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Maria Raquel Brito
Publicado em 14 de abril de 2026 às 05:00
Nem Carlinhos Brown sabe exatamente seu processo criativo. Se uma hora atrás queria criar um bloco novo, agora quer dar início a uma orquestra e amanhã a vontade pode ser de organizar uma creche. Sempre foi assim: a mente inquieta, ligada no 220V. “Eu queria saber como é que eu crio. Te juro”, resume, no documentário “Carlinhos Brown em Meia Lua Inteira”, que estreia nesta terça-feira (14) na HBO Max. >
Em quatro episódios de aproximadamente 50 minutos, o público mergulha na trajetória de Brown e em como se estabeleceu entre os mais influentes nomes da música brasileira atual, das origens no Candeal aos palcos mundo afora. >
Carlinhos Brown em Meia Lua Inteira
Conduzida pelo próprio Brown, a produção combina cenas exclusivas captadas especialmente para o projeto, materiais de arquivo, bastidores e depoimentos de nomes como Gilberto Gil, Marisa Monte, Daniela Mercury, Margareth Menezes, Arnaldo Antunes, Marieta Severo e Luiz Caldas. >
Além do artista que o Brasil conhece, a série documental apresenta o Carlinhos Brown amigo, pai e vizinho. Acompanhamos, por exemplo, a primeira vez que Brown reuniu os oito filhos, e vemos como sua história se confunde com a do Candeal, bairro onde nasceu e cresceu – e para onde levou os frutos do reconhecimento, através de iniciativas como a Associação Pracatum. >
O bairro, aliás, é quase um dos protagonistas da série, assim como a percussão que moldou Carlinhos como artista. A produção já começa com uma espécie de retrospectiva do Candeal, que serviu de inspiração para muito de sua obra, como as músicas Vanju Concessa e a própria Meia Lua Inteira. E não teria como ser diferente. “Eu aprendi tudo ali. É unha e carne”, diz.>
Essa também era uma peça essencial para Belisário Franca, que dirige a produção ao lado de Bianca Lenti. “Ele nasce ali, ele conecta essa ancestralidade que o Candeal traz para ele. É fonte de inspiração e ao mesmo tempo é um lugar de trabalho dele. É um artista que foi para o mundo, é do tamanho que é, tem as parcerias que tem, e no entanto permanece lá. Produz lá dentro, o estúdio dele é lá dentro, a atividade social dele com as escolas é lá dentro do Candeal. Ou seja, não dá para ter Candeal sem Carlinhos Brown e nem Carlinhos Brown sem o Candeal”, pontua.>
“A gente sempre foi muito neurótico por histórias brasileiras”, define Maurício Magalhães, produtor executivo da série e sócio CEO da Giros Filmes, sobre a empresa. Foi natural, então, pensar em explorar em uma série a trajetória de Carlinhos Brown. Quando ele e Belisário convidaram o artista, a resposta foi imediata: “vumbora”. >
“Aí já começou, ele ligou o play. Era um encontro que eu marquei com ele para tomar um café de uma hora e viraram quatro horas. A gente não parou, ele não parava de falar porque queria a série assim, assim e assim”, relembra.>
O que veio em seguida foi tão rápido quanto orgânico. Fizeram o teaser e um rascunho de argumento e, então, era a hora de bater nas portas das empresas de streaming. A primeira foi a HBO, que comprou a ideia de cara.>
“Para a gente foi um um prato de narrativa. Porque a gente busca muito histórias de impacto, mas histórias que tenham camadas um pouco escondidas ainda. E a gente sentiu isso ao ver a proposta da Giros e toda a vida do Carlinhos. Tinha muita história para contar ainda”, diz Luciana Soligo, gerente de Produção e Desenvolvimento de Não Ficção da Warner Bros. Discovery, proprietária da HBO.>
Resumir a carreira de Brown foi um dos grandes desafios desse processo, afirma Belisário – um desafio prazeroso, ressalta. Trazer a arte e o artista, o profissional e o pessoal, em quatro episódios foi uma tarefa daquelas. Mas a série mostra bem a coexistência dos dois: quem trabalha com Brown tende a se tornar um amigo. O afeto em depoimentos como os de Marisa Monte, Arnaldo Antunes, Márcio Victor e Margareth Menezes, parceiros na música e na vida, evidenciam isso. >
Se o que o público vê nos palcos é o artista extrovertido e descontraído, da porta para dentro quem toma conta é o reservado Antônio Carlos Santos de Freitas, que ele guarda para os mais próximos. Quando questionado se o público vai conhecer melhor Antônio Carlos a partir da série, ele responde de maneira resoluta: “acho que vai conhecer melhor Carlinhos Brown”.>
“Esse Brown eu terminei ganhando nos lugares de trabalho, porque a forma expressiva que o Antônio Carlos já trazia requisitava um artista que precisava ser despertado. Só que não era o Antônio Carlos, era esse Brown que eu ganhei no meio da rua. E ficou o Carlinhos da minha mãe e o Brown do mundo”, diz.>
Não é que Carlinhos Brown seja um personagem. É, segundo ele, um adendo. Os dois se complementam, e despertar o lado menos conhecido do artista era um dos objetivos dos criadores do documentário. Maurício Magalhães brincava com Belisário: “a gente tem que falar com o Antônio Carlos”. Na última entrevista para o documentário, era essa a grande meta. >
“Não foi fácil, mas conseguimos arrancar um pouco de Antônio Carlos no Carlinhos Brown”, conta o produtor executivo. Um dos momentos em que ele apareceu foi quando, segundo Maurício, o artista quase suplicou para juntar os oito filhos pela primeira vez. Nina, a filha mais velha, não vinha para o Brasil há 30 anos e ainda não conhecia alguns dos irmãos. O documentário foi a ocasião ideal para reunir todos na terra do pai. “Ali você via que era um pouco a angústia de um pai que queria prover esse encontro. Então esse foi um momento muito especial da série e da vida dele.”>
Ele canta, toca, compõe, pinta. Em mais de 45 anos de carreira, encabeçou movimentos, fez a Espanha correr atrás do trio elétrico, venceu duas vezes o Grammy Latino, foi indicado ao Oscar… e isso só para citar alguns de seus feitos. O que falta experimentar para um artista que já fez de tudo?>
“Eu tenho o maior desejo de trazer o som afro que ainda não chegou. Que nasceu no achismo mas não chegou, que chamou Vai Quem Vem. Só quem viu foi Sérgio Mendes e ganhou um Grammy. A gente só gravou um álbum. A gente não seguiu as coisas e foi o Vai Quem Vem que gerou a possibilidade de criar a Timbalada, de gerar novas coisas, mas poucas pessoas conhecem essa sonoridade dos surdos virados juntos tocando. E eu queria muito realizar isso”, afirma.>
E lá fora? Talvez uma visita aos novos nomes do pop ou mesmo ao K-pop, uma produção à la Bombando Brinque (composta para Xuxa e lançada em 2005, no álbum Festa) para a cantora PinkPantheress ou um grupo como o NewJeans? A sugestão é da repórter que vos fala, admiradora de Brown e de todo tipo de música pop. E ele não descarta a ideia. >
“Seria massa. Tem algo em mim muito adolescente, o Carnaval mesmo tem um espírito adolescente que o compositor quer que você se sinta eternamente paquerando, vivendo aquilo. (...) Eu gosto muito do conceito, gosto do BTS, de tudo que está acontecendo. Estou no bafo dos meus filhos, né? É a geração deles, eles gostam. Seria um prazer e não é difícil, não, porque geralmente [esses artistas] se interessam muito por coisas que têm algum grau cultural, que envolvam possibilidades de mistura entre os países. Eu me ponho sempre à disposição”, diz. >