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Hagamenon Brito
Publicado em 31 de outubro de 2016 às 09:52
- Atualizado há 2 anos
Um dos atores importantes da cultura pop brasileira nas últimas cinco décadas, o jornalista, produtor, compositor e escritor paulista-carioca Nelson Motta, 72 anos, lança o livro 101 Canções Que Tocaram o Brasil (Estação Brasil/Sextante | R$ 59,90 | 224 páginas), com a colaboração de Antônio Carlos Miguel.São 101 composições que, de acordo com o letrista de hits como Dancin’ Days (em parceria com Ruben Barra), Como Uma Onda (com Lulu Santos) e Coisas do Brasil (com Guilherme Arantes), se destacaram no riquíssimo universo musical do Brasil. >
A playlist, com curiosidades e que contextualiza o momento em que cada canção foi lançada, é naturalmente eclética - vai do frevo à bossa nova, do samba ao rock, do pop à axé music (Meia Lua Inteira, de Carlinhos Brown).Tem música de Noel Rosa, Cartola, Ary Barroso, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Roberto Carlos, Paulinho da Viola, Rita Lee, Tim Maia, Raul Seixas, Renato Russo, Cazuza e muito mais.Para conversar sobre o livro e sua trajetória, Nelsinho Motta nos recebeu em seu apartamento, em Ipanema, no Rio, onde vive com o gato Max, cercado de uma honrável memorabilia pop. No próximo dia 16, aliás, ele vai receber um prêmio especial do Grammy Latino, em Las Vegas. Fazer listas é algo difícil, pois envolve muitas variáveis. Como você escolheu 101 que tocaram o Brasil e, logicamente, também o teu coração? Foi uma fórmula que encontrei para escapar de algo tipo as 101 melhores de todos os tempos, eu jamais faria isso. Seria muita pretensão. Como tinha que partir de algum conceito, reuni 101 canções que tocaram o coração do Brasil, contextualizando tudo, numa trilha sonora de como as pessoas estavam se sentindo na época de cada uma delas. Pesquisei todo tipo de lista musical importante que foi feita no país, publicadas na Bizz, Rolling Stone e em grandes jornais. E também os dois volumes do magnífico livro A Canção no Tempo (1997/98), de Zuza Homem de Mello e Jairo Severiano. De cara, vi que 60 ou 50 canções eram obrigatórias, apareciam em quase todas as listas. Aí começou o filtro e também procurei estabelecer um equilíbrio entre os gêneros musicais e as épocas. Caetano Veloso disse numa entrevista, em 2004, que os Estados Unidos, Cuba e Brasil têm a música popular mais importante das Américas. Você concorda?A música americana é a grande música popular do século 20, por tudo. O Brasil disputa ali o segundo lugar com a Inglaterra, mas em diversidade de gêneros e ritmos a música brasileira é a primeira do mundo. E olha que morei 9 anos nos EUA, viajei costa à costa, e nem lá tem a variedade que temos aqui. Estados como o Pará e a Bahia são incríveis musicalmente, com não sei quantas levadas. Logicamente, que isso tem a ver com o nosso tamanho e colonização. Você incluiu quatro clássicos de Dorival Caymmi no livro: Dora, Marina, João Valentão e Saudade da Bahia. É um dos autores mais contemplados na lista, ao lado de Caetano, Ary Barroso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Tom Jobim e Vinicius de Moraes.Caymmi é um dos inventores da Bahia no imaginário brasileiro, ao lado de Jorge Amado. Fez apenas 84 músicas, pouco em quantidade, mas com uma qualidade sensacional. De qualquer jeito, é difícil escolher apenas 20 canções de um Caymmi, Chico Buarque, Caetano, Gil...Na Bahia, existe a lenda de que Ary Barroso teria composto Na Baixa dos Sapateiros (1938) sem conhecer Salvador - e o livro fala que ele esteve na cidade pela primeira vez em 1929, quando era pianista na orquestra Napoleão Tavares e Seus Soldados. De todo o modo, o mineiro Ary tinha uma incrível inventividade em falar sobre as coisas da Bahia. Era só imaginação de compositor, mesmo?Modestamente, eu também tenho (risos). Quando compus Saveiro (1966), com Dori Caymmi, eu nunca ido à Bahia ou visto um saveiro na vida. Quando finalmente fui à Bahia uns dois anos depois, a Bahia real era melhor ainda do que a imaginária. Até hoje continuo adorando a Bahia, é um segundo lar para mim.Sim, você produziu Daniela Mercury e a trama do livro/série O Canto da Sereia é ambientada em Salvador. Como você vê a produção da axé music dentro da história da música popular criada na Bahia?A música tem que ser vista sempre no contexto de sua época. Não dá para comparar o axé com a música de Caymmi, por exemplo. A grande contribuição da axé music é ser uma música de festa para o Brasil, dentro da tradição de músicas dançantes e de celebração tão presentes na cultura baiana desde sempre. Meia Lua Inteira, de Carlinhos Brown, representa o axé no livro. É uma música com um poder rítmico avassalador. Poderia ser também uma das primeiras canções do Olodum.>
Você incluiu duas canções suas no livro, Como Uma Onda e Dancin’ Days. Foi tranquilo tomar essa decisão?Essa foi outra questão que tive que enfrentar. Não podia ser hipócrita ou ter falsa modéstia, eu tenho horror disso. Como Uma Onda está em todas as listas dos anos 80 para cá, porque ela tem duas coisas importantes: consola e dá esperança a quem está sofrendo, e é o fluxo da vida para quem está feliz. Dancin’ Days não estava em todas, mas estava em muitas e representa a era discotheque. Não vou discutir a qualidade de uma ou outra - na verdade, entre uma e outra eu prefiro Certas Coisas (risos).No posfácio do livro, você cita outras canções brasileiras que também formam uma bela coleção. É o Amor, de Zezé Di Camargo, é uma delas. E eu lembro que você execrou os sertanejos na virada dos anos 90/2000. Mudou de opinião?No livro, o sertanejo é representado por Romaria, de Renato Teixeira, que é um clássido da música de origem caipira. Olha, tem muita coisa sobre a qual eu tenho uma opinião exagerada e que depois a coisa vai se assentando e provoca uma mudança em mim. Não acho ruim não, ainda bem que podemos ser essa metamorfose ambulante (risos). É o Amor é uma canção que foi melhorando com o tempo e que também foi enobrecida pela gravação de Bethânia. E a gravação de Zezé Di Camargo & Luciano já era maravilhosa! Na época em que critiquei o sertanejo, eu tinha voltado a morar no Brasil e encontrei o mercado dominado pelo sertanejo, num predomínio de um gênero como nunca acontecido antes no país. Hoje o predomínio do sertanejo é ainda maior. E, comparado com o sertanejo universitário atual, Zezé Di Camargo é praticamente um Tom Jobim. (risos) Exatamente. Quem diria que teríamos saudade do predomínio de Zezé Di Camargo! (risos).Em algo inédito na história, o Nobel premiou um compositor, Bob Dylan em literatura, o que gerou críticas de literatos ortodoxos. Qual a sua opinião?Não há duvidas sobre a alta qualidade e relevância da poesia de Dylan, escrita, falada ou cantada. Mas o premio à sua literatura de certa forma diminuem seus méritos musicais. O cara tem melodias fabulosas, clássicos do pop americano de todos os tempos, belas canções simples e diretas, várias obras primas que resistem a versões instrumentais, não são apenas mero suporte para a poesia de Dylan. Mas adorei, não levo o Nobel muito a sério. Quem sabe agora Keith Richards ganha o Nobel de Química ?Você receberá um prêmio especial do Grammy Latino no dia 16 de novembro. Qual a importância desse prêmio em uma carreira tão consagrada como a sua? Levei um susto, até fiquei emocionado, nunca esperei. É um premio especial que raros ganham, é pelo “conjunto da obra”... Mas fiquei muito feliz, fui obrigado a olhar para trás, o que evito sempre (risos) e vi que contribui para construção de muita coisa boa e duradoura na música brasileira com minhas letras, minhas criticas, produções, livros e musicais de teatro.Você está trabalhando em novidades? Quais?Estou escrevendo um musical de ficção, junto com a Patrícia Andrade, sobre a era dos grandes festivais nos anos 60. E Bethânia pediu eu pra fazer uma versão em português de Tears Dry on Their Own, da Amy Winehouse, para ela gravar. *O jornalista viajou a convite da editora Sextante>