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Doris Miranda
Publicado em 30 de março de 2026 às 16:36
Às vésperas de completar oitenta anos, Patti Smith se debruça sobre a própria história para escrever Pão dos Anjos (Companhia das Letras | 272 páginas | R$ 90 e R$ 45 (ebook), livro em que se revela mais intimamente. Da infância ao lado dos irmãos às doenças que teve ainda criança; da adolescência, com as descobertas incomuns e seu contato com a arte; à juventude, quando vai para Nova York e lá encontra o fotógrafo Robert Mapplethorpe; até a vida adulta, com a família que construiu ao lado do marido Fred ‘Sonic’ Smith, guitarrista do MC5. >
Todas essas fases são escavadas pela artista e retratadas neste livro com uma sinceridade desconcertante. Pão dos Anjos trabalha com a memória: não apenas no resgate dessas histórias, mas também como registro para o futuro. Patti Smith diz que encontra na literatura e na escrita a melhor forma de transmitir suas lembranças.>
“Acreditava que poderia escrever o livro mais longo do mundo, registrar os acontecimentos de todos os dias. Escreveria tudo de tal forma que todos encontrariam ali algo de si. Alguns talvez permanecessem comigo, outros criariam asas”, diz a autora, que está em turnê comemorativa pelo cinquentário do álbum Horses,>
Apesar da infância marcada por problemas de saúde e constantes mudanças de moradia em conjuntos habitacionais populares dos EUA, desde pequena, Patti teve acesso a um lado muito lúdico da vida. Quando a realidade parecia dura ou insuficiente, a pequena Patti recorria à imaginação: inventava aventuras e desaparecia em seu próprio mundo. Tudo era “um poema em potencial”, desde o olhar de sua cachorra até o som da caneta riscando o papel. “Isso é algo que consigo fazer, me sentar em silêncio, ir para outro lugar e não voltar de mãos vazias”, explica a artista.>
Entre lembranças concretas e devaneios, as experiências vividas pela autora ao longo de sua trajetória influenciaram sua atitude otimista em relação à vida. Patti diz que suas memórias estão ligadas à lembrança imaculada de gestos de bondade que recebeu de várias pessoas, direta ou indiretamente. E este é o seu “pão dos anjos”: uma cadeia de generosidades que vem sustentanso sua vida e sua arte.>
A obra se soma a outros livros memorialísticos da artista, como Linha M (2015) e O Ano do Macaco (2019), que também apresentam fragmentos de sua trajetória. Em Pão dos Anjos, porém, Smith se dedica pela primeira vez a percorrer toda a sua vida, com episódios raramente comentados pela artista, como o reencontro com a filha que teve aos 20 anos e precisou doar para adoção. >
Poesia em essência>
“Se perder o compasso, invente outro”. Foi conselho que Sam Shepard deu à Patti Smith e que guiou toda sua trajetória pelas diferentes formas de arte que experimentou. Primeiro, ela revela que sempre quis ser escritora, a música veio por acaso. Mas estiveram presentes também as diversas formas de desenho e pintura. Tudo sempre movido pelo impulso de transfigurar a beleza e a brutalidade da existência em poesia. >
O relato revisita os marcos da sua trajetória como artista, como o período de criação de Horses, seu álbum de estreia que recentemente completou 50 anos, considerado um marco na história do rock. Smith relembra o contexto da época, marcado por uma juventude – ou ratos da arte, como descreve – que muitas vezes se sentia deslocada ou rejeitada pelas próprias famílias. >
Seu desejo não era agradar o grande público, mas se conectar com as margens da sociedade. Outros episódios incluem recusar a fazer playback em um programa de televisão ou se negar a alterar a letra da canção Dancing Barefoot para torná-la mais adequada às rádios. “Nunca imaginei ter uma vida longa. Só esperava viver o suficiente para fazer algo de valor e encontrar um companheiro para amar e com quem trabalhar”, conta.>