uso pleno e bastante consciente de sua fisicalidade impressionante. >
Mas o que poderia ser um deslocamento interessante da questão racial de Heatchliff para Nelly, de origem asiática, é esvaziado pelo casting de Shazad Latif, ator britânico de ascendência paquistanesa, como Edgar Linton. Escolha que novamente aproxima Morro dos Ventos Uivantes de adaptações literárias recentes como Bridgerton e Os Bucaneiros (Apple+): ambas trazem atores não brancos em papéis de destaque.>
No romance de Brontë, Catherine Earnshaw é criada como uma menina livre e, ao crescer, ela se sente profundamente dividida entre a identificação que sente com o selvagem Heathcliff e seu desejo de se integrar ao mundo da boa sociedade. Aqui, Cathy é mais claramente ávida por luxos e sedas. Ela e Heathcliff são construídos como opostos – o bruto e a princesa, ele, moreno e sombrio; ela loira e luminosa –, o que contradiz toda a relação deles no livro e torna duvidosa a citação literal de uma de suas passagens mais famosas: “E amo não por ele ser bonito, Nelly, mas por ser mais eu do que eu mesma. Não sei do que as almas são feitas, mas a dele e a minha são iguais”.>
Adaptar um clássico é sempre acrescentar uma voz a um campo já lotado: há mais de uma dezena de adaptações cinematográficas de Morro dos Ventos Uivantes. O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennel é extremamente pessoal e ela se firma como uma diretora de marca autoral firme e suas melhores escolhas são aquelas que vão de encontro ao projeto estético já estabelecido da cineasta. >
Por outro lado, o filme é também um produto comercial de seu tempo, mais uma oferta para um mercado sedento por romances tórridos e histórias de época. É um filme sensacionalista, de fato, mas que se torna mais interessante quando assume essa veia e o kitsch inerente a ela.>